O presidente do PSD e recandidato ao cargo considerou “uma história muito mal contada” que o ministro da Defesa não tenha informado o primeiro-ministro sobre o caso de militares em missão externa suspeitos de tráfico de diamantes.

Em entrevista à RTP3, na quarta-feira à noite, Rui Rio começou por dizer ser insuspeito para comentar o caso por ter “uma simpatia pessoal” pelo ministro da Defesa, João Gomes Cravinho.

Mas estou-me a imaginar primeiro-ministro e a ler o jornal ou a ver televisão e de repente ter de telefonar ao meu ministro da Defesa”, afirmou, considerando que, ao não informar António Costa, o ministro da Defesa “deixou todo o Governo mal perante o Presidente da República”.

Rio disse até compreender que o ministro da Defesa não tenha informado diretamente Marcelo Rebelo de Sousa, defendendo que deveria fazê-lo “através do primeiro-ministro”.

É uma situação grave, é grave porque o Presidente da República não é informado, mas para mim é particularmente grave um primeiro-ministro ter um membro do Governo que não o informa de uma situação destas”, reforçou.

Questionado sobre os pareceres jurídicos invocados por João Gomes Cravinho para essa ausência de informação, Rio respondeu: “Acho isso muito esquisito, uma história muito mal contada”, admitindo que o PSD possa ainda tomar alguma iniciativa no parlamento sobre o caso.

O Presidente da República recusou na quarta-feira comentar as suas relações com o Governo depois de não ter sido informado do envolvimento de militares numa investigação judicial sobre tráfico de diamantes, ouro e droga.

À saída de um encontro com jovens na Livraria Barata, em Lisboa, a comunicação social questionou sucessivamente o chefe de Estado e Comandante Supremo das Forças Armadas, sobre este assunto, perguntando-lhe se entende que foi desconsiderado pelo ministro da Defesa Nacional e se espera explicações formais do Governo.

A todas essas perguntas Marcelo Rebelo de Sousa respondeu que não comentava, limitando-se a reiterar a opinião de que "a reputação das Forças Armadas Portuguesas estava intacta" na sequência da Operação Miríade, no âmbito da qual a Polícia Judiciária (PJ) executou cem mandados de busca e deteve onze pessoas, incluindo militares e ex-militares.

Questionado se neste caso se verificou uma nova falha de comunicação entre o ministro da Defesa e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa retorquiu: "Não levem a mal, mas eu não tenho mais nada a comentar. Percebo a vossa curiosidade, estão na vossa função, mas eu também estou na minha função".

Em Berlim, depois de um almoço com o vencedor das eleições na Alemanha e atual vice-chanceler Olaf Scholz, o primeiro-ministro justificou na quarta-feira não ter informado o Presidente da República sobre a rede de tráfico envolvendo militares e civis, porque ele também não tinha conhecimento.

“Eu não informei porque não estava informado, portanto isso é um tema que será de ser tratado, mas num sítio próprio que é em território nacional”, revelou António Costa.

Num comunicado sobre a Operação Miríade, o Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA) referiu que alguns militares portugueses em missões da ONU na República Centro-Africana podem ter sido utilizados como "correios no tráfego de diamantes”, adiantando que o caso foi reportado em dezembro de 2019.

Na terça-feira, em Cabo Verde, o chefe de Estado relatou que o ministro da Defesa lhe tinha explicado que "na base de pareceres jurídicos tinha sido entendido que não devia haver comunicação a outros órgãos, nomeadamente órgãos de soberania, Presidência da República ou parlamento".

Na quarta-feira, interrogado se compreende o enquadramento jurídico-constitucional para esta decisão, o Presidente da República respondeu: "Eu disse ontem [terça-feira] apenas os factos. Eu não quero comentar".

/ BMA