"O nosso pai era um homem bom, atento e disponível", disse Vera sampaio, a filha de Jorge Sampaio, na sua intervenção na cerimónia fúnebre do antigo Presidente da República, esta manhã, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.

"Escolhemos falar do nosso pai com a autenticidade com que falava connosco", começou por dizer Vera. "Encontramos sempre o amor de um pai e a compreensão de um amigo"

Com ele aprendemos a ser curiosos e atentos", disse a filha. "O nosso pai não gostava da arrogância e cultivava a humildade, gostava de aprender com as novas gerações, cultivava a amizade e a camaradagem porque sabia que na vida e na política nada se pode fazer sozinho".

"Na sua pessoa não havia discordância entre a pessoa e o pai", sublinhou a filha de Jorge Sampaio. "Nos momentos difíceis conhecemos a sua resistência e força."

 "Aprendemos a dar importância não à quantidade, mas à qualidade dos momentos em família", disse, lembrando a ausência do pai, por força das suas responsabilidades. "O nosso pai ensinou-nos a virtude da tolerância."

O pessimismo que às vezes lhe apontavam revelava prudência e vontade de viver num mundo melhor. Era, ao seu jeito, um optimista."

"Havia no nosso pai uma sabedoria que lhe iluminava os olhos. Era uma pessoa autêntica, que não dissimulava estados de espírito", lembrou.

Também muito emocionado, André, o filho de Jorge Sampaio, lembrou como "o pai foi popular sem ser populista, foi sempre próximo sem banalizar a proximidade, foi estadista e simultaneamente cidadão comum, foi amado sem gostar de ser venerado, foi lutador e pacificador, sabia ouvir e sabia decidir".

"Foi um homem, justo, corajoso mas sem medo de chorar, foi um homem bom e um pai extraordinário", disse André Sampaio, agradecendo depois todas a mensagens que chegaram à famílias nestes últimos dias.

Em espanhol, fez uma saudação especial ao Rei de Espanha, Filipe VI, presente nas cerimónias, dizendo que “o pai gostava muito da sua família”, agradecendo ainda as manifestações de amizade e afeto de Portugal a Timor, do Brasil, a São Tomé, da Guiné a Moçambique.

Um longo aplauso em Belém

Um longo aplauso marcou a paragem do cortejo fúnebre de Jorge Sampaio, ao inicio da manhã, junto ao Palácio de Belém, Lisboa, residência oficial do Presidente da República, cargo que ocupou entre 1996 e 2006.

A urna foi retirada do antigo picadeiro real, local onde decorreu o velório do antigo Presidente da República, pelas 10:04 por cadetes das Forças Armadas, e seguiu em cortejo com escolta de honra, parando minutos depois à porta do Palácio de Belém, como estava previsto no programa das cerimónias.

Rosas brancas adornam a charrete da GNR que transporta a urna, coberta pela Bandeira Nacional, e puxada por quatro cavalos brancos, num cortejo escoltado pela Guarda de Honra da GNR a cavalo.

Batedores da PSP, a Guarda de Honra da GNR, uma viatura também da GNR transportando as insígnias do antigo chefe de Estado e uma outra viatura transportando a família compuseram o cortejo que parou depois à porta do Palácio de Belém.

Nesse momento ouviu-se um longo aplauso por parte de dezenas de pessoas que assistiam do lado oposto da estrada, junto ao jardim, e por parte de funcionários da Presidência da República, alguns à porta e outros na parte de cima do palácio.

Poesia, música e elogios na cerimónia nos Jerónimos

Cerca de dez minutos antes do arranque da cerimónia - que começou antes da hora prevista, as 11:00 - o momento mais solene aconteceu com a chegada da urna ao centro do claustro do Mosteiro dos Jerónimos, com todos os convidados em pé e em silêncio.

Em seguida, foram colocadas as insígnias e interpretado o hino nacional, pela Orquestra Sinfónica Portuguesa e o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, com guarda de honra em torno da urna por cadetes das Forças Armadas durante toda a cerimónia.

Foram então transmitidos nos ecrãs colocados no claustro um excerto do discurso da tomada de posse de Jorge Sampaio como Presidente da República, no parlamento, em 9 de março de 1996, a sua intervenção na CNN sobre Timor-Leste, em dezembro do mesmo ano, e mensagens dos antigos primeiro-ministro e Presidente da República timorenses, Mari Alkatiri e José Ramos Horta.

Após a intervenção dos filhos de Jorge Sampaio, a atriz Maria do Ceú Guerra leu o poema de Jorge Sena, "Uma Pequenina Luz”:

 

Seguiram-se as intervenções do primeiro-ministro António Costa, do presidente da Assembleia da República Eduardo Ferro Rodrigues e, por fim, do atual Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.

Funeral no cemitério do Alto de São João

O cortejo fúnebre chegou ao cemitério depois de passar pela Avenida da Índia, Avenida 24 de Julho, Ribeira das Naus, Praça do Comércio, momento em que cinco caças F-16 sobrevoam o local, Avenida Infante D. Henrique, Avenida Mouzinho de Albuquerque, Praça Paiva Couceiro e Rua Morais Soares.

O cortejo fúnebre do ex-Presidente da República Jorge Sampaio fez a última paragem no cemitério do Alto São João, em Lisboa, às 12:38 de hoje, mais cedo do que inicialmente previsto, e foi recebido por aplausos de populares.

Algumas centenas de populares estavam junto ao cemitério do Alto São João para o último adeus ao antigo chefe de Estado, tendo sido colocado algumas grades para manter o distanciamento entre as pessoas e o cortejo fúnebre.

Ali estava formada uma guarda de honra constituída por 165 militares dos três Ramos das Forças Armadas, comandada pele capitão-de-fragata Silva Caldeira. A guarda de honra é composta pela banda da Armada, o estandarte da Marinha, uma companhia de fuzileiros, outra de comandos e uma outra de militares do Centro de Formação e Técnica da Força Aérea na Ota.

As cerimónias oficiais do funeral do antigo Presidente da República Jorge Sampaio terminaram perto das 13:00 de hoje no cemitério do Alto São João, em Lisboa, seguindo-se um momento reservado à família.

 

Depois da entrega da bandeira portuguesa que cobriu a urna de Jorge Sampaio pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, à família, e após alguns momentos de silêncio dentro do cemitério, as entidades oficiais despediram-se para o momento final dedicado ao núcleo restrito mais próximo.

Quando a urna estava a ser levada para o jazigo familiar, os populares bateram novamente palmas e alguns gritaram “viva Sampaio”, entre algumas lágrimas.

A família saiu do cemitério pelas 13:13.

Maria João Caetano / Com Lusa. Notícia atualizada às 13.30