A imprensa internacional destaca a vitória “agridoce” do PS, sem maioria absoluta, nas eleições legislativas deste domingo em Portugal, com o espanhol El Pais a falar em “descalabro da direita”.

Há vitórias com sabor agridoce, como a que o socialista António Costa assinou hoje. Ele repetirá o seu mandato em Portugal, mas a maioria absoluta escapou das suas mãos após uma votação que muda a relação de forças na política portuguesa”, escreve a agência de notícias espanhola EFE.

Para o El País, os socialistas “ganharam com clareza” umas eleições que foram “um referendo à gestão” de António Costa dos últimos anos.

Vitória, sim; maioria absoluta, não”, lê-se no El Pais, que destaca também “o descalabro da direita”, que “provocou a demissão da presidente do CDS, Assunção Cristas.

O jornal de referência em Espanha sublinha que o PS fica “perto da maioria absoluta e pode governar com o apoio de apenas um dos seus aliados” da legislatura anterior, BE ou PCP.

O El Mundo titula na primeira página que “O socialista Costa vence em Portugal mas terá de chegar a acordos”, depois de “não conseguir a maioria absoluta que desejava para se libertar dos seus aliados de extrema-esquerda”. Fala em "vitória amarga", uma vez que ficou a “pouquíssimos pontos da tão desejada maioria absoluta”.

O correspondente em Lisboa do diário escreve um segundo artigo para realçar “o triunfo de um animal político astuto e irascível”, António Costa, que “conseguiu reduzir o défice e uma tímida recuperação da economia” com uma governação “pragmática”, sem estar “limitado por um compromisso com as ideias de extrema-esquerda”.

A abstenção alcançou um recorde de 49% nestas eleições legislativas e serve para confirmar a tendência observada no país vizinho desde a Revolução dos Cravos: a cada nomeação eleitoral, aumenta o número de eleitores que optam por não ir às urnas”, escreve ainda o mesmo jornal espanhol.

Por seu lado, o ABC destaca a “Abstenção record em Portugal, numas eleições que ganha Costa sem maioria absoluta”, sublinhando a “apatia” dos quase 11 milhões de eleitores convocados.

O jornalista também considera que a “fragmentação não beneficiou em nada a direita, que não soube” aproveitar o facto de Rui Rio ter conseguido “superar” António Costa num debate televisivo.

O La Razón também sublinha que “Os socialistas revalidam a maioria depois de uma abstenção recorde”, com António Costa a “roçar” a maioria absoluta e a poder governar a partir de agora com apenas um dos seus aliados de esquerda.

O diário catalão La Vanguardia sublinha que “Costa consolida-se em Portugal com uma vitória muito clara” em que o líder socialista se “perfila” como o próximo primeiro-ministro do país, depois do aumento de votos no seu partido e o “colapso” da direita.

Numa página interior, o jornal explica que os socialistas “superam” a soma de votos da direita e António Costa poderá agora governar “com o apoio do BE, mas sem os comunistas”.

França

Os jornais franceses fazem o retrato de um país "moderado" e de "esquerda" no dia seguinte às eleições portuguesas, sem grandes surpresas quanto à vitória de António Costa, mas mencionando a crescente abstenção.

A agência de notícias francesa, a AFP, distingue António Costa como um "estratega refinado" e atribui o resultado dos socialistas à "espetacular" retoma económica depois dos anos "drásticos" de austeridade", relatando a vitória dos socialistas nas urnas.

Na véspera das eleições, muitos jornais franceses já apontavam para uma vitória certa do Partido Socialista, tentando contextualizar esta potencial vitória eleitoral contrastando o cenário português com a queda da esquerda em França, nomeadamente do Partido Socialista francês.

O enviado especial do jornal "Libération" dá conta do "sucesso" dos últimos quatro anos de governação que deu vantagem ao PS nas urnas, mas também nas mudanças na Assembleia da República com a estreia "tímida" da extrema-direita num assento parlamentar depois do fim da ditadura.

Ao sair destas eleições, Portugal caracteriza-se fundamentalmente como um país de esquerda e moderado", lê-se no quotidiano francês, que dá ainda conta da subida "espetacular" do PAN com muita popularidade "junto dos jovens".

Já a Radio France Internationale diz que a única certeza nos pós-eleições é que "os grandes vencedores" foram os socialistas, mas há uma geometria variável a ter em conta para os próximos anos de governação, já que o PS não chegou à maioria absoluta e vai precisar de aliados para aprovar as suas medidas.

A frase de António Costa sobre os portugueses gostarem da geringonça também está a ser incluída em curtos vídeos que os jornais têm estado a difundir sobre as eleições nacionais, aparecendo nomeadamente no jornal "Le Figaro".

A subida da abstenção em Portugal é também motivo de preocupação nos jornais franceses.

Reino Unido

Nas páginas da edição impressa, o britânico The Times admite que o PAN (Pessoas – Animais – Natureza) pode tornar-se no fiel da balança se o governo rejeitar as condições impostas pelo Bloco de Esquerda e do PCP de aumentar o salário mínimo para 800 euros.

As sondagens durante a campanha sugeriam que os socialistas estavam a encaminhar-se para uma maioria. No entanto, o partido foi afetado por escândalos incluindo uma polémica sobre nepotismo e o alegado envolvimento de um antigo ministro da Defesa no encobrimento de informação" no caso Tancos, refere o jornal.

Destacou também que este resultado “contraria uma tendência europeia” para rejeitar partidos de centro-esquerda.

Também o Guardian aponta, na sua edição eletrónica, para a importância do PAN, que poderá apoiar o governo socialista se este incluir algumas promessas ambientalistas.

Porém, um analista disse ao diário britânico que o resultado mais provável das negociações para um acordo parlamentar que começam esta segunda-feira é a continuação da geringonça.

Também a BBC dá destaque ao facto de o PS não ter atingido a maioria absoluta, realçando que primeiro-ministro, António Costa, entendeu como um sinal da vontade dos eleitores de que o seu partido mantenha o pacto com o BE e a CDU.

Porém, acrescenta, "enquanto que a extrema esquerda pede mais investimentos em serviços públicos, espera-se que Costa renove o seu compromisso de cumprir as regras orçamentárias da zona do euro".

Alemanha

Também o jornal alemão Suddeutsche Zeitung destaca a vitória do PS de António Costa “no antigo país da crise do euro”.

Nas eleições realizadas no domingo em Portugal, numa altura em que faltam apenas contar os votos dos círculos da Europa e de Fora da Europa, o PS registava 36,7% dos votos (106 deputados eleitos), o PSD 27,9% (77), o BE 9,7% (19), o PCP/PEV 6,5% (12), o CDS/PP 4,3% (5), o PAN 3,3% (4).

O Chega, Iniciativa Liberal e Livre garantiam um deputado, cada, na próxima legislatura, com, respetivamente, 1,3%, 1,3% e 1,1% dos votos.