Como não podia deixar de ser, um dos principais temas no centro do debate com todos os candidatos presidenciais foi a pandemia e covid-19. Como tem sido gerida, o doseamento entre públicos e privados, até a possibilidade do adiamento das eleições

Do Serviço Nacional de Saúde como "coluna vertebral", ao "preconceito ideológico" e aos mitos, todos os candidatos apresentaram ideias diferentes. Mais à esquerda, João Ferreira afirmou que esta pandemia serviu para tirar uma "enorme lição":

Quando rebentou a covid-19, quando nos vimos numa situação de aflição, percebemos todos que foi e é com o Serviço Nacional de Saúde que podemos contar."  

Numa crítica clara aos privados e aos grupos económicos da área da saúde, o candidato do PCP disse que no momento de maior aperto "puseram-se ao fresco" e desistiram do combate. 

Há inúmeros exemplos em março, abril e posteriormente, de tentativas de recurso a unidades privadas de saúde para tratar doentes covid e as portas encontraram-se fechadas."

Mayan Gonçalves: "Há um preconceito ideológico de quem despreza o setor privado de saúde"

Com uma visão bastante oposta, Tiago Mayan Gonçalves criticou os candidatos de esquerda por desprezarem os privados, acusando-os de incongruência e preconceito ideológico. 

Há uma total incongruência entre quem há meses dizia que o setor social e privado não era necessário e agora clama por ele. Esta é a primeira incongruência que eu tenho de apontar. Depois, tenho de apontar também o claro preconceito ideológico de quem despreza o setor privado de saúde."

O candidato liberal referiu ainda que quem despreza os privados, despreza a boa gestão, eficiência, boa logística de recursos humanos. Mayan pretende um acesso universal dos cuidados de saúde aos portugueses, com liberdade de escolha entre o público e o privado. 

Ana Gomes: problema do SNS "não é de gestão, é de falta de recursos"

Ana Gomes tem sido uma persistente crítica das visões "neoliberais" de Tiago Mayan. A socialista não concorda que este doseamento entre públicos e privados seja uma questão de gestão, mas sim de falta de recursos. 

A Alemanha gasta 9% do PIB em saúde, nós só gastamos 6%. O que é que nós não faríamos se tivessemos a capacidade de gastar 9% no reforço do SNS? Que é quem nos tem valido".  

Considera que deve haver boa gestão e que não podemos contribuir para que os profissionais de saúde fujam para os privados ou para que emigrem. A candidata acusou ainda Marcelo Rebelo de Sousa de ter dado "a mão aos privados"

Ventura: "Temos de acabar com o preconceito ideológico contra o privado"

Sobre o doseamento entre o recurso ao público e aos privados, André Ventura disse que tal não existe e que prova disso foi a promulgação da Lei de Bases da Saúde.

No entanto, não concorda que toda a saúde privada seja "uma desgraça", dizendo que este setor também está "na linha da frente"

Nós temos quatro hospitais em Portugal com milhares de profissionais que se sentem discriminados, ofendidos e humilhados quando se diz que só estão lá para fugir, para desaparecer quando é preciso lutar". 

O presidente do Chega relembrou que existem hospitais privados "na linha da frente" e que é preciso "acabar com o preconceito ideológico".

Sobre as comparações com a Alemanha, Ventura disse que são irrealistas, alegando que Portugal não tem uma economia igual à alemã e não pode investir 9% do PIB na saúde. 

Marisa Matias: "O mito de que o SNS é mais caro é um mito mesmo"

Marisa Matias defendeu que Portugal está "a dar cartas na saúde", uma vez que os profissionais de saúde estão a segurar o país "numa das maiores crises da nossa vida".

Deixou críticas ao enorme desinvestimento no SNS, mas não concorda com Ventura quando este diz que um dos grandes problemas é a Lei de Bases da Saúde. 

A candidata do Bloco de Esquerda considerou "um mito" a teoria de que o SNS é mais caro: "O SNS custa menos aos portugueses e é mais eficiente".

Marisa aproveitou defendeu também que não devia ser permitido "fazer negócio" com um período tão difícil como uma pandemia. 

Vitorino: "Se estivesse a morrer, não ia escolher entre um médico no privado ou no público, eu queria era ser salvo"

Já Vitorino Silva disse que prefere ser tratado no público, mas não tem nenhum preconceito com o privado: "Eu se estivesse a morrer não ia escolher para ser tratado por um médico no privado ou no público, eu queria era ser salvo". 

O candidato da Rans alegou ainda que a vida dos portugueses não têm preço. 

Marcelo: SNS "é a coluna vertebral da saúde em Portugal"

Sobre as acusações de fazer pressão sobre os privados, Marcelo Rebelo de Sousa disse que esta pandemia serviu para perceber que o SNS "é a coluna vertebral da saúde em Portugal".

Ainda assim, salientou que é preciso mais investimento na saúde, garantindo que há margem para isso e que está previsto no Orçamento do Estado para 2021. Admitiu que estão a ser feitas parcerias com os privados, mas que o SNS não deixa de ser o centro.

O privado tem o seu espaço específico e o público pode recorrer ao privado em casos específicos" como o estado de emergência.