O frente a frente entre Marcelo Rebelo de Sousa e Tiago Mayan Gonçalves, na RTP, ficou marcado pelas duras críticas do candidato liberal ao atual Presidente da República. Mayan Gonçalves acusou Marcelo de ter sido "o ministro da propaganda" e de ter executado um mandato que foi um "falhanço"

Não é novidade que uma das principais bandeiras da Iniciativa Liberal, e que tem sido obviamente usada por Mayan Gonçalves, é o facto Marcelo ter sido "um porta-voz do Governo"

O mandato do senhor Presidente da República é um falhanço, até pelas suas próprias palavras. O seu discurso de candidatura apresenta-se como o mesmo e esse é que é o problema", começou por dizer o candidato liberal. 

Foi mais longe e disse que o Presidente da República foi, ao longo dos últimos quatro anos, "o ministro da propaganda" que tinha como único foco manter a popularidade. 

Marcelo Rebelo de Sousa tem-se apresentado nessa posição, de propagandista do Governo, e porquê? Porque a única coisa que move o senhor Presidente é a sua busca de popularidade". 

Marcelo desvalorizou as críticas, mas deixou claro que não é a popularidade que o move. 

Um Presidente da República está sujeito a um escrutínio e esse escrutínio significa que há quem goste e quem não goste. (...) Quem não gosta exprime consoante as suas convicções aquilo que pensa. A grande riqueza da democracia é essa".

 

É-me indiferente a popularidade. Totalmente indiferente", assegurou. 

"Eu intervim porque os factos aconteceram naquele momento"

Pegando numa das críticas de Mayan Gonçalves, Marcelo esclareceu que o mandato da Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal, foi um mandato único, de seis anos e que a própria o assumiu assim que tomou posse. 

Quem o disse, foi a procuradora doutora Joana Marques Vidal logo no início do seu mandato em 2013. Reconheceu que era uma evidência depois da revisão constitucional de 97. Ela assumiu claramente, de outra forma seria um mandato sem limite". 

Marcelo relembrou as críticas que foram feitas à nova Procuradora-Geral da República, Lucília Gago - "todos disseram 'quem a substitui não vai garantir o combate à corrupção" -, dizendo que isso não se veio a verificar, uma vez que avançaram processos como o do BES, Tancos e o Processo Lex

Criticado por não ter agido, ou ter demorado demasiado tempo a fazê-lo, em casos como os incêndios de 2017, Tancos, o caso SEF e o mais recente caso do procurador José Guerra, Marcelo garantiu que falou com todos os ministros, e respetivos ministérios, quando os factos aconteceram. 

Eu intervim porque os factos aconteceram naquele momento".

Argumento que Tiago Mayan Gonçalves contrapôs dizendo que Marcelo não é um espectador: "o senhor é um Presidente da República, não é um espectador. O senhor não tem de esperar por uma entrevista da ministra da Justiça para apurar as responsabilidades". 

Voltando à questão da popularidade - depois de Mayan o ter acusado de só vetar diplomas quando a percebia que as sondagens não lhe eram favoráveis - Marcelo respondeu: "Eu vetei a lei de financiamento dos partidos contra o Parlamento todo, há muito tempo, não foi no verão deste ano. Eu vetei uma lei aprovada pelo PS, e com a abstenção do PSD, que dizia respeito ao controlo da aplicação dos fundos europeus. O maior número dos meus vetos foi até em 2019, não foi em 2020"

"Eu não vou ser um presidente de um Governo"

Tiago Mayan Gonçalves afirmou que Portugal está estagnado politicamente e admitiu que, caso fosse eleito Presidente da República, iria dar uso ao magistério de influência junto do Governo de António Costa.  

Um presidente vai ter que presidir, não vai governar, não vai legislar. Isso cada órgão de soberania tem as suas funções, eu tenho isso bem claro. Agora, eu não vou ser um presidente de um Governo, eu vou ser o presidente dos portugueses. E o que Marcelo Rebelo de Sousa foi, na minha opinião, foi um presidente de um Governo".

Foi neste momento de Mayan foi interrompido por Marcelo que lhe perguntou: "que lei vetaria que eu não vetei?". O candidato liberal apontou a legislação que permitiu a eleição indireta dos presidentes das Comissões de Coordenação Regional, que considerou um “simulacro de democracia” combinado entre PS e PSD. Aproveitou ainda para dizer que Marcelo "é o candidato dos donos disto tudo", afirmação que mereceu a tirada "isso é um slogan" por parte do Presidente. 

O fundador da Iniciativa Liberal adotou, ao longo de todo o debate, uma postura bastante crítica em relação ao atual Presidente da República, mas foram raros os momentos de interrupções entre ambos.

VEJA TAMBÉM:

Cláudia Évora / Notícia atualizada às 23:09