Ainda Marcelo e Marisa pousavam delicadamente o guardanapo de pano em cima da mesa e já Ventura e João Ferreira arregaçavam as mangas. Uns beberam chá e trocaram pontos de vista. Outros falaram alto, trataram-se por tu e trocaram insultos como quem passou a noite a beber outra coisa qualquer.

Quem diria que André Ventura ia encontrar um adversário à altura no primeiro debate das presidenciais? João Ferreira, habitualmente frio e reservado, deixou-se levar pela temperatura na sala e foi à luta. Se, no arranque do debate na TVI, o candidato do Chega atacava o PCP (o tema era a mais recente polémica com a ministra da justiça, mas teria feito o mesmo fosse qual fosse o assunto), dois minutos depois Ferreira respondia acusando o adversário de mentir. E manteve sempre o ritmo: falou por cima e devolveu acusações, perdeu a paciência e quando pôde apontou às canelas do oponente. Marcou pontos quando explorou as inconsistências de Ventura e do programa do seu partido, quando pôs a nú o desprezo que Ventura revela pelas instituições democráticas e pela própria Constituição que um Presidente tem de jurar defender e fazer cumprir. Ainda tentou fintá-lo com Marine Le Pen, mas acabou a empatar quando fez a desastrada defesa do regime venezuelano e ficou a marcar passo na questão da eutanásia onde pareceu desconfortável a defender a posição do PCP. Mas foi à luta e ajudou a manter o debate sempre a ferver. Tão quente que chegou a ser impercetível.

Acontece que esta surpresa representa também um problema para o candidato comunista: era André Ventura quem tinha a mão no termostato. Foi ele quem quis fazer o combate na lama porque é ali que se sente mais confortável a bater nos adversários e João Ferreira deixou-se arrastar. E só por isso, Ferreira perdeu. O candidato apoiado pelo Chega nem foi particularmente subtil quanto à estratégia que trazia de casa. Nos primeiros 60 segundos já tentava desequilibrar o adversário apontando a um suposto nervosismo. Daí para a frente foi só beber da cartilha básica de Trump, furar todas as regras, interromper a toda a hora, e jogar mão de todos os truques, mesmo dos mais previsíveis: do apoio ao governo do PS à inevitável Coreia do Norte. Foi, aliás, o que fez sempre que era apanhado em falso. Fugia das perguntas incómodas e respondia com novos ataques.

Não é uma estratégia propriamente corajosa, mas para o seu crescente clube de fãs chega perfeitamente. Claro que se Ventura pretender disputar uma parte do voto tradicional do PCP, neste debate não deve ter capitalizado muito. Mas provavelmente não era isso que lhe interessava. O discurso anti-esquerda em geral e anti-comunista em particular era para ser ouvido por algum eleitorado de direita que continua amorfo à procura de um líder.

E se Ventura tiver sido bem sucedido nesta estratégia, talvez Marcelo tenha perdido alguns votos em favor do concorrente. Até porque, na mesma noite, o atual Presidente da República pareceu mais preocupado em segurar os votos robustos que conta ter à esquerda (até entre os eleitores do BE, como têm mostrado as sondagens) do que em falar à direita. Elogiou Marisa Matias, sublinhou a pertinência dos argumentos da candidata – mesmo quando serviam para o atacar -, partilhou prioridades como o SNS, pediu que o Governo se mantenha em funções até 2023. Em resposta, Marisa admitiu que a corrida está ganha à partida e Marcelo Rebelo de Sousa será, provavelmente, o próximo Presidente da República. E assim ficaram os dois, serenos e amigáveis, enquanto o chá não arrefecia, a aproveitar que ali ninguém conversa com bolas de lama na mão. Por enquanto.

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Pedro Benevides