“Vamos lá ver se eu não fico com um melão no domingo”. A frase é do último dia de campanha de Rui Rio e foi o candidato do PSD que a disse depois de duas semanas de “campanha diferente, sem berros nem comícios”.

Num dia de balanços e depois de ter fugido a tudo o que acha que descredibiliza a campanha, Rui Rio disse aos jornalistas estar satisfeito com o que fez e que não ficará surpreendido, independentemente do resultado.

E foi mais longe, dizendo que um dos poucos momentos em que a campanha desceu de nível foi com Mário Centeno e com António Costa que, no último dia de campanha, acusou a direita de ser responsável pelo "ataque à honra" na arruada em Lisboa. Aliás, o nome do ministro das Finanças foi uma constante na campanha laranja, assim como o de António Costa – “o dono disto tudo” que "sabia ou não sabia" do caso de Tancos - e o de Carlos César – “campeão do familygate”.

“Não faço um balanço em que a campanha não teve nível. Sinceramente, não faço. Acho que a campanha até tem pontos positivos e com nível – por exemplo, a questão das alterações climáticas em que todos remamos no mesmo sentido com uma certa pedagogia para a sociedade. Teve um momento ou outro com menos nível, como este do doutor Mário Centeno, mas que houve um esforço da parte de todos para que isso não acontecesse e acho que foi conseguido. Se olharmos para outras campanhas no passado, são muito piores”, afirmou Rui Rio, já em Lisboa, para um almoço.

Sobre as acusações de Costa, disse que preferia "não comentar, apenas lamentar o facto de o dr. António Costa ter dito que a direita - estava a referir-se ao PSD, o PSD não é de direita, mas era isso que estava a dizer". 

"Acho que as pessoas me conhecem. Alguma vez eu ia fazer semelhante coisa, por amor de Deus".

E sem querer entrar nos "ditos comuns do politicamente correto", Rui Rio garantiu que se o PSD ganhar não fica "muito admirado, mas se não ganhar também não".

Comum foi aquilo que o líder do PSD tentou não ser. Nem nas arruadas, feitas em passo acelerado, em horários muitas vezes que os locais não compreendiam, mas que “tem de ser” e sem fugir muito da bolha de segurança para ir distribuindo os lápis ecologicamente mais amigos do ambiente do que as antigas esferográficas.

“Fomos procurando ao longo da campanha fazer a comunicação de uma forma diferente e fizemos. Andámos em arruadas e em contacto com as pessoas, bom, isso tem de ser. Não vejo como é que se pode fazer uma campanha sem falar com as pessoas”.

Conversas essas que foram acontecendo em formato de tertúlias – ou talks, como lhes chamou o PSD – e que começavam sempre com um momento de sátira protagonizado por Carla Vasconcelos e Mário Bomba.

Saúde, finanças, justiça e mulheres foram os temas das tertúlias em que os temas eram debatidos após as perguntas feitas (ou pré-feitas) pela plateia. Tertúlias essas onde Rio acredita que foram transmitidas “as ideias” do partido.

“Acho que conseguimos evitar aquilo que eu acho que é descredibilizador que é os jantares-comício (que eu particularmente não gosto) todos os dias, em que estamos aos gritos e há aqui dois públicos completamente distintos. Uma são as pessoas que estão à nossa frente e em que nós temos de berrar para puxar pelas pessoas, a outra é a comunicação social, designadamente as televisões, que está la com um intuito diferente e em que se nós aparecermos a berrar na televisão enfim… é descredibilizador”.

Credibilidade foi uma das palavras que Rui Rio mais vezes foi trazendo à campanha. Dizendo que não gosta de hipocrisias nem de humilhar ninguém na praça pública, o líder do PSD apenas abriu exceções quando se tratou de enviar farpas aos três C’s do Partido Socialista.

A Centeno, acusou-o de fugir aos debates e de baralhar os números "propositadamente para enganar as pessoas", depois de colocar em causa o cenário macroeconómico do partido e de ter cativado em demasia a Saúde. A César, chamou-lhe “campeão a conseguir meter os seus familiares nos cargos públicos" e os membros da JSD até tinham uma música a falar na “choradeira de Costa, Centeno e da família inteira”. Já quanto a Costa, acusou-o de não ter mão nos ministros, de não dizer se "sabia ou não sabia" do caso de Tancos e de se comportar "como dono disto tudo" em relação ao Estado quando está no Governo.

Uma ideia partilhada por Alberto João Jardim que viajou até ao Porto na quinta-feira para apoiar Rui Rio e acusou o líder do PS de “não ter sentido de Estado”.

Foi no Norte, aliás, que o apoio a Rui Rio foi crescendo. Filho do Porto, mas com uma costela de Viana de Castelo, foi ali que viu as suas arruadas começar a crescer depois de em Barcelos ser acusado de fazer o contacto com a população quando não havia ninguém na rua e de em Beja e Évora os ter feito em passo de corrida, talvez por estar em terreno hostil.

Ao longo dos dias, a caravana social democrata foi subindo no país (ainda que muito aos ziguezagues), aumentando em popularidade (com altos e baixos nas sondagens, como mostrou a TVI) e começando a receber presença de ilustres do partido (começou com Paulo Rangel em Coimbra, passou por Alberto João Jardim no Porto e acabou com Manuela Ferreira Leite em Lisboa) e até de "hipócritas". Mas, no final, Rui Rio mostrou-se satisfeito com o balanço, até porque diz que não contabiliza só o trabalho feito nas últimas duas semanas.

“É uma subida muito grande da simpatia e do apoio nas legislativas de 2019. Agora não estou a falar da campanha eleitoral das últimas duas semanas. Estou a falar de um período que vem desde agosto até agora”.

Certezas essas, para o homem que não acredita em sondagens, só no domingo.

“O povo vai votar e, como diz a canção, o povo é quem mais ordena e é mesmo. O povo vota sempre bem: se eu ganhar votou bem e se eu perder votou bem também, e eu respeito” .