O ex-Presidente da República Mário Soares rejeita qualquer relação entre a divulgação do seu manifesto e a greve geral de quinta-feira, mas salienta que os sindicatos são organizações que têm o sentido do interesse nacional.

Soares: «Portugal corre o risco de dar grande cabeçada»

Em entrevista à agência Lusa, Mário Soares diz que o manifesto que encabeça contra as políticas de austeridade nada tem a ver com os motivos subjacentes à greve geral convocada pela CGTP-IN e pela UGT.

No entanto, o ex-Presidente da República salienta a importância das organizações representativas dos trabalhadores na vida política, económica e social do país.

«As centrais sindicais têm o sentido do interesse nacional. Os sindicatos são organizações para defesa dos trabalhadores e, naturalmente, têm o sentido nacional nessa mesma medida», sustenta Mário Soares.

«Quando se anula a vida dos trabalhadores e se cria desemprego em série, começa-se depois a vê-los caídos na rua, porque não têm dinheiro para comer», avisa.

Interrogado se a greve geral de quinta-feira pode resolver alguma questão de fundo em Portugal, o ex-Presidente da República respondeu: «Não sei se [a greve geral] é solução, mas é um direito de todos os portugueses».

«Vivemos numa democracia e não no Estado Novo e mesmo os dirigentes actuais deste Governo falam da greve geral como um direito dos trabalhadores. Isso faz parte da Constituição da República», acrescentou.

O ex-Presidente recusa que o manifesto seja interpretado como uma crítica à direcção de Seguro e mostrou-se convicto que o PS «está em forma» e vai subir muito nos próximos meses.

O ex-chefe de Estado considerou «não ter qualquer sentido» a interpretação de que a divulgação do manifesto será uma crítica à actual direcção do PS, liderada por António José Seguro.

«Sou militante número um do PS, mas isso não me dá garantias especiais. Tenho as melhores relações com [António José] Seguro, como tenho também com [Francisco] Assis e muitos outros socialistas», começou.

Neste contexto, Mário Soares frisou que sempre foi favorável à abstenção do PS perante a proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2012.

«Nunca entendi que o PS deveria votar contra [o Orçamento], porque o PS foi um dos partidos que assinou o memorando com a troika. É certo que agora tudo mudou muito, quer a troika, quer as coisas em Portugal, porque tudo está em contínuo movimento», observou.

Confrontado com os argumentos críticos por parte de algumas correntes socialistas à estratégia de abstenção seguida pela direcção do PS em relação ao Orçamento, Mário Soares disse não querer discutir política partidária, mas defendeu o trabalho desenvolvido pela actual direcção do seu partido.

«O PS está a funcionar, a resolução do PS [no Orçamento] foi aquela que todos conhecem, a favor da abstenção, e mesmo aqueles [deputados] que não concordaram subscreveram e votaram conforme a posição do partido no Parlamento, embora fazendo declarações de voto. Mas isso não significa que haja problemas grandes no PS», sustentou Soares.

Mário Soares afirma mesmo que «o PS está em forma e vai subir muito nos próximos meses».

O líder parlamentar do PS, Carlos Zorrinho, considerou já «muito oportuno» o manifesto encabeçado pelo ex-Presidente da República Mário Soares e afirmou-se convencido que a «generalidade das pessoas que construíram o Partido Socialista» se revêem neste documento.

Questionado sobre se a direcção do PS se revê no documento, referiu que se trata de «um manifesto de pessoas».
Redação / CP