O Maisfutebol esteve à conversa com André Moreira, o guarda-redes do Belenenses, que passou pelo Atlético de Madrid. De forma sempre simpática e desinibida, o português, de 25 anos e com uma experiência invulgar para a sua idade, explicou-nos a fórmula de sucesso de Diego Simeone, e o que os jogadores têm de estar dispostos a fazer se querem vingar com a rojiblanca, incluindo o compatriota João Félix. Esta é uma viagem ao mundo do Cholismo

Uma conversa sobre o jogo e sobre os bastidores de uma das melhores equipas do mundo, que muitos apelidam de ‘resultadista’ e ‘defensiva’. Mas será que as coisas são mesmo assim?

Em julho de 2014 ainda pairava no ar a fragrância de um Atlético de Madrid campeão. Os colchoneros celebravam 18 anos depois, e nos bastidores preparava-se uma movimentação digna de um conto de fadas.

Por essa altura, a seleção nacional sub-19 jogava a final do campeonato da Europa na Hungria. Num onze dominado por Sporting e FC Porto, o guarda redes titular jogava no modesto Ribeirão, à data no Campeonato Nacional de Séniores (terceira divisão nacional).

André Moreira entre o presidente e o diretor de futebol do Atlético

O miúdo de 18 anos passou, em menos de um ano, de terceiro guarda-redes a titular do emblema famalicense. Daí à seleção foi um ápice. Na Hungria deu-se a mostrar ao mundo e o Atlético antecipou-se à concorrência.

Aproveitando ter sido campeão, os colchoneros investiram bastante nesse ano. Oblak, Griezmann, Mandzukic, Moyà, Jímenez, Correa, Siqueira, Ansaldi…

…e o português André Moreira.

«Assinei no ano em que eles foram campeões. Foi tudo muito rápido. Voltei para Portugal após o Europeu e uns dias depois estava a viajar para Madrid para assinar o contrato. Na altura, os escritórios eram no Vicente Calderón… Imagine-se um puto passar do Estádio do Passal, que dá para cerca de 2 mil pessoas, com muito jeitinho, para um estádio de 60 mil pessoas. Mesmo vazio é um choque incrível», confidenciou-nos o guarda-redes.

Em entrevista exclusiva ao Maisfutebol, André Moreira garantiu que o objetivo não era afirmar-se no primeiro ano, mas sim ter uma estrutura forte que o apoiasse no início da sua carreira.

Já em Madrid, o guarda-redes acabou por ser emprestado ao Moreirense e ao União da Madeira, onde se estreou na Primeira Liga sob a alçada de Luís Norton de Matos. No ano seguinte, em 15/16, ficou em Madrid. Lá, encontrou o controverso treinador Diego Simeone, que tem um método de trabalho único, e uma preocupação redobrada com a defesa, como nos contou André.

«Para Simeone há duas dimensões que estão intrinsecamente ligadas: a tática e a psicológica. O que se vê são 11 jogadores, uma bola e um objetivo: ganhar. Como? Não interessa. Se a equipa estiver a jogar com o Levante em casa e estiver a levar um ‘amasso’, basta ganhar 1-0 que o resto não interessa. Esta é a maneira de Simeone ver o futebol», revelou o jogador formado no Ribeirão.

E em treino, como era Simeone?

«Ele é o melhor treinador que já tive a preparar o jogo, se falarmos no que é perceber o que a outra equipa vai fazer. Todas as semanas havia pelo menos um treino em que trabalhávamos mais as questões táticas em função do adversário e como íamos evitar ataques deles, ou sofrer golos. Este é sempre o grande objetivo dele: não sofrer.»

Esta preocupação com o adversário, tangível ao comum dos adeptos, resulta na «melhor defesa do mundo», segundo André Moreira.

«Ele trabalha muito pequenos pormenores do aspeto defensivo, detalhes mesmo e no ponto de vista atacante também trabalha, naturalmente, mas penso que é percetível o ênfase dado a cada momento. Ele tem a melhor equipa do mundo a defender, ponto final. Não é a equipa que melhor ataca, sendo o ataque responsabilidade da criatividade individual dos jogadores como Griezmann, João Félix, Diego Costa», aponta.

Os jogadores para a equipa são pensados ao detalhe e todos os fatores contam. Na baliza, por exemplo, Simeone viu em Oblak o «casamento perfeito» com as necessidades da sua equipa.

«Na minha opinião, na defesa da baliza, não há ninguém no mundo igual ao Oblak, e isso é o que faz a diferença para ele jogar no Atlético. O estilo de jogo não requer saída elaborada de trás, não requer a linha defensiva alta e um guarda-redes que seja um Alisson na defesa da profundidade. O pontapé de baliza curto não requer um Ederson, Ter Stegen ou Neuer. Para o Atlético de Madrid é o melhor guarda-redes possível.»

Quanto aos avançados, pensados para ‘defender’, a explicação é simples:

«Quando eles são campeões, o avançado deles é o Raúl Garcia, que era um oito de combate, transformado num avançado para combater lá na frente. O Griezmann, por exemplo, perdia muito do ponto de vista ofensivo, do ponto de vista técnico, pelo que dava à equipa defensivamente. Há um lance incrível dele em Camp Nou, quando eu estava lá, em que ele vem recuperar a bola ao Messi à nossa grande área. Era impossível ele depois estar também na frente», frisou o jogador de 24 anos.

VÍDEO: o 'roubo' de Griezmann a Messi na área do Atlético

André partilhou balneário com Tiago e, já depois deste sair, viu chegar Gelson Martins, e depois João Félix, ambos jogadores mais associados à capacidade técnica e espírito criativo do que propriamente à capacidade em ajudar defensivamente, recuperar bolas ou dar o sangue pela equipa. Nestes moldes, os jogadores têm hipóteses de singrar no clube madrileno, mas apenas se cumprirem a regra número um.

«Os jogadores que queiram vingar têm de dar tudo para a equipa. Jogadores novos que chegam rotulados de craques têm algumas dificuldades em adaptar-se. Basta ver o caso de Gelson Martins, Gaitán e Lemar. Por muito evoluídos tecnicamente que sejam, têm de se adaptar ao modelo de jogo, física e psicologicamente. Têm de dar à perna e pensar na equipa, e depois tentar do ponto de vista ofensivo fazer a diferença. Nunca, nunca, nunca descurando o momento defensivo.»

Sobre João Félix, o português diz ser «o casamento perfeito com Diego Costa», que é um lutador por natureza, e agora tem um jogador parecido com Griezmann nas suas costas, capaz de servi-lo e de jogar entre linhas.

Aos 25 anos, André Moreira tem a experiência de um jogador catedrático. Jogou com grandes do futebol, foi treinado por grandes do futebol.

Cedo na carreira viveu o seu conto de fadas, mas o melhor ainda está por contar.

Afonso Cabral