O presidente do PSD avisou que Portugal “já fez asneiras a mais” e pediu garantias de que não haverá “mais 'negócios da China'” no investimento na produção de hidrogénio, que classificou como “projeto extremamente perigoso”.

“Nós não temos condições para aventuras nem para ideias megalómanas”, defendeu Rui Rio, na sua pergunta ao primeiro-ministro, António Costa, no arranque do debate do estado da nação no parlamento.

A intervenção inicial de Rio foi totalmente dedicada a este assunto, à exceção de uma pequena ironia sobre a intervenção inicial de António Costa, em que este apelou à esquerda para uma base de entendimento sólida.

“Quase não resisti a comentar um pedido de casamento de papel passado ali com PCP e BE, mas vou ater-me à minha ideia sobre um projeto que o Governo anunciou e que considero extremamente perigoso”, afirmou.

O líder do PSD questionou que, na estratégia nacional sobre o hidrogénio, o Governo preveja investir “sete mil milhões de euros”, valor próximo do da Alemanha, nove mil milhões de euros.

“Pode assegurar na Assembleia da República que, para a produção de hidrogénio, não vamos assistir a rendas garantidas, leia-se excessivas, que aconteceram no governo Sócrates, pode garantir que não vai repetir os mesmos erros?”, questionou.

Na resposta, António Costa assegurou que Portugal vai ter “uma posição liderante” na produção de hidrogénio verde na Europa porque o país tem “condições naturais para o fazer” e porque tal representa um “fator importante para a mobilização da indústria nacional e para a valorização geoestratégica” do país.

“O leilão que abrimos gerou intenções de investimento privado de 16 mil milhões de euros, a contrapartida de investimento público são 400 milhões de euros ao longo de dez anos”, afirmou, considerando que tal significa que haverá uma “ajuda pública mínima” comparativamente ao dinheiro privado.

O líder do PSD questionou ainda António Costa sobre a razão de o Governo querer concentrar a “fatia de leão” do investimento previsto em Sines.

“Porquê, quando os custos do transporte de hidrogénio são brutais? E porquê em Sines, será que em Sines porque este negócio interessa mais à EDP do que aos portugueses?”, interrogou Rui Rio.

O líder do PSD alertou que o Produto Interno Bruto DO PAÍS vai cair “mais de 10%, a dívida pública vai aumentar para mais de 130% e a taxa de desemprego do país é uma incógnita”.

“Fizemos asneiras a mais, Portugal fez asneiras mais, por isso desta vez não podemos falhar”, apelou, aludindo a processos como os da PT, da TAP ou do Novo Banco.

Para Rio, “mais eólicas sim, mais energia solar sim, hidrogénio sim, agora com o mercado a funcionar e não com o contribuinte a pagar”.

“O que devia ser prioridade era a abertura do mercado ibérico ao resto da Europa através dos Pirinéus”, defendeu.

O líder do PSD pediu então garantias ao primeiro-ministro de que não haverá “leilões para novas rendas garantidas” quer para a produção de hidrogénio, quer para outras energias renováveis.

“Pode-nos garantir que não haverá mais negócios da China?”, perguntou Rio, gerando muitos protestos na bancada do PS.

António Costa não respondeu diretamente a estas questões, defendendo que Portugal “tem de responder aos desafios imediatos, mas com visão estratégica” e precisou que 30% dos fundos comunitários “têm de ser associados a investimentos associados a alterações climáticas”.

“Portugal tem condições únicas para ser o grande produtor de hidrogénio verde na Europa, porque dispõe dos recursos fundamentais para a hidrólise do hidrogénio verde: água abundante no mar e energia solar particularmente barata”, destacou, salientando que 54% da energia que o país consome já é renovável.

Costa classifica PSD como partido “fossilizado” de “velhos do Restelo”

O primeiro-ministro, António Costa, acusou o maior partido da oposição, PSD, de estar fossilizado e ser composto por “velhos do Restelo”, durante o debate parlamentar do Estado da nação.

“É chocante verificar como o PSD nada aprendeu com a história. O PSD tornou-se um partido do conservadorismo atávico, foi contra as renováveis e chegou tarde. Agora, é contra o hidrogénio, está fossilizado na defesa das energias fósseis. Infelizmente, não podemos contar com o PSD para construir um país do futuro. O PSD é hoje o partido dos ‘velhos do Restelo’, daqueles que não têm a coragem de transformar as tormentas em ‘Boa Esperança’”, afirmou.

O chefe do Governo respondia à intervenção da líder parlamentar socialista, Ana Catarina Mendes, após o presidente do PSD, Rui Rio, se ter mostrado contra a futura exploração de hidrogénio em Portugal.

“Temos razões para estar confiantes porque temos um conjunto de instrumentos de planeamento definidos, concluídos, aprovados e operacionais para poder orientar a recuperação da crise”, congratulou-se Costa.

O primeiro-ministro sublinhou ainda o “volume de recursos financeiros como o país nunca teve” obtidos no último Conselho Europeu, em Bruxelas.

“Na nossa história, executamos em média entre dois mil e três mil milhões de euros por ano. A média do que temos para executar até 2029 é mais do dobro: 6,7 mil milhões de euros por ano”, vincou.

/ AM