A líder parlamentar do PS afirmou que os deputados estão a assinalar o 25 de Abril no seu "posto", a Assembleia da República, e frisou que o parlamento nunca se poderá deixar "sequestrar" pela demagogia.

"Um parlamento que se deixasse sequestrar pela demagogia estaria a defraudar Abril, tal como defraudaria Abril um parlamento fechado sobre si mesmo. Ter um parlamento forte é cumprir Abril", declarou Ana Catarina Mendes no seu discurso na sessão solene comemorativa do 46º aniversário da revolução democrática de 1974.

Na sua intervenção, a líder da bancada socialista fez várias alusões à polémica em torno do formato das comemorações deste ano do 25 de Abril, num momento em que Portugal enfrenta a pandemia de Covid-19, e insurgiu-se contra as correntes que pretenderam que o parlamento não assinalasse esta data.

Ana Catarina Mendes citou então o poeta e dirigente histórico socialista Manuel Alegre, que escreveu o seguinte a propósito do seu aniversário de 1963, passado nas masmorras das cadeias da PIDE: "Em maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto".

"Lembrei-me e aqui evoco perante vós as palavras de Alegre para, no contexto de realização desta sessão solene do 25 de abril, deixar também uma questão: Acaso poderíamos nós deputados estar em outro local que não no parlamento para assinalar os 46 anos do 25 de abril? Não podíamos", sustentou a presidente do Grupo Parlamentar do PS.

Segundo Ana Catarina Mendes, mesmo num contexto de estado de emergência em Portugal, "a democracia não está suspensa".

"Todas as semanas temos aqui estado a trabalhar, em nome e por mandato do povo, para aprovar leis e para fiscalizar o Governo. Não estaríamos à altura das nossas responsabilidades se fechássemos o parlamento ao 25 de Abril. Hoje, mais do que em qualquer outro dia, a casa da democracia tem que dizer presente", defendeu.

"Hoje, estamos aqui, nesta como nas outras sessões, no nosso posto", completou logo a seguir.

Momentos antes de o Presidente da República iniciar o seu discurso, que encerrou a sessão solene, a líder parlamentar socialista dirigiu-se diretamente a Marcelo Rebelo de Sousa, seu antigo professor na Faculdade de Direito de Lisboa.

"Como vossa excelência tão bem ensinou a várias gerações de estudantes de direito, o parlamento tem um lugar único na democracia: É a instituição da pluralidade, é a instituição onde se representa a diversidade da comunidade. O parlamento é a casa das diferenças de opinião, das diferenças programáticas, das diferenças de propostas", apontou.

Ou seja, prosseguiu Ana Catarina Mendes, é na Assembleia da República que "a pluralidade se assume como valor constitutivo e como garante e instrumento do bem comum".

"É aqui que se e afirma, cada dia e em cada debate, que a unidade nacional é a unidade plural da diversidade. O parlamento não pode, por isso, em qualquer circunstância, deixar de ocupar o seu lugar, de assumir as suas responsabilidades de representação. Porque as nossas diferenças não podem ser divisivas e destrutivas. As nossas diferenças são legítimas, mas a sua afirmação deve coexistir com a capacidade de, nos momentos decisivos para os portugueses, nos unirmos em torno do que é essencial", advertiu.

Na perspetiva da presidente do Grupo Parlamentar do PS, o país está a conseguir na atual situação de estado de emergência "usar com moderação os poderes de exceção".

"Por isso garantimos, na emergência, o papel do parlamento no equilíbrio de poderes que garante o Estado de direito. Um parlamento que nunca interrompeu o seu funcionamento e que não foi suspenso pela emergência", disse.

Logo a seguir, no entanto, Ana Catarina Mendes advertiu que "o inimigo desconhecido que ameaçou a liberdade fez também aparecer outros demónios já conhecidos: Xenofobia, fechamento nacional e medo".

"Um medo subterrâneo que alguns gostariam de usar para abalar os pilares do Estado de Direito democrático. Sentir medo é próprio do ser humano. Mesmo os que resistiram à ditadura não deixaram de ter medo, mas souberam não o deixar vencer. Também é hoje nossa responsabilidade não decidirmos condicionados pelo medo, e impedir a exploração do medo como arma política", acrescentou. 

PS elogia discurso de Marcelo e espera resposta eficaz da UE contra a crise

O secretário-geral adjunto do PS elogiou hoje o discurso do Presidente da República em defesa das funções do parlamento no atual período de estado de emergência e destacou o papel da União Europeia para o relançamento económico.

"O PS sublinha a importância do discurso do Presidente da República. A sua intervenção valorizou os elementos essenciais que nos fazem enquanto deputados estarmos na Assembleia da República na evocação do 25 de Abril: A liberdade, a justiça social e o país europeu que trouxe valores culturais, sociais e económicos, consolidando a vida democrática", declarou José Luís Carneiro.

O "número dois" da direção dos socialistas falava aos jornalistas no final da sessão solene comemorativa do 46º aniversário do 25 de Abril na Assembleia da República, cerimónia que terminou com o discurso do chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa.

Perante os jornalistas, o secretário-geral adjunto do PS defendeu que a cerimónia no parlamento foi "a melhor forma de homenagear mulheres e homens, civis e militares, que deram as suas vidas para que se pudesse hoje viver os valores de Abril".

"É um dever muito particularmente daqueles que na Assembleia da República têm a obrigação de se baterem por esses mesmos valores. Estes valores são perenes porque fomos capazes de construir com equilíbrio uma democracia plural, representativa, europeia e aberta ao mundo", sustentou.

José Luís Carneiro deixou também uma mensagem às vítimas e cidadãos atingidos pela covid-19.

"Não há melhor modo de homenagearmos mulheres e homens que sofrem em todo o país - e a quem damos uma palavra de solidariedade e de esperança no nosso futuro coletivo - do que na casa da democracia honrarmos os valores pelos quais temos de trabalhar e lutar todos os dias", reforçou.

Questionado sobre os avisos deixados pelo Bloco de Esquerda e PCP ao Governo, recusando qualquer lógica de austeridade a curto ou médio prazo, o secretário-geral adjunto do PS referiu-se ao papel crucial que terá de possuir a União Europeia, sobretudo na frente da recuperação económica.

"Depois de sermos capazes de travar a expansão da pandemia, controlando-a do ponto de vista da capacidade de resposta [do Serviço Nacional de Saúde], tem de ser lançado um plano de recuperação económica e social. É também por esse objetivo que nos temos batido na Europa", sustentou.

De acordo com o secretário-geral adjunto do PS, as dificuldades económicas já registadas em todo o continente europeu "exigem uma resposta de proteção do emprego e relançamento da economia".

"Um primeiro passo foi garantido com a decisão do Eurogrupo para a criação de três importantes redes de proteção e que entram em vigor em 1 de junho. Mas há um segundo passo que tem de ser dado e que está diretamente relacionado com a recuperação económica e social. Até 6 de maio, aguardamos que a Comissão Europeia apresente um projeto que garanta a recuperação económica e social", acrescentou.

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