André Ventura e João Ferreira são dois dos principais maratonistas da corrida a Belém, cuja meta é cortada no dia 24 de janeiro. Nenhum deles é uma cara desconhecida do público e debatem esta noite, a partir das 22:00, na TVI24. 

Homem dos setes ofícios, Ventura foi professor, jurista, investigador, inspetor e deu aulas ao mesmo tempo que comentava a atualidade desportiva na televisão.

João Ferreira, biólogo de formação, é eurodeputado pelo PCP desde 2009 e esteve sempre envolvido em projetos relacionados com o ambiente.

Com caminhos, visões e objetivos distintos, este é o percurso feito pelos dois candidatos.

André Ventura, o “incansável no propósito de mudar Portugal”

Faz 38 anos no dia 15 de janeiro e foi na adolescência que se aventurou nas contas, ao terminar o secundário, na área de Economia, com média de 18 valores. André Claro Amaral Ventura licenciou-se em Direito na Universidade Nova de Lisboa e tirou o doutoramento em Direito Público na University College Cork, na Irlanda. Foi professor universitário em várias faculdades e subdiretor do Mestrado em Direito e Segurança da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.

Consultor jurídico, investigador, jurista e até mesmo inspetor da Autoridade Tributária e Aduaneira. Entre 2014 e 2016 escreveu artigos de opinião em vários jornais como o Correio da Manhã, Jornal de Negócios, Jornal Cidade Viva e o Jornal OJE.

Benfiquista ferrenho – chegou mesmo a publicar, em 2016, um livro cujo título era “50 razões para mudar para o Sport Lisboa e Benfica” - Ventura foi um polémico comentador desportivo na CMTV. Mas “polémico” pode ser uma espécie de ‘nome do meio’ deste candidato.

Foi militante do PSD e nas eleições autárquicas de 2017 chegou mesmo a ser o candidato à presidência da Câmara Municipal de Loures. Nessa altura, começaram a surgir as primeiras controvérsias com as declarações feitas sobre as pessoas de etnia cigana, como quando disse que esta classe vive “quase exclusivamente de subsídios do Estado”. Chegou a ser alvo de uma queixa-crime apresentada pela candidatura do Bloco de Esquerda a Loures, na altura encabeçada por Fabian Figueiredo.

Uns meses mais tarde, tentou destituir Rui Rio e, não conseguindo, desvinculou-se dos sociais-democratas com o objetivo de criar uma nova força política “capaz de romper com os poderes instalados e com o politicamente correto”.

Nasce o Chega.

Estávamos em abril de 2019 e surge um partido de extrema-direita que tem como pilares a redução do número de deputados na Assembleia da República e respetivos salários, a castração química de pedófilos e o aumento das penas de prisão em Portugal.

Nas legislativas de 6 de outubro desse ano, André Ventura é eleito deputado pelo círculo eleitoral de Lisboa, o maior do país, com 67.502 votos (1,29%).

A 8 de fevereiro de 2020, o presidente e deputado único do Chega anunciou a candidatura à Presidência da República. Num vídeo a que a TVI teve acesso, na altura, Ventura disse que a candidatura era uma “decisão pessoal”, uma vez que não podia “aceitar o que estava a acontecer a Portugal”, numa crítica direta a Marcelo Rebelo de Sousa. Talvez, por isso, se defina como “incansável no propósito de mudar Portugal”, no Twitter.

Nesse vídeo, Ventura disse que não iria suspender o mandato enquanto deputado; no entanto, a 22 de dezembro, fez exatamente o oposto. O deputado único do Chega pediu a suspensão temporária do mandato, por ser candidato à Presidência da República. O pedido foi chumbado. Votaram contra o PS, PSD, Bloco de Esquerda e PCP, no dia 29 de dezembro.

Populista, defensor das forças de segurança, sem medo do confronto e da popularidade de Marcelo, é este o perfil do candidato mais mediático a seguir a Marcelo Rebelo de Sousa.

Se Ventura ficar atrás de Ana Gomes, haverá uma grande probabilidade de se demitir do Chega. Foi o próprio a dizê-lo. A 24 de janeiro saberemos.

João Ferreira, o candidato que vai apostar todos os cartuchos numa campanha em plena pandemia

João Manuel Peixoto Ferreira. O biólogo e eurodeputado de 42 anos é o candidato presidencial com o orçamento para a campanha mais elevado: cerca de 450 mil euros. 

João Ferreira fez ainda uma grande aposta nas redes sociais e aproveitou o Instagram para deixar uma mensagem de Ano Novo a todos os portugueses.

Em 2001, licenciou-se em Biologia, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e grande parte da carreira tem sido feita lá fora, mais concretamente em Bruxelas, sempre envolvido em projetos relacionados com o ambiente, ordenamento e gestão do território.

Em 2009, foi eleito deputado pelo PCP para o Parlamento Europeu, cargo que mantém desde então. Dentro da instituição europeia é vice-presidente do Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica, e membro de várias Comissões: Pescas, Transportes e Turismo, Ambiente, Saúde Pública e Segurança Alimentar e Assuntos Constitucionais. No passado, também integrou as Comissões da Indústria, Energia e Investigação e Orçamentos.

Autor do livro “A União Europeia não é a Europa”, João Ferreira foi ainda, entre 2009 e 2012, diretor da revista “Portugal e a UE”.

Em 2012, torna-se membro do Comité Central do PCP, da Direção da Organização Regional de Lisboa e da Direção do Sector Intelectual de Lisboa, ambas do Partido Comunista. Nas autárquicas do ano seguinte, 2013, ganha mais um cargo: vereador da Câmara Municipal de Lisboa.

De recordar ainda que, durante oito anos, foi membro da Assembleia de Freguesia da Ameixoeira (1997-2005).

Também em 2013 foi-lhe atribuído o prémio de “Embaixador do Desenvolvimento”, pelo Instituto Marquês de Valle Flôr, pelo seu papel na “promoção de políticas europeias mais justas e coerentes”.

Em maio de 2014, foi o cabeça de lista do PCP às eleições Europeias e voltou a ser candidato às eleições autárquicas em Lisboa em 2017.

Fazendo contas, João Ferreira já foi cabeça de lista dos comunistas pelo menos cinco vezes: autárquicas de 2013 e 2017; europeias de 2014 e 2019; e, agora em 2021, candidato à Presidência. 

É, sem dúvida, um dos principais rostos do partido e um potencial sucessor de Jerónimo de Sousa ao cargo de Secretário-geral do PCP. Foi o próprio Jerónimo que o admitiu numa entrevista à SIC Notícias, durante o último congresso do PCP.

Segundo a última sondagem da TVI/Observador, Marcelo Rebelo de Sousa será eleito à primeira volta com 68% das intenções de voto. Ana Gomes ficará em segundo lugar, com 10,9%, e, com apenas menos duas décimas, segue-se André Ventura no terceiro lugar com 10,7%. Já João Ferreira, de acordo com a sondagem, ocupará o sexto lugar com 3,5% das intenções de voto, ficando atrás de Marisa Matias (5,1%).

Cláudia Évora