O deputado socialista Ventura Leite, que tem lançado duras críticas ao ministro Mário Lino no processo de contrapartidas num negócio da TAP, advertiu esta quinta-feira que, se for excluído das listas de deputados na próxima legislatura, «quem será penalizado é o PS». Disse ainda que agiu «em nome do interresse nacional».

«Já recebi telefonemas à dizerem-me que, pela minha coragem, assinei também a minha sentença e que serei menos um deputado na próxima legislatura», declarou à agência Lusa Ventura Leite, deputado eleito pelo círculo de Setúbal, onde concorreu em 11º lugar nas últimas legislativas.

«Se me tirarem das listas de deputados, quem será penalizado é o PS. Mas não podia ter qualquer espécie de hesitação neste processo a pensar na minha inclusão ou não nas próximas listas de deputados», acrescentou.

Autor do relatório parlamentar sobre o processo de contrapartidas, Ventura Leite, de 58 anos e funcionário autárquico na Câmara de Grândola, apelou quarta-feira ao primeiro-ministro, José Sócrates, para que chame a si o controlo dos «dossiers» da construção da rede ferroviária de alta velocidade (TGV) e do novo aeroporto de Lisboa.

«Manifesta negligência»

Neste contexto, Ventura Leite acusou o ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações de «manifesta negligência» na aquisição de novos aviões da TAP, desperdiçando, segundo ele, uma oportunidade para obter compensações destinadas à indústria portuguesa num negócio que ascendeu a 2,5 mil milhões de euros.

Nas declarações que fez esta quinta-feira à agência Lusa, o deputado de Setúbal classificou Mário Lino como «uma pessoa extremamente afável».

«Mas, depois deste caso com as contrapartidas na aquisição dos aviões da TAP, tem Mário Lino condições para gerir os processos de construção do TGV e no novo aeroporto? Não é o Governo que assume como objectivo a criação de um cluster aeronáutico em Portugal?», questionou Ventura Leite.

«Agi em nome do interesse nacional»

Ventura Leite disse que colabora com o PS desde 1989 e que se filiou neste partido no início da década de 90. Nas eleições directas de 2004, disputadas entre José Sócrates, Manuel Alegre e João Soares, afirmou que apoiou o actual primeiro-ministro.

«Mas nunca fui uma pessoa de grupos. Em toda a minha actividade política agi sempre de acordo com os meus princípios e valores», salientou, antes de referir que está a trabalhar no processo das contrapartidas, enquanto deputado, desde 2006.

«Enquanto relator o coordenador do processo [de contrapartidas] no Parlamento, agi em nome do interesse nacional», insistiu.

Na actividade política, Ventura Martins reivindica um papel cimeiro na estratégia que levou o PS a retirar a Câmara de Grândola ao PCP nas eleições autárquicas de 2001.

«Dizia-se que era uma tarefa impossível, mas seguimos uma campanha completamente heterodoxa, através da constituição de uma equipa abrangente. No fim, o PS ganhou», observou.
Redação / HB