Política "com P grande" tem de ser "uma regra sagrada" do partido. Pedro Santana Lopes discursou cerca de sete horas depois do início do primeiro congresso do partido que fundou, o Aliança, dizendo-se "esmagado". Ao contrário do que se previa, a moção não foi apresentada por si, mas eram suas as críticas que lá estavam ao Governo de António Costa e à "frente de esquerda". 

"Confesso que estou esmagado pelo que tenho visto. Esmagado no bom sentido", acentuou o antigo primeiro-ministro, numa sua primeira intervenção, ou conversa, como preferiu classificá-la, já passava das 22:00, na antiga praça de touros de Évora, e que durou mais de uma hora. Avisou que para quem pensa que o Aliança nasceu "por causa de uma pessoa ou de lugares" "que se desengane".

A presença impressionante [dos militantes mostra que] não é o partido de uma pessoa só".

"A política é bonita! A política com P grande. E essa tem de ser uma regra sagrada da Aliança", concretizou, depois de elogiar o "trabalho obviamente coletivo" e o "modo de intervenção cívica" e de "serviço à comunidade" demonstrado pelos militantes do novo partido, que tem a sigla A.

"É um crime de lesa-pátria o que se tem passado no SNS"

Com a greve dos enfermeiros às cirurgias e a requisição civil decretada pelo Governo na ordem do dia, Santana classificou a "degradação do Serviço Nacional de Saúde" como um "crime de lesa-pátria", originado pelo sacrifício às metas do défice imposto pelo ministro das Finanças. Perguntou "que país é este" que o governo de esquerdas deixa, não só relativamente à saúde como à justiça, por exemplo.

Disse que até admitiria elogiar os 0,6% de défice conseguido por Mário Centeno "se não fosse a degradação" das condições de vida da sociedade, designadamente no SNS.

Santana defendeu que a situação só poderá ser invertida com crescimento económico sustentado, que tem de ser um "desígnio nacional" e envolver "vontade política e convicção" dos dirigentes partidários.

Apelo a propósito dos "exageros" de Marcelo

O líder da Aliança pediu, ao mesmo tempo, ao Presidente da República para não exagerar na solidariedade com o Governo. Aludia precisamente à convergência de Marcelo Rebelo Sousa com o executivo na questão da greve dos enfermeiros.

Sempre defendi e defendo a solidariedade institucional entre Presidente da República e Governo, mas não é preciso exagerar, é preciso equilíbrio"

Não gostou de ver Marcelo "saltar como saltou" na questão da greve dos enfermeiros, recordando que o executivo de António Costa trata com "dois pesos e duas medidas" a bastonária da Ordem e o "senhor da Fenprof".

Santana Lopes elogiou, contudo, a seriedade e a competência do Presidente da República, mas recusou-se a dar-lhe apoio antecipado, até porque "o homem ainda não decidiu se se recandidata ou não". "Nesta altura, o que tenho de dizer ao Sr. Presidente da República é que vamos ser exigentes com ele", sublinhou, ressalvando, contudo, que a Aliança está "ao lado" de Marcelo.

"A Aliança não é oposição ao sr. Presidente da República, nem quer ser", frisou, lembrando que tem estado ao lado de Marcelo quando este tem sido atacado, nomeadamente nos casos do bairro da Jamaixa, no Seixal, ou no caso do furto de armas em Tancos.

Ressentimentos passados ainda presentes

O líder da Aliança recuou ao passado para falar do país que entende que poderíamos ter hoje. Sugeriu que país poderia estar "muito diferente", para melhor, se o antigo Presidente da República Jorge Sampaio não tivesse dissolvido o parlamento e provocado a queda do seu governo em 2004.

Se o então Presidente da República, em 2004, não tivesse feito o que fez, o país estaria hoje muito diferente, de certeza absoluta".

Jorge Sampaio dissolveu a Assembleia da República, em 2004, provocando a queda do governo por si chefiado e as novas eleições, ganhas com maioria absoluta pelo PS de José Sócrates.

Pedro Santana Lopes aproveitou a "conversa" com os militantes para defender que Portugal precisa das "políticas certas, sem a cobardia dos ataques pessoais". "Vamos para a campanha sem fazer distinção entre partidos com assento ou sem assento parlamentar".

"Governo falhou redondamente"

A moção apresentada pelos membros da Comissão Instaladora Bruno Ferreira da Costa e Ana Pedrosa Augusto, que é também porta-voz  “uma alternativa de Governo” após as próximas eleições legislativas, em outubro.

Portugal não pode continuar subjugado a este Governo da frente de esquerda, e isso é um caminho claro. [Este] é um momento de libertação de uma agenda ideológica de destruição da história e do património do país. Tudo faremos para constituir uma verdadeira alternativa patriótica que substitua a frente de esquerda, estamos aqui para governar”.

Entre as críticas, Bruno Costa salientou que “esta frente de esquerda dispôs de condições únicas para fazer mais e melhor”, apontando que “era obrigatório, era urgente estar a crescer acima dos 3%, e o Governo falhou redondamente”.

Acusações também ao Governo, de fazer uma “gestão ineficiente” das contribuições dos cidadãos, referindo que Portugal tem “de deixar de viver nesta asfixia”, dado que o Estado “não pode viver à custa das famílias”.

Objetivo para as eleições europeias 

Ficou desde já traçado o objetivo para as primeiras eleições a que vai a jogo o partido Aliança: eleger três ou mais deputados nas europeias, a 26 de maio.

Santana assumiu que o seu partido quer disputar eleitorado à abstenção e apelou ao voto dos que não têm tido “paciência nenhuma para votar”.

Se há algo que é consequência da política feia são taxas de abstenção tão elevadas. E, por isso, quero fazer um apelo às portuguesas e portugueses que não têm tido paciência nenhuma para votar e que acham que não vale a pena para que deem uma chance, deem uma oportunidade(...) A quem mais queremos disputar é à abstenção. Se nas próximas eleições uma maquia considerável da abstenção vier para o voto expresso, em nós ou noutros, valeu a pena este ciclo e vale a pena este ciclo de viragem no sistema político”.

Este “grande apelo”, palavras suas, vale “para estas eleições e para as que se vão seguir”. “Eu garanto-vos essa regra sagrada, cumprir na ação o que se promete na eleição”, vincou.

Os deputados europeus da Aliança que forem eleitos, afiançou, vão ter de “prestar contas a toda a hora” e, apesar de estarem em Bruxelas, não vão poder “perder o contacto com o eleitorado”.

O cabeça de lista às europeias, Paulo Sande (até aqui assessor do Presidente da República) quer, como disse o próprio no congresso, “traduzir o europês para português”. 

Santana disse depois que “vamos ter calma, ser humildes, não ser arrogantes. Primeiro, ainda vamos ter que comer muito pão, vamos ter que trabalhar muito, lutar muito, correr o país de lés a lés para elegermos vários deputados ao Parlamento Europeu”, alertou.

O antigo primeiro-ministro realçou que o seu partido é europeísta, até porque Portugal não tem alternativa, mas Bruxelas “tem a obrigação de olhar para os resultados daquilo que exige aos estados-membros”. “E se passados 30 anos, de mais de 100 mil milhões de euros de fundos europeus injetados na nossa economia” e esta, “em vez de convergir, marca passo ou é ultrapassada por países que só aderiram há 15 anos, os dirigentes em Bruxelas tinham a obrigação de parar, pensar e dizer: Há aqui qualquer coisa que não bate certo e não podemos continuar pelo mesmo caminho”.

É preciso, disse, “uma nova atitude em Bruxelas”. O europeísmo é o “caminho natural” do país, porque “é muito difícil cada país da União europeia estar a competir por si”, mas é esse o “dilema, entre aqueles que acreditam que isto pode mudar, que isto tem que mudar e aqueles que se resignam e a aliança acredita que isto pode mudar e que isto vai mudar”.

Santana Lopes conseguiu encher a antiga praça de touros de Évora e pôr três músicas a votação para o hino da Aliança (veja os vídeos associados a este artigo).

Críticas ao Banco de Portugal

Santana teve ainda tempo, no seu longo discurso, de questionar como é que o Banco de Portugal não se apercebeu que “tantos bancos começaram a ir abaixo”, prometendo que o seu partido não diz “o que eles gostam de ouvir”.

Disse depois que ouviu "uma dirigente do Bloco de Esquerda propor ontem [quinta-feira] que o parlamento adote uma decisão qualquer para averiguar a idoneidade do atual governador do Banco de Portugal, porque fez parte do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos”. Falava da coordenadora do BE, Catarina Martins, que na sexta-feira pediu ao Governo para avaliar a idoneidade do governador do Banco de Portugal, estando em causa a intervenção de Carlos Costa nos "créditos ruinosos da Caixa", quando era administrador do banco público.

Mas desculpem lá, às vezes penso que a minha televisão avaria porque ouvi aquilo e depois fiquei a olhar à volta e pensei: então e o doutor Constâncio, o que foi supervisor do Banco de Portugal disto tudo, não deu por nada? Que país é este? Não tem de se averiguar nada? Não tem de se tratar da idoneidade?. Tantos bancos que naquele período dos senhores a quem o doutor Sampaio abriu a porta, tantos bancos começaram a ir por aí abaixo e não deram por nada no Banco de Portugal?”.

/ VC com Lusa (Notícia atualizada às 00:51 de domingo)