O antigo líder parlamentar Luís Montenegro anunciou esta quarta-feira que será candidato à presidência do PSD, um cenário que ponderou em 2017 e que queria ter protagonizado em janeiro passado, mas que foi travado pela direção.

Há dois anos, quando o anterior líder Pedro Passos Coelho anunciou que se não se recandidataria na sequência do mau resultado nas autárquicas, Luís Montenegro fez uma “reflexão profunda” e acabou por concluir que não estavam reunidas as condições para avançar "por razões pessoais e políticas" e a presidência do PSD acabou por ser disputada entre Santana Lopes e Rui Rio.

Um mês depois, no Congresso de aclamação de Rio, Montenegro deixou um aviso de que poderia vir a disputar-lhe a liderança: “Conhecem a minha convicção e a minha determinação, se for preciso estar cá, eu cá estarei, para o que der e vier (…) Desta vez decidi não, se algum dia entender dizer sim, já sabem que não vou pedir licença a ninguém”.

Tal como anunciou nesse Congresso, Luís Montenegro deixaria o parlamento em abril do ano passado, 16 anos depois de tomar posse como deputado, e foi expressando pontualmente as suas divergências com a direção de Rui Rio.

Em outubro de 2018, ajudou a ‘travar’ a realização de um congresso extraordinário, promovido por André Ventura - que, entretanto, abandonou o PSD e fundou o Chega - mas a tensão interna abaria por ‘explodir’ em janeiro.

Em 11 de janeiro, Luís Montenegro desafiou Rui Rio a convocar eleições antecipadas no PSD, dizendo que não se resignava “a um PSD pequeno, perdedor, irrelevante, sem importância política e relevância estratégica”.

O presidente do PSD não aceitou o repto para marcar diretas um ano antes do previsto, mas levou a votos uma moção de confiança à sua direção, que foi aprovada em Conselho Nacional com 60% dos votos.

Na sequência dessa derrota, Montenegro defendeu que o seu desafio de clarificação “acordou um gigante adormecido” que é o PSD, e prometeu reserva pública nos meses seguintes quanto às divergências em relação a Rui Rio.

Desde então, o antigo líder parlamentar esteve praticamente em silêncio, aparecendo ao lado do cabeça de lista Paulo Rangel na campanha para as europeias, em que centrou as críticas no Governo, e na pré-campanha para as legislativas, em Lamego (Viseu), para “ajudar” a contrariar o que eram as sondagens negativas para o PSD.

Depois do Conselho Nacional de janeiro, terminou as suas colaborações regulares com órgãos de comunicação social e, segundo noticiou o Expresso, frequentou no verão um programa de gestão avançada para executivos e líderes do Instituto Europeu para Administração de Empresas em França.

Com eleições diretas previstas para janeiro, se o calendário não for alterado, Luís Montenegro é o primeiro candidato assumido à liderança do PSD, já que Rui Rio afirmou na noite eleitoral das legislativas – em que o PSD obteve 27,9% e para já 77 deputados – que iria “ponderar” com serenidade a sua continuidade.

Luís Filipe Montenegro Cardoso de Morais Esteves, 46 anos, e advogado de profissão, destacou-se como deputado – sempre eleito por Aveiro - e líder parlamentar do PSD, cargo que exerceu entre junho de 2011 e julho de 2017.

Montenegro estreou-se no parlamento aos 29 anos, em 2002, quando Durão Barroso era presidente do PSD e primeiro-ministro, depois de ter iniciado uma carreira política que começou na JSD e passou pela Câmara Municipal de Espinho, onde foi vereador.

Nas autárquicas de 2005, candidatou-se a presidente do município, mas foi derrotado por José Mota, do PS.

Nas disputas internas no PSD, Luís Montenegro foi tendo opções diferentes: nas diretas de 2007, entre Luís Marques Mendes e Luís Filipe Menezes, foi mandatário distrital do ex-autarca de Gaia; um ano depois, assumiu o lugar de porta-voz da candidatura à liderança de Pedro Santana Lopes, contra Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho; já em 2010 apoiou Passos Coelho, contra Paulo Rangel e José Pedro Aguiar-Branco; nas últimas, em 2018, apoiou Santana Lopes contra Rui Rio já na reta final da campanha interna.

Montenegro foi apoiante da candidatura do atual Presidente da República, e Marcelo Rebelo de Sousa já retribuiu quando lhe entregou, no início do seu mandato, a medalha de ouro de Espinho: na ocasião, elogiou as suas “qualidades invulgares” e vaticinou-lhe “muitos sucessos políticos” ainda ao longo do seu mandato em Belém, que só termina em 2021.

A sua alegada pertença à mesma loja maçónica do ex-diretor dos serviços de informação Jorge Silva Carvalho – que, na altura, não confirmou nem desmentiu –, e as faltas parlamentares para assistir a jogos do FC Porto, clube do qual é adepto, e da seleção nacional foram algumas das polémicas que viveu na Assembleia da República.

Em junho do ano passado, foi noticiado que Luís Montenegro iria ser constituído arguido – a par dos então deputados Hugo Soares e Luís Campos Ferreira - pelo alegado crime de recebimento indevido de vantagem no caso das viagens do Euro 2016, por parte do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa, tendo negado então a prática de qualquer crime e garantido que essas viagens foram pagas a expensas próprias.