José Sócrates surgiu com um jeito mais tranquilo, algo delicodoce, na entrevista à SIC. Talvez porque esse é o registo da jornalista Ana Lourenço, a verdade é que o primeiro-ministro esteve sempre muito tranquilo, admitiu erros, falou das diferenças para Ferreira Leite e terminou com um desabafo: «Estou muito satisfeito comigo».

Não quis sequer aceitar falar sobre a hipótese de perder a maioria absoluta, porque não pretende «enfraquecer» esse objectivo. Diz que ouve, mas muitas vezes não concorda, porque «é preciso ser firme». Então Ana Lourenço pergunta: «Considera-se um bom primeiro-ministro? Estou muito satisfeito comigo. É preciso ter muita confiança para andar na vida pública e enfrentar as agruras que vão surgindo. No entanto, quem deve responder são os portugueses».

Aliás, ainda antes da entrevista tinha dito que não vai mudar: «Os que me acusam de agora querer construir um novo Sócrates desenganem-se, eu estou muito satisfeito comigo próprio, um político tem que ter suficiente confiança em si próprio para andar na vida pública e o novo Sócrates não existe, a única coisa que sinto são os anos a passar».

Sócrates defende as suas reformas, depois do «voto de confiança dos portugueses. Fala nas diferenças impostas pelo seu Governo, que «preparam o país para o futuro», como o facto de «todas as crianças estudarem inglês» ou terem computadores Magalhães.

E as diferenças para Ferreira Leite? «O que nos distingue fundamentalmente são as funções sociais do Estado, pois eu entendo que deve proteger quem deve ser protegido, não deixar ninguém para trás. A educação, saúde e segurança social devem ser protegidas pelo Estado, mas o PSD acha que se deve privatizar, embora seja uma agenda algo escondida nos últimos tempos, devido à crise», frisou, considerando que em relação à líder do PSD há uma certa «diferença de mundivisão».

«A mim nunca me ocorreria dizer que o casamento tem como objectivo a procriação, nem nunca diria que o desemprego se deve aos ucranianos. Não sei se vê a diferença», referiu, sempre com alguma calma, referindo que «são coisas em que se acredita». Como a eliminação do divórcio litigioso. No fundo, Sócrates é mais liberal e de esquerda, claro:



«Há muita gente que fala na esquerda. Eu sou da esquerda de rigor, que quer as contas públicas em ordem».

O que mudaria?

José Sócrates até admitiu erros, nomeadamente na educação, não dando a garantia que Maria de Lurdes Rodrigues continua num eventual futuro governo do Partido Socialista.

«Algumas coisas teria feito de forma diferente», referiu, admitindo que nem só na cultura mudaria: «Houve nos resultados das europeias um sinal de um certo desgaste provocado, em primeiro lugar por termos feito muitas reformas em pouco tempo, ao que se somou a crise económica e financeira. Muitos sectores estão desiludidos e é preciso recuperá-los, mas vejo estes resultados como um estímulo. É preciso explicar a essas pessoas as escolhas que fazemos».

«Um dos erros que cometemos foi deixar instalar a ideia de que agíamos contra algumas classes profissionais. Claro que não agimos contra as classes. Nunca dei crédito a esse argumento, mas instalou-se essa ideia», frisou, comentando a seguir o que sucedeu na Educação:

«Na avaliação de professores gostaríamos de não ter cometido o erro de ter apresentado uma avaliação tão complexa e burocrática. Corrigimos, mas continuou a contestação», admitiu, nunca se esquecendo de elogiar certas apostas, como a escola a tempo inteiro ou a renovação do parque escolar.

Mesmo quando viu mais de cem mil professores a manifestarem-se na rua, José Sócrates teve de «resistir», até porque a Educação é uma das áreas pelas quais se orgulha, «principalmente pelos resultados». Mas, quanto ao futuro, já não garante que Maria de Lurdes continue no cargo: «Vai ser um novo governo, com novas responsabilidades. Se ganharmos as eleições não vamos olhar para trás, porque queremos manter o ritmo».
Filipe Caetano