Marisa Matias e João Ferreira foram esta sexta-feira a debate, mas foram mais as questões que os uniram, do que as diferenças que os separaram.

Os dois candidatos fizeram jus às bandeiras ambientalistas que defendem e, talvez por isso, tenham decidido não estragar o clima do frente a frente.

"Não vale a pena cavar diferenças onde elas não existem": a frase é de João Ferreira e resume bem o conteúdo desta troca ideias, em que não faltaram as questões ambientais, nem a situação pandémica.

Questionado sobre o que realmente o distingue de Marisa, o candidato comunista enumerou as questões do trabalho, que diz dar grande centralidade. Confrontado com o facto da bloquista poder dizer algo semelhante, João Ferreira afirmou que tem confiança que o seu eleitorado consegue fazer essas distinções.

Marisa, por sua vez, referiu que "as candidaturas de esquerda representam uma pluralidade importante nestas eleições".

Não há nenhum mal em assumirmos diferenças", disse a candidata, que admitiu ainda ter visões "relativamente diferentes" quanto às questões climáticas e nucleares.

O encerramento da refinaria da Galp em Matosinhos foi um dos temas em debate. João Ferreira admitiu que é uma questão complexa porque envolve despedimentos massivos, grupos económicos grandes e substâncias prejudiciais ao ambiente. Sem surpresas, Marisa Matias partilhou muito do que foi dito pelo suposto adversário.

A questão da descarbonização é usada, muitas vezes, como um slogan vazio", destacou.

"Se toda a esquerda tivesse sido firme, tínhamos revolvido o problema do SNS"

Onde os dois revelaram as tais “diferenças” relacionaram-se com o Orçamento do Estado de 2021, que o PCP ajudou a viabilizar com a abstenção, e contra o qual votou o Bloco de Esquerda.

A candidata apoiada ao Bloco de Esquerda começou por referir que "o SNS é a maior conquista da democracia", mas que "estamos a fazer pouco" e que é necessário repensar o SNS para que responda a mais necessidades nacionais.

Marisa, que defendeu que "esta crise pandémica podia ter sido uma oportunidade" para o serviço de saúde, atirou ainda uma crítica ao OE2021: "Se toda a esquerda tivesse sido firme, tínhamos revolvido o problema do SNS". 

João Ferreira acrescentou que a resposta do SNS durante a pandemia "é motivo de orgulho", mas acaba também por sugerir que tem de haver mais investimento e que essa falha "abriu caminho para a doença" que deveria ter sido corrigida pelo Governo.

Aproveitou ainda para acusar Marcelo Rebelo de Sousa "de se meter no caminho" quando os partidos quiseram travar o negócio com os privados. 

Questionada se acha que saiu prejudicada nas Presidenciais pelo BE ter votado contra o OE2021, Marisa respondeu, indiretamente, que também não gosta, "tal como o João Ferreira, de quem desiste a meio dos desafios".

Já no final do debate, e a propósito da resposta à pandemia de covid-19 e face à iminência de um confinamento geral, a exemplo do que aconteceu em abril e maio de 2020, surgiu mais uma diferença.

Marisa Matias disse compreender “as insuficiências” apontadas pelos comunistas para justificar o seu voto contra a renovação do estado de emergência, mas também compreende que é necessário “reduzir os contágios”

Não compreendo que se pode votar contra essas medidas e ao mesmo tempo se peça às pessoas para reduzir os seus contactos sociais”, comentou a eurodeputada bloquista.

Os dois candidatos de esquerda sublinharam, por exemplo, “convergências nas preocupações” nas questões ambientais e na necessidade de salvaguardar, no encerramento da refinaria da Galp em Matosinhos (Porto), os direitos dos trabalhadores

E João Ferreira sublinhou que são os trabalhadores da refinaria de Sines são os primeiros a defender, “há anos”, uma “tecnologia verde”.

Marisa Matias criticou, por seu lado, que a descarbonização, e que tem justificado o encerramento da refinaria para combater as alterações climáticas, “usada como um ‘slogan’ vazio”.

Onde se viu mais uma diferença de tom foi quanto à pandemia e ao eventual confinamento, com a candidata bloquista a admitir que é “uma situação muito trágica” e há uma “obrigação de reduzir os contágios”.

Já João Ferreira admitiu que não se pode desvalorizar a necessidade de proteger as pessoas e reclamou medidas para a “proteção dos trabalhadores”.