Benfica, Sporting, FC Porto, Belenenses e CUF. Entre 1954 e 1976, apenas estas cinco equipas fizeram sempre parte do painel de participantes da 1.ª divisão.

Durante esse período, a equipa da margem sul do Tejo chegou a apurar-se para as competições europeias e construiu boas equipas capazes de ombrear com os chamados «grandes».

A ligação à gigante Companhia União Fabril serviu de isco para atrair alguns dos melhores jogadores da época, seduzidos pelo estatuto de empregado-desportista, que lhes permitia auferir dois salários e ter uma garantia para o pós-futebol.

«Eu trabalhava oito horas a empurrar carros e no final do dia ia treinar. Só quando o Fernando Caiado chegou [1971] é que eu e outros colegas deixámos de ir para a fábrica, porque treinávamos de manhã e de tarde. Mas continuávamos com esse estatuto», conta ao Maisfutebol Capitão-Mor, jogador da CUF entre as décadas de 60 e 70.

Até deixar o clube, por alturas do 25 de Abril, o ex-avançado, hoje com 77 anos, teve convites de Benfica, Sporting, FC Porto e Belenenses. Resistiu: pela segurança que tinha e pelos pais, também eles funcionários na fábrica e promovidos anos antes quando ele assinara contrato sob essas condições. «Podia ter ido para o Benfica na altura do Fernando Riera e para o Sporting uns anos antes do Manuel Fernandes. Um dia, o Mário João, que tinha voltado do Benfica para a CUF para não perder o trabalho na fábrica, disse-me: ‘Porque é que queres ir embora daqui? Eu vim para cá, o [Alfredo] Espírito Santo [ex-Benfica], o Monteiro [ex-Sporting] e o Vieira Dias [ex-Benfica e Atlético] também e tu queres ir embora?’ Todos eles eram jogadores de primeira água», conta.

Manuel Fernandes, que chegou à CUF com 18 anos, também beneficiou desse mesmo estatuto. «No meu primeiro ano ganhava 800 escudos no clube e mil na fábrica. Fui os primeiros três meses para a fábrica, mas depois o salário continuou a ser pago. Tinha o curso industrial de serralheiro mecânico e estava numa oficina. Tinha de estar em pé muitas horas e o meu diretor disse-me para me focar só no futebol, porque ter de ir treinar depois daquilo era duro», recorda.

Mas o ganha-pão extra para o presente e uma garantia de futuro não era a única das regalias dadas pela Companhia. «Estávamos num clube com condições ímpares. Estreámos a sauna, tínhamos tanque de banhos e massagens de agulheta. É verdade! Tudo de bom num tempo que era de vacas gordas», sorri Capitão-Mor.

Condições de excelência e instalações novíssimas a partir de 1965, quando a CUF subiu do Campo de Santa Bárbara para o Estádio Alfredo da Silva, no Lavradio, fortaleza para os barreirenses e casa dos horrores para muitos adversários, grandes incluídos. Em 11 campeonatos, o Sporting tropeçou lá cinco vezes (4 empates e uma derrota) e o Benfica, o mais feliz dos três, perdeu duas vezes e não foram poucas aquelas em que só ao cair do pano garantiu o regresso a Lisboa com os dois pontos. O FC Porto foi quem mais penou: quatro vitórias, três empates e cinco derrotas nos 12 jogos oficiais.

Neste sábado, o Alfredo da Silva volta a receber os azuis e brancos 45 anos depois do último jogo, a 12 de outubro de 1975. O Grupo Desportivo CUF chama-se hoje Grupo Desportivo Fabril e o clube do Barreiro está há muito afastado da elite do futebol, mas a marca deixada no futebol português e a carga simbólica deste frente a frente histórico é inegável.

Por isso, o Maisfutebol recuou no tempo e traz até ao presente algumas tardes marcantes protagonizadas por CUF e FC Porto no Lavradio. Catenaccio, Pedroto, um emprego salvo por Capitão-Mor, a estreia de Cubillas, a cabeçada de Manuel Fernandes e a inspiração de António Oliveira.

Leia tudo neste dossier especial que o Maisfutebol preparou para si.

David Marques