«Não sei como é que ele disse, não ouvi. Se ele disse aquilo que está no despacho de pronúncia, aquela versão, é pura ficção. Nego terminantemente, é pura ficção. Alguém imaginou isso, alguém lhe meteu na cabeça ou ele está a imaginar», disse Carlos Cruz à saída no intervalo para almoço da sexta sessão do julgamento do processo de pedofilia da Casa Pia.

Carlos Silvino (também conhecido como «Bibi») disse hoje em tribunal, sem a presença dos restantes seis arguidos, que Cruz lhe foi apresentado junto à casa dos pastéis de Belém pelo antigo secretário do apresentador, Carlos Mota.

Questionado sobre que razões levarão Carlos Silvino a acusá-lo, sendo mentira, como garante, Cruz limitou-se a argumentar: «Olhe, 24 anos depois parece que afinal Camarate foi um atentado. Isto é uma resposta».

Quanto ao facto de «Bibi» implicar Carlos Mota, antigo secretário de Cruz, o apresentador disse não fazer «a mínima ideia se se conheciam». «Carlos Mota começou a trabalhar comigo em 1990. Não faço a mínima ideia de quem Carlos Mota conhecia ou conheceu na vida dele».

Sobre se achava credível as acusações do antigo motorista da Casa Pia a Carlos Mota, respondeu:«Não faço juízos de valores sobre pessoas que estão ausentes e que não se podem defender de qualquer coisa que eu diga. Sou uma pessoa decente, não vou agora fazer juízos de valor sobre outras pessoas aqui em público».

Em Fevereiro de 2003, poucos dias depois da prisão do apresentador, o seu então colaborador disse publicamente, em forma de desagravo: «Se Carlos Cruz é pedófilo, eu também sou». Posteriormente, foi noticiado que Mota fora acusado pelo Ministério Público de abusar sexualmente de duas meninas em Odemira, mas nunca foi notificado nem interrogado, acabando os alegados crimes por prescrever e o processo arquivado pelo Tribunal de Portimão. Desde então desconhece-se o paradeiro de Carlos Mota.

O advogado das vítimas da Casa Pia, António Pinto Pereira, considerou que o depoimento de hoje de Carlos Silvino foi «credível», mas «um bocadinho evasivo». «Não foi totalmente expressivo como eu poderia imaginar. Faltou-lhe ali um bocadinho de coragem, mas referiu todos os arguidos à excepção de Manuel Abrantes [ex-provedor adjunto da Casa Pia e arguido no processo]», afirmou o advogado aos jornalistas. Quanto ao facto de Carlos Silvino se reservar para mais tarde em falar sobre Manuel Abrantes, o advogado disse estar «muito curioso em saber o que isso quererá dizer».

Pinto Pereira considerou que Carlos Silvino foi evasivo nas declarações ao «seleccionar muito bem um conjunto de factos que quis referir, guardando muitos outros que teriam certamente interesse em desenvolver e não o fez».

Confrontado com o facto de o ex-motorista e principal arguido não se referir hoje a Manuel Abrantes, o advogado do antigo provedor adjunto da Casa Pia disse que «ninguém é capaz de interpretar silêncios». «Portanto, vamos aguardar tranquilamente pelas declarações», afirmou.

Paulo Sá e Cunha esclareceu ainda que não sabe se irá requerer uma acareação entre o seu cliente e Carlos Silvino, tudo dependendo do desenrolar do julgamento e da produção de prova. Manuel Abrantes, por seu lado, disse ainda não estar a par do que se passou hoje na sala de audiências, mas que relativamente a esta primeira sessão em que o seu nome foi apontado por Carlos Silvino, reagiu com «expectativa», até porque ainda espera que a juíza-presidente diga o que foi afirmado sobre si por Silvino durante a audiência.
Redação / Lusa/AM