Que a crise actual é a pior desde a Grande Depressão tem sido uma frase recorrente entre os economistas, empresários e responsáveis políticos de todo o mundo, mas para João César das Neves é um «disparate».

De acordo com o também professor universitário, uma crise pode ter diversas causas e a pior de todas elas são as guerras, o que não é o caso.

Nesse sentido, o responsável sublinha que a II Guerra Mundial «destruiu tudo e mais alguma coisa».

«Aprendemos uma lição preciosa e vai ser menos grave por causa disso», sustentou.

Apesar de destacar que esta é a primeira crise a nível mundial, acredita que a retoma económica não tem que ser necessariamente mais difícil, «até pode ser mais fácil».

César das Nves critica ainda quem acha que a culpa da crise é do sistema actual (globalização) e que temos que sair dele. Antes pelo contrário, considera que este «transformou completamente a nossa vida (e) saíram 50 milhões da pobreza nos últimos 10 anos».

«Gerou uma riqueza de tal maneira estrondosa que o nosso nível de vida subiu. Hoje, metade do planeta inteiro é de classe média». No entanto, assume que «este mecanismo é frágil e as vezes corre mal», acrescentou.

Quando há novos e bons produtos financeiros há uma crise

Para o economista, o que é estranho é que corra tudo bem pois «no meio de novas ideias é normal que algo corra mal».

Devíamos produzir muito pouco e muito caro

Segundo o responsável é a criação de novos produtos financeiros que origina crises porque são «tóxicos». «Quando há bons normalmente há uma crise. O aparecimento do banco foi um deles e foi o que aconteceu agora (com o mercado imobiliário nos EUA).»

«Houve uma bolha especulativa. Todos venderam ao mesmo tempo e de repente deu-se um colapso financeiro. Já aconteceu dezenas de vezes e desta foi com as casas. Caímos sempre que nem uns patos, mas é o espírito humano», afirmou num debate sobre as causas e consequências da crise financeira, organizado pela Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

Há sempre ricos a sair destas crises

César das Neves é também defensor da intervenção do Estado nestas alturas: «Tem o dever de intervir, agora a questão põe-se em quando.»

«O ex-presidente da Reserva Federal norte-americana, Alan Greenspan, saiu em glória e agora esta a ser crucificado porque na crise anterior das tecnologias salvou os bandidos. Agiu cedo demais.»

Para o economista é assim importante que quando o Estado ajuda o faça sem salvar os «bandidos». «Salvar as instituições não quer dizer salvar as pessoas», sublinhou.

Mas há sempre ricos a sair destas crises, aliás, «é uma altura boa para quem tem dinheiro e cabeça fria. Um gestor tem que estar alerta para perceber a diversificação dos mercados».

Proteccionismo seria catástrofe

O responsável acredita ainda que a regulamentação vai sofrer fortes mudanças. «Houve excessos e falta de regulamentação nos EUA. A regulamentação vai mudar drasticamente porque há uma maior preocupação».

Mas não há «nenhuma razão para que o mercado não volte a funcionar normalmente».

Acerca de soluções, o proteccionismo não será uma delas. «Foi o grande erro nos anos 30. É uma grande ameaça neste momento. Pode ser a catástrofe. Se mantivermos as fronteiras abertas, todos sairemos da crise mais rapidamente», concluiu.
Marta Dhanis