A ex-eurodeputada socialista Ana Gomes afirmou esta quinta-feira que não podia "desertar" do combate das próximas eleições presidenciais face à situação do país e considerou "inaceitável a desvalorização" deste ato eleitoral pelo PS.

Na declaração em que anunciou a sua entrada na corrida a Belém, na Casa da Imprensa, em Lisboa, Ana Gomes prometeu colaborar com os governos, ser dialogante, mas também combater os interesses instalados em nome da transparecia.

Numa conferência de imprensa em que optou por não surgir rodeada de apoiantes, Ana Gomes disse que, "durante meses e meses", esperou que o seu partido apresentasse um candidato próprio, saído das suas fileiras ou da sua área política, mas isso não aconteceu.

Não compreendo nem aceito a desvalorização de um ato tão significante como as eleições presidenciais. O Presidente da República não é eleito para governar, mas a Constituição atribui-lhe um papel vital no equilíbrio do sistema político e partidário. Cabe-lhe defender a Constituição", declarou.

A seguir, a ex-eurodeputada do PS deixou duas perguntas dirigidas à direção do seu partido: "Como pode o socialismo democrático não participar nesta eleição? Como pode dispensar-se de estar genuinamente representado numa competição democrática para o mais alto cargo da nação?".

Ainda para mais quando vivemos tempos estranhos, de grave crise económica desencadeada pela crise sanitária com impacto global. Tempos que anunciam desemprego, tensões sociais e políticas, mais desigualdades, mais insegurança", apontou.

Neste contexto, Ana Gomes salientou que a sua candidatura representará "o campo do socialismo democrático, progressista".

Tenho uma história de empenhamento cívico e político, pessoal e profissionalmente nos planos nacional, europeu e internacional que me qualificam para o representar. Tenho abertura e capacidade para dialogar e quero ouvir todos os quadrantes democráticos", alegou.

A ex-eurodeputada socialista atacou depois as correntes de extrema-direita.

Sabemos que forças antidemocráticas espreitam oportunisticamente por desígnios autoritários que só podem trazer repressão e violência, como a História ensina. Não é possível também ignorarmos que uma parte do sistema, vertido nas próprias instituições da República, se deixou corroer, capturado por interesses financeiros, económicos ou outros - que não representam ou servem o interesse público geral", acrescentou.

Ana Gomes elogia mandato de Marcelo mas país precisa de “um Presidente diferente”

Elogiou a "coabitação" entre o chefe de Estado e os governos PS desde 2016, mas defendeu que Portugal precisa agora de um Presidente da República diferente, sem medo contra interesses instalados.

Candidato-me porque acredito que Portugal precisa de uma Presidência da República diferente, de uma Presidente que dê garantias de independência, que sirva o interesse nacional e não tenha medo, nem peias, de ir contra interesses instalados", declarou.

Segundo a ex-eurodeputada do PS, Portugal precisa de "uma Presidente livre, uma Presidente livre de compadrios e de comprometimentos, que se empenhe para que as instituições da República funcionem com meios adequados e com mais eficácia, transparência, integridade e mais solidariamente".

Portugal precisa "de uma Presidente que, respeitando os limites da Constituição, zele pelos direitos dos cidadãos e estimule a sociedade civil a escrutinar, a pedir contas a quem governa e decide. Portugal precisa de uma Presidente que colabore com os governos, sejam de que partido forem - sem se deixar condicionar ou ser refém de agendas partidárias", completou.

Interrogada sobre a forma como o atual chefe de Estado, cuja sua base eleitoral partiu da direita política, se entendeu com os executivos minoritários socialistas, que têm sido suportados no parlamento pelo Bloco de Esquerda e PCP, Ana Gomes elogiou neste aspeto a atuação de Marcelo Rebelo de Sousa.

Considero que foi muito importante a articulação entre os governos de António Costa e o Presidente da República. Faço um balanço positivo do mandato do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, desde logo pela descrispação que conseguiu introduzir numa sociedade que estava muito crispada. Muito crispada até por aspetos que tinham a ver com a personalidade do anterior Presidente da República", Aníbal Cavaco Silva, respondeu.

Ana Gomes lembrou em seguida que, na sequência das últimas eleições legislativas, lamentou não ter havido capacidade para negociar uma coligação entre as forças de esquerda "que proporcionasse estabilidade à governação e propiciasse as reformas de fundo que o país precisa".

Felizmente, vejo que houve uma evolução, porque isso está a ser discutido. Sem dúvida que, neste quadro, o papel do Presidente da República será muito importante. Cada pessoa é diferente. Eu sou diferente de outros candidatos e relativamente ao tipo de contribuição que posso ter nesse processo" de diálogo à esquerda, salientou.

Mas a diplomata foi ainda mais longe: "Posso ter um papel nessa articulação sem me tornar refém de qualquer estratégia partidária, seja de quem está no Governo ou na oposição".

Ana Gomes afirmou que não se candidata contra ninguém, mas "pela liberdade e pela democracia".

Sobre a repetição da candidatura da eurodeputada do Bloco de Esquerda, a diploma elogiou Marisa Matias, frisando mesmo que é sua amiga, razão pela qual disse ter "a certeza" que ambas farão uma campanha presidencial "com elevação e norteadas por ideias e projetos, que, em muitos aspetos, são convergentes".

Em contraponto a estas palavras sobre Marisa Matias, nesta conferência de imprensa, a ex-eurodeputada socialista nunca tocou no nome do líder do Chega e candidato presidencial André Ventura.

Mas deixou o seguinte aviso: "Não podemos continuar a deixar empurrar os cidadãos para as margens, enredados na conversa de falsos profetas ou na letargia da abstenção".

/ AG