A letra da música retrata o dia-a-dia de todos nós em plena pandemia. Fala de dúvidas, angústias e incertezas reforçadas pelo confinamento, pelo teletrabalho, pelo trabalho que se foi, pelo medo da doença e do futuro.

O que é suposto eu fazer nestes tempos difíceis?

Eu nem sequer consigo fugir.

Eu nem consigo respirar bem.

Como é que posso deitar isto cá para fora?

Numa guerra comigo mesmo, dia e noite.

A lutar contra algo que é invisível aos olhos.

Serei forte o suficiente?”

A letra e a música de “Let it Out” são de autoria de Rita Cee e tem como objetivo passar a mensagem do projeto PsiQuaren10, levado a cabo por alunos e professores do ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada) e que, além de estudar o comportamento psicológico e emocional dos portugueses em contexto pandémico, presta também apoio gratuito a quem não tem possibilidade económica de o pagar.

Este ‘let it out’ é deitar cá para fora, apesar de nos resguardarmos e nos mantermos em casa. Pôr para fora as emoções. O objetivo da música é passar a mensagem de que as pessoas nos podem procurar e que, mesmo em fadiga pandémica e cansados, não podemos perder esta corrida na praia. Podemos exprimir aquilo que sentimos, mas temos de continuar a cumprir as medidas impostas pelas autoridades de saúde”, sublinha a psicóloga Ivone Patrão, uma das responsáveis do projeto PsiQuaren10, em declarações à TVI.

Mais vale as pessoas pedirem ajuda e exprimirem aquilo que sentem, do que deixarem-se levar pela fadiga pandémica e entrarem em incumprimento e deitar tudo a perder.”

A covid-19 faz parte das nossas vidas há mais de um ano e há quem não aguente mais o confinamento e a solidão provocados pela pandemia. 

82% dos portugueses em fadiga pandémica

O projeto levou a cabo um estudo precisamente sobre os níveis de fadiga pandémica dos portugueses, entrevistou cerca de 2 mil pessoas e alcançou resultados preocupantes: 82% dos portugueses estão em fadiga pandémica moderada ou elevada/severa. E os restantes, embora não apresentem níveis tão graves de cansaço emocional, também apresentam níveis preocupantes.

Toda a gente está cansada. As pessoas estão cansadas de estar em casa e de aderir às medidas. O nosso cérebro não aguenta estar tanto tempo fechado em casa. Quem está e teletrabalho apresenta maiores níveis de fadiga pandémica. Mas quem está em lay off  também apresenta valores significativos”, sublinha Ivone Patrão.

Esta sexta-feira, o projeto conseguiu novos resultados preocupantes: o impacto da perda está também a atingir muitos portugueses. Houve quem perdesse familiares e amigos, mas houve quem ficasse sem trabalho e visse projetos saírem gorados.

Há muita incerteza em relação ao futuro. Pessoas que viram projetos ir por água abaixo, novas propostas de trabalho, casamentos, comemorações… apresentam maiores níveis de fadiga pandémica. Sentem que deixaram de ter projetos. Estão cansadas disto e deixaram de ter a que se agarrar. Há um enorme impacto de perda.”

Daí a importância de desmistificar o pedido de ajuda, incluindo emocional. A música de Rita Cee serve precisamente para mostrar que ninguém está sozinho e que “estamos todos no mesmo barco”.

Manuela Micael