Numa rara conferência de imprensa promovida em Lisboa, Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, e Dias da Cunha, homólogo do Sporting, sentaram-se lado-a-lado para diagnosticarem os males de uma "actividade podre" e pedirem a intervenção do poder político, em vésperas de eleições legislativas, marcadas para 20 de Fevereiro.

O desafio aos líderes políticos, que Dias da Cunha reconheceu assumir-se como uma declaração de incapacidade dos homens do futebol para resolverem os problemas da modalidade, centra-se em três pontos: rigor nas contas de clubes e SAD+s, criação de órgão de arbitragem independente e de um tribunal desportivo.

O documento, que será discutido na próxima Assembleia-Geral da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, exara a sentença de morte do movimento associativo e é classificado por Dias da Cunha como o endossar da "batata quente" aos políticos por parte dos dirigentes desportivos.

"A intenção é provocar o poder político, aproveitando o momento que estamos a viver. É uma actividade séria de mais para continuar abandonada às redes de interesses que têm impedido todas as reformas", alertou o presidente do Sporting, que se recusou a identificar os interesses assinalados.

Para Dias da Cunha, o futebol é uma "actividade podre", mas a adopção de um órgão de arbitragem totalmente independente pode resolver parte considerável dos males que afectam o futebol luso, na busca da Verdade desportiva - com V maiúsculo, conforme destaca o manifesto.

"No caso concreto da arbitragem, nunca nos iremos entender, por isso terá mesmo de sair de onde está", sentenciou Luís Filipe Vieira, a quem "não passa pela cabeça" que o poder político não escute o apelo dos líderes dos rivais lisboetas.

A proposta passa também pela criação de um organismo que acompanhe e fiscalize uma arbitragem renovada, liberta dos espartilhos da Liga de clubes e da Federação Portuguesa de Futebol, inspirado nos Conselhos Superiores da Magistratura e do Ministério Público.

A separação da gestão da actividade dos árbitros da respectiva classificação foi outra das soluções avançadas, mas, apesar da forte ênfase no tema da arbitragem, Dias da Cunha e Luís Filipe Vieira reivindicaram também a elaboração de planos de contabilidade rigorosos, fiscalizados por entidades independentes.

A criação de um tribunal desportivo é considerada de "realização mais complexa", que poderá passar pela revisão do ordenamento jurídico, mas, para os dois presidentes, representa o culminar do processo de moralização do futebol profissional português.

Apesar de não ter debatido o conteúdo do manifesto com Pinto da Costa, presidente do campeão nacional e europeu FC Porto, os líderes dos clubes da capital ressalvam que o documento não representa nenhum ataque contra qualquer clube, porque "os problemas são comuns".

A ideia surgiu após o jogo de Alvalade, da 16ª jornada da Superliga, no qual o Sporting venceu o Benfica por 2-1, e conta com apoio dos presidentes do Belenenses, Sequeira Nunes, e do Marítimo, Carlos Pereira.
Redação / Lusa/SP