Carmelinda Pereira é uma lutadora: luta há mais de trinta anos pelos ideais em que acredita. Ela é afinal a prova de que o poder nem sempre corrompe. Numa altura em que o FMI volta a invadir Portugal, o nome da fundadora e líder do POUS volta a fazer sentido. Afinal foi por causa do FMI que o POUS nasceu na ressaca da revolução de Abril e no turbilhão de conceitos que se seguiu.

«Ajudei a construir o PS para que esse partido fosse a verdadeira coluna vertebral da sociedade portuguesa». Mas o PS não foi o partido que ela esperava que fosse. «Lembro-me que Mário Soares foi chamado a Washington e foi-lhe dito que o Portugal estava a virar muito à esquerda. Ele respondeu que como tinha virado à esquerda, podia virar à direita. Eu não podia pactuar com isto.»

Foi deputada da Assembleia Constituinte e deputada da Assembleia da República: sempre pelo PS, claro. Até ao dia em que Mário Soares deu ordens à bancada socialista para que votasse favoravelmente o orçamento de estado que permitia a entrada do FMI em Portugal. Carmelinda Pereira e Aires Rodrigues votaram contra. «Fui expulsa do partido». Mas não traiu os ideais.

Com uma série de outros trotskistas fundou em 1979 o Partido Operário de Unidade Socialista. Entre eles estavam Joaquim Pagarete e Carlos Araújo Melo. Hoje têm acima dos 60 anos, mas não desistem de lutar pelo verdadeiro socialismo. Esta manhã estiveram na Faculdade de Ciências, em Lisboa. Com uma banca rudimentar e um abaixo-assinado pela retirada do plano da troika.



Os alunos passavam, olhavam, a maior parte deles nem recebiam os panfletos. Poucos imaginavam que aquelas três pessoas tinham feito parte dos movimentos estudantis e da revolta contra a ditadura. Nenhum deixou o nome no abaixo-assinado. «Nunca fomos um partido dos votos», diz Carmelinda. «Não é importante. O que é importante é que a mudança social esteja a abrir consciências.»

Nas últimas legislativas o POUS teve dois mil votos: foi o segundo partido menos votado. «Fui educada num colégio. Quando me tornei professora fui para uma aldeia de 48 crianças com questões sociais terríveis. Fiquei revoltada com o que via e não conseguia mudar. Vim para Lisboa, tomei contacto com as revoltas estudantis e comecei a fazer parte das políticas de intervenção.»

Por isso diz que não está na política pelo poder. «Defendemos a nacionalização dos bancos ou das grandes empresas do estado, não por casmurrice ou por ideologia. É uma questão prática: para se poder criar postos de trabalho e colocar estas empresas a trabalhar, é necessário dinheiro. O dinheiro que não pode estar nas mãos dos especuladores, que o levam para os paraísos fiscais.»

Trinta anos depois o POUS defende os mesmos princípios. «É preciso nacionalizar. Não há outro caminho», garante. «É um saque aos banqueiros? Mas temos maior saque do que está a acontecer aqui em Portugal ou na Grécia? Só num ano de aplicação das medidas do FMI saiu da Grécia a riqueza correspondente ao seu produto interno bruto. A ditadura da troika não é aceitável.»

As eleições devem confirmar mais uma votação residual. Longe da luta pela eleição de um deputado. «Não ganhámos, mas também não perdemos: a sociedade hoje não é analfabeta. Há milhares de jovens habilitados para tomar este país nas mãos. Agora é a vossa hora, como mostraram a 12 de Março», diz, quem acredita que a revolução socialista está a fazer-se. «Isto vale a pena».