Rui Rio conseguiu passar da estratégia de “é preciso adiar as eleições internas por causa das legislativas antecipadas” para a tese do “antecipe-se tudo para dar tempo ao partido de preparar-se para as eleições legislativas antecipadas''. Confuso? Então some-se uma proposta que está a circular num núcleo restrito de conselheiros, com autoria de Alberto João Jardim.

A proposta tem um autor, mas ainda está em branco e pretende-se que seja votada em urna, ou seja, por voto secreto. Segundo apurou a TVI, os conselheiros que já a assinaram suspeitam que é o antigo presidente do governo regional da Madeira quem vai dar corpo à nova tentativa de adiamento das diretas. Os apoiantes de Paulo Rangel também. 

Mas para quê se é a mesma proposta que o líder social-democrata levou ao conselho nacional de Aveiro e que foi derrotada por uma expressiva maioria? Porque Rui Rio avisou antes de haver uma crise política e quer capitalizar - ainda que por interposta pessoa - o acerto desse seu vaticínio, agora que as eleições antecipadas estão aí.

Do lado do líder do PSD, porém, a estratégia mudou e foi na entrevista à TVI que Rui Rio começou a lançá-la: se não se pode adiar, então antecipe-se o calendário eleitoral interno para que o partido possa preparar-se para as eleições legislativas. As contas estão a ser feitas há vários dias e podem passar por ganhar até duas semanas (mais seria impossível), com diretas a 20 de novembro e o congresso na data atualmente prevista para as eleições, no fim-de-semana de 4 de dezembro.

Não é fácil, e a solução jurídica não foi adiantada, mas a estratégia deve ser colocada pelo líder do PSD logo no início do congresso de Aveiro, para condicionar a discussão. Na entrevista à SIC desta sexta-feira, Paulo Rangel considerou "incompreensíveis" as mudanças de posição de Rui Rio em relação à marcação das eleições diretas: “Rui Rio teve três posições num mês: queria as diretas o mais cedo possível; depois, defendeu o seu adiamento; e ontem disse que queria comprimir todos os prazos. Isto não oferece estabilidade nem credibilidade ao partido”.

No entanto, várias fontes sublinham que será difícil para Paulo Rangel e os seus apoiantes rejeitarem uma antecipação do calendário, que também lhes é conveniente. Em causa estão os estatutos do PSD no que diz respeito à elaboração das listas de deputados, que têm de ser entregues até ao dia 20 de Dezembro. Essas listas têm de ser propostas pela comissão política nacional e ratificadas em conselho nacional, órgãos que só são eleitos em congresso.

Há várias dúvidas que se prendem com o que pode ou não ser alterado em conselho nacional para permitir essa antecipação do calendário, desde logo por causa dos prazos para pagamento de quotas, que terminam 15 dias antes das eleições. 

A solução poderia passar por abrir os cadernos eleitorais, o que resultaria num alargamento enorme do universo de eleitores, que Rui Rio acredita que pode jogar a seu favor.

Em vez de “pescar votos à linha”, como dizem os seus apoiantes, no chamado voto livre (não afecto ao aparelho e às suas inclinações) o universo passaria de cerca de 40 mil a 45 mil eleitores com quotas em dia para 160 mil.

Paula Caeiro Varela