Com quatro títulos (2011, 2012, 2014 e 2015) conquistados nos últimos cinco anos, o Recreativo do Libolo colocou a pequena vila de Calulo, na província de Kwanza Sul, como capital do futebol em Angola, conseguindo destronar os clubes de Luanda (1º de Agosto, Petro e recentemente o Kabuscorp), até então os principais aglutinadores de campeonatos.

O êxito tem muitas bases portuguesas, principalmente na parte técnica e organizacional. Fundado em 14 de agosto de 1942, o Recreativo do Libolo ascendeu ao Girabola - principal competição de futebol em Angola -, há oito anos. Rui Campos, o presidente, tem apostado em técnicos portugueses e os resultados têm sido positivos.

Mariano Barreto no ano da estreia (2008) no Girabola, obteve o 3º lugar e esteve no clube até 2010. Em 2011 entrou o angolano Zeca Amaral, que comandou a equipa que conquistou os dois primeiros campeonatos. 2013 foi atribulado, com muitas mudanças de treinador e isso refletiu-se no 8º lugar obtido: José Dinis não chegou a começar a época, seguindo-se Henrique Calisto, Fernando Vieira (numa fase de transição) e o angolano Miller Gomes. Ainda sob o comando de Miller Gomes, em 2014, o Libolo voltou a ser campeão, estatuto que manteve em 2015, com Sébastien Desabre (na 1ª volta) e João Paulo Costa, português que assumiu a equipa e que se mantém no cargo.

Bruno Vicente, atualmente diretor geral, chegou com Barreto (era adjunto) e é o português há mais tempo no clube. Fernando Vieira, diretor desportivo depois de ter sido adjunto, e Pedro Caravela, treinador adjunto, chegaram em 2012. Além do treinador João Paulo Costa, completam ainda a estrutura técnica e organizativa do Libolo os portugueses Pedro Sacramento (adjunto), Jorge Silva (treinador de guarda-redes), Mauro Moderno (observador), David Nogueira (fisioterapeuta e responsável pelo departamento médico) e Tiago Ramos (fisioterapeuta). O angolano Fernando Caetano (fisioterapeuta) completa o departamento médico.



Em estágio no Algarve, o Recreativo do Libolo prepara uma época que começa do dia 4 de fevereiro com o jogo frente ao Sagrada Esperança, para a Supertaça de Angola. Seguem-se depois os dois embates com o Racing Micoseng (Guiné Equatorial), da eliminatória preliminar da Liga dos Campeões Africanos.

«Tinha acabado de entrar para a formação do Sporting mas sempre ambicionei treinar equipas seniores profissionais. O Bruno (Vicente) convidou-me para ajudar o Recreativo do Libolo a tentar fixar-se como uma força do futebol em Angola e, eventualmente, em África. Era - e é - um projeto muito aliciante em termos profissionais e acabei por tomar a decisão de forma relativamente rápida. O único senão é que a família fica cá e isso é sempre difícil de ultrapassar», recorda Pedro Caravela, como tudo começou em 2012.

«Devagarinho, temos vindo a evoluir. Calulo continua a mesma vila de há cinco anos atrás, mas as condições que o clube oferece são cada vez melhores. Vivemos num espaço restrito, diferente de todas as outras equipas, e todos os títulos que temos conquistados também se deve a esse tipo de dificuldades que mais nenhum clube tem: estamos 24 horas juntos, treinadores, jogadores, todos no mesmo espaço, e quando os problemas aparecem são sentidos de outra maneira, tal como quando os êxitos surgem. É tudo muito mais intenso e isso só valoriza os objetivos que alcançamos.»
, continua.



Em Calulo, o grupo de trabalho do Recreativo vive num condomínio privado, tendo o clube adquirido 14 habitações. As refeições são todas tomadas no refeitório do clube. A internet ocupa os tempos livres do grupo, tendo o clube adquirido routers que vão sempre com a equipa nas viagens.

Em estágio permanente e com poucas folgas devido à competição, a união é um dos pontos fortes do Libolo: «Temos conseguido ao longo destes cinco anos traçar um perfil do que pretendemos das pessoas e conseguimos criar uma verdadeira família. Os problemas são sentidos de uma maneira diferente e são ultrapassados como uma família. É óbvio que de vez em quando faz falta sairmos de lá e irmos a casa, mas em termos de ambiente de trabalho é extremamente excecional.»

As palavras são de Pedro Caravela, que acrescenta; «O nosso dia-a-dia é muito voltado para o trabalho: após o pequeno almoço que tomamos todos juntos no refeitório do clube, treinamos e depois do almoço quando não há treino, temos trabalho de casa, como analisar vídeos ou preparar os dias seguintes. Estamos sempre focados no trabalho, raramente temos tempos de folga que nos permitam sair.»

O estado de algumas estradas também não motivam a sair de Calulo: os 240 km que separam a vila até Luanda são feitos em 5:30h, e os cerca de 600 Km até Benguela (local preferencial nas folgas mais largas) faz-se em sete horas.

«O Recreativo do Libolo é o único clube em Angola que conseguiu ser campeão sem ser de uma cidade capital de província. E ainda por cima não é de uma forma esporádica, mas muito sustentada, e isso tem muito a ver como o clube cativa as pessoas e as condições de trabalho que proporciona.», observa Pedro Caravela.



«Temos fortes laços com Angola e acho que podemos aumentar ainda mais essa relação. Os angolanos olham para o Libolo com muita curiosidade porque têm a ideia de que o clube tem uma estrutura muito organizada e muito forte, e que sustenta todo este percurso de títulos e vitórias. Já temos recebido alguns convites de outros clubes para partilharmos o nosso conhecimento, nomeadamente em formações de treinadores. Somos aceites de uma forma muito positiva.»,
conclui.

João Paulo Costa iniciou a época de 2015 como adjunto do francês Sébastien Desabre, mas no início da 2ª volta assumiu o cargo de treinador principal. «O sucesso é de todos, desde a direção ao corpo técnico, departamento médico, logístico e jogadores. A estrutura é forte e dá-nos um suporte consistente para que possamos preocuparmo-nos apenas em treinar e jogar.», reconhece.

«Vamos procurar revalidar o título. Sabemos que não vai ser fácil porque há equipas que se estão a reforçar bem e mantêm também princípios que têm contribuído para a evolução do futebol angolano. O Girabola é um objetivo e a participação na liga dos Campeões Africanos não pode ser pensada de outra forma que não de jogo-a-jogo. Estamos a preparar a Supertaça, que é o primeiro jogo oficial que temos. A Taça de Angola também é um objetivo, no ano passado custou-nos muito não termos ido, pelo menos, à final. Queríamos muito ter conquistado a dobradinha, depois de já termos vencido a Supertaça no início da temporada.», lamenta.

No Girabola, o Recreativo do Libolo tem passeado nos últimos anos, mas tem sentido muitas dificuldades na Liga dos Campeões Africanos... «Não estou de acordo: no Girabola o Libolo não passeia porque a competitividade tem sido cada vez maior, e o campeonato do ano passado comprova isso. Há momentos em que conseguimos ter muito sucesso em relação ao nosso jogo e qualidade, mas também se nota uma transcendência dos nossos adversários em quererem ganhar-nos. Há, claramente, uma motivação extra quando jogam contra nós e notamos isso quando fazemos a análise dos nossos adversários, identificando a sua forma de jogar, que é alterada quando jogam contra nós, com uma capacidade sempre superior.»,
vincou.



Em relação à Liga dos Campeões Africanos, João Paulo Costa é mais comedido: « Da única experiência que tive, no ano passado, acho que tínhamos condições para conseguir passar a 1ª eliminatória, mas um conjunto de fatores - alguns deles que não conseguimos controlar -, não nos permitiu ter sucesso. Foi por um fio que não se conseguiu, espero que este ano seja alcançado. Este clube já conseguiu chegar à fase de grupos, o que é muito bom para o contexto do futebol africano.»

Se ultrapassar o Racing Micoseng, o Libolo irá discutir com o Al-Ahly, ex-clube de José Peseiro, agora treinador do FC Porto, o acesso à fase de grupos.

Quisemos saber que jogadores angolanos teriam lugar nos plantéis dos principais clubes em Portugal, mas João Paulo Costa respondeu de forma diplomática: «Não vou individualizar por uma questão de respeito. Mas de uma forma geral o jogador angolano é muito volitivo, tem muita vontade de trabalhar e tem alguma dificuldade em interpretar os momentos do jogo e os comportamentos que deve ter. Jogam muito um futebol natural, mais de rua, por intuição. Com essas capacidades tornam o jogo extremamente rápido e com pouca organização nos processos defensivos e de equilíbrio. Em Angola joga-se mais em transição em vez de construção, e nesse aspeto há alguns jogadores que se destacam e estão referenciados.».

Com uma cultura peculiar, em África as pessoas valorizam muito o misticismo e as tradições, João Paulo Costa encara como natural, algumas situações desse cariz que acompanham o futebol angolano.

«Há muita superstição e tradições tipicamente africanas. E temos que respeitar essas questões, é a cultura do povo e temos que nos adaptar a elas. Mas nunca senti a equipa ou os meus jogadores fazerem algo em função dessas tradições. Vi coisas que não faziam senso, que não tinham lógica, como, por exemplo, um senhor seguido por muita gente entrar em campo com uma garrafa e despejar água por tudo o que era canto, nas balizas, círculo central..., é a cultura deles e há que respeitar.»


Jorge Silva, é o caloiro da estrutura técnica do Recreativo do Libolo. O antigo guarda-redes do Salgueiros e FC Porto, entre outros clubes, tem a responsabilidade de treinar os guarda-redes. « Sei o que vou encontrar mas é uma aventura na minha carreira. São competições diferentes das que estou habituado, mas tanto eu como a equipa técnica temos experiência para fazer algo de interessante. O aspeto monetário também seduziu-me, até porque em Portugal a situação financeira não é a melhor, há clubes que não pagam. Foi pelo projeto - que é aliciante - e pela oferta financeira, que aceitei o desafio.», referiu ao Maisfutebol.

Além do futebol, o Recreativo do Libolo também é uma potência no basquetebol, com títulos conquistados em Angola e nas competições africanas. Também com uma estrutura portuguesa, com Norberto Alves (antigo treinador do Benfica) como responsável técnico. No entanto e dada a quantidade de jogos, a equipa está sedeada em Luanda, mas sempre que possível, desloca-se a Calulo para assistir aos jogos de futebol. O inverso acontece quando a equipa de futebol joga em Luanda.
Jorge Anjinho