Domingo foi dia de descanso para Rui Rio, já o tínhamos dito, mas rapidamente o líder do PSD colocou os jornalistas a correr entre Coimbra e Figueira da Foz com uma arruada surpresa na cidade dos estudantes onde, apenas, tinha uma talk marcada ao final do dia. 

Depois de uma arruada quente pela Figueira da Foz, onde Rio diminuiu o ritmo na rua onde só se encontrava uma comerciante a vender bolos tradicionais. Afinal, estava em terreno do inimigo e já tinha ouvido coisas como "nem que ele me pagasse, votava nele...".

Acompanhado por Mónica Quintela, cabeça de lista por Coimbra, o líder social democrata parou na banca da comerciante para uma troca de palavras, sem grande entusiasmo de ambas as partes. Já Rui Rio entrava para o carro para seguir para Coimbra quando a comerciante de 75 anos comentou com um casal que se aproximou para se lamentar.

"Esteve aqui muita gente, mas ninguém comprou nada", atirou enquanto estendia os sacos com os doces.

Um pouco mais atrás estava Rosa Coelho, apoiante do PSD "desde o tempo de Sá Carneiro" e que em casa ainda tem guardado o "cartão do PPD".

Rui Rio com Rosa Coelho

Com a bandeira do PPD aos ombros e a do PSD nas mãos, a militante do partido confessou à TVI24 que inicialmente "não era muito apoiante de Rui Rio", mas "ele cresceu muito".

"De há 15 dias para cá, cresceu muito. Agora sou apoiante. Acho que as propostas que ele tem apresentado são boas e que ele pensa que consegue por em prática e que vão fazer a diferença para o país. Porque, para mim, o Governo que lá está não fez diferença...", afirmou.

Para esta reformada, "a vida cada vez esta mais cara" e os parcos 490 euros da pensão têm de dar para pagar a renda de 250 euros, as contas, o supermercado e a pesada conta da farmácia.

"A minha pensão eles dizem que a aumentam e eu não vejo nada. Custa-me mais agora governar o mês do que no Governo de Passos Coelho. Ninguém me cortou nada no governo de Passos Coelho, ninguém me tirou, e agora falta-me dinheiro. Eu tenho Parkinson, os medicamentos são caríssimos, naquela altura cada caixa que eu comprava - uma de 90 euros, outra de 103 - e o Governo pagava quase tudo. Agora não. (...) Para tomar a medicação, pago metade. Com uma reforma de 490 euros... não posso ir roubar", desabafou.

Para Rosa Coelho, o Governo devia dar mais ajudas a quem precisa de "medicação tão cara". "Porque dão ajudas a gente que não quer trabalhar e eu estou sempre na mesma".

Um bom "feeling", já dizia a música

Da Figueira a Coimbra vão mais de 50 quilómetros de distância e antes das 19:00 já Rui Rio estava na cidade banhada pelo Mondego para mais 400 metros de convívio com a população. 

À chegada, o candidato a primeiro-ministro tinha à sua espera Carlos Encarnação, antigo presidente da Câmara Municipal de Coimbra, que em julho tinha alertado que se o PSD continuasse pelo mesmo rumo corria o risco de deixar de servir para alguma coisa. Mas, claramente, mudou de opinião.

“O PSD entretanto alterou a sua maneira de proceder, a sua linguagem, a maneira de falar, para quem fala, quando fala, como fala e é isso que eu dizia que era preciso fazer. [Agora] Eu acredito que o PSD pode ter um grande resultado, significa que pode ganhar”, afirmou, recebendo Rui Rio com um abraço.

Mesmo antes da curta arruada terminar, uma surpresa. Paulo Rangel, eurodeputado do PSD, foi o primeiro notável a marcar presença na campanha de Rui Rio e aproveitou para dizer que tem um "bom feeling" quanto às eleições de 6 de outubro.

“Vim de propósito porque amanhã vou para Bruxelas e tenho de participar na campanha ao fim de semana", respondeu, quando questionado se a sua presença se tinha tratado de uma coincidência.

Quanto a palpites para o dia 6 de outubro, foi cauteloso: "Estou em total linha com os comentários que fez o presidente, vi ontem na televisão o meu ‘feeling’ também é esse”.

Paulo Rangel

A curta arruada ficou ainda marcada pela dificuldade de Rui Rio encontrar portugueses, uma vez que as esplanadas de Coimbra tinha praticamente só turistas.

Fim de arruada, hora de nova talk, desta vez no histórico Café Santa Cruz, onde assim que a comitiva laranja entrou se podia ouvir o empregado reclamar, tal era a falta de espaço que de repente se gerou.

"Se eu estiver aqui a mais, digam, que eu vou para casa", atirou, enquanto apoiantes e militantes se tentavam espremer para ouvirem a tertúlia que estava prestes a começar. 

Quando entrar no café se tornou impossível, valeu a quem queria assistir ao momento os dois ecrãs instalados na esplanada do estabelecimento. 

Talks e Tancos

Os momentos de sátira no início das sessões de perguntas e respostas (a que a campanha do PSD chamou de talks) são já da praxe e Coimbra não foi exceção. Desta vez, o tema foi a justiça e o tema não podia ser melhor para se voltar ao assunto do momento: Tancos.

Rui Rio voltou ao tema para elogiar o Ministério Público e deixar farpas à oposição por considerar que o PS "deu tudo" aos magistrados quando lhes aumentou os salários de forma "muito desigual", o que podia ter condicionado o MP de cumprir " a sua obrigação".

“O Ministério Público só tinha de estar contente com o PS, o tal elogio é por isto: apesar de o Governo ter feito tudo aquilo que eles queriam, eles não deixaram de cumprir a sua obrigação. E eu, se sou tão critico em muitas coisas, também tenho de ser justo e aqui elogiar: tem a ver com o PS no Governo ter dado tudo e ainda assim houve a independência necessária para fazer isso”, afirmou.

E quanto ao caso Tancos voltou a dizer que o Ministério Público fez o que tinha de fazer, tal como já tinha feito no sábado, em Mirandela.

“Houve efetivamente um roubo, a partir desse momento, o Ministério Público tinha de abrir um inquérito, fazer a investigação e tinha prazos a cumprir, se a acusação não saísse quem estava preso tinha de ser solto”.

Na talk, que durou cerca de uma hora, Rui Rio deparou-se com a pergunta cliché de "qual a principal razão que daria aos portugueses para votarem no PSD" e respondeu que tudo se resume a "coragem, desprendimento" e vontade de “tentar fazer” as reformas estruturais que entende que o país necessita.

“Para ter essa coragem é preciso ter desprendimento relativamente ao poder e isso não tenham dúvida que eu tenho. Eu não estou aqui por mim, estou aqui a prestar um serviço, isto é duro, isto é pesado, é mais cómodo estar em casa, e até se calhar ter um salário melhor, é mais cómodo. Se ela está dentro de mim e eu estou desprendido do poder, será como o povo português quiser e eu estou disponível para fazer de uma maneira ou fazer de outra, como os portugueses entenderem”, concretizou.

A campanha social democrata prossegue esta segunda-feira nos distritos de Viana do Castelo e Braga , num dia que termina com o tradicional Arraial Minhoto na Quinta da Malafaia.

Andreia Miranda