Com o título da Taça Libertadores no último sábado, Abel Ferreira marcou para sempre o nome de Portugal na história do Palmeiras. O bicampeonato sul-americano era uma obsessão do clube, e a missão foi cumprida. No entanto, os adeptos ainda têm um sonho por realizar, uma conquista que seria inédita e colocaria o treinador num patamar ainda mais alto: o Mundial de Clubes, competição que ainda gera polémica e piadinhas entre os adeptos rivais.

A tarefa de Abel não será nada fácil, pelo contrário. O torneio da FIFA, que reúne os campeões de cada continente, começou nesta quinta-feira no Qatar, e o Verdão pode encarar na final o poderoso Bayern de Munique, vencedor da última Liga dos Campeões. Na fase final da Champions, disputada no mês de agosto em Lisboa, a equipa alemã bateu o Paris Saint-Germain na final, por 1-0, e antes disso já tinha goleado o Barcelona por... 8-2, nos quartos de final.

Mas antes de pensar num possível confronto com o Bayern, no dia 11 de fevereiro, o Palmeiras terá que vencer a meia-final, no domingo, contra o Tigres, do México, que esta quinta-feira bateu o Ulsan Hyundai, da Coreia do Sul.

Já os alemães estreiam-se na segunda-feira diante do vencedor da eliminatória entre Al Ahly, do Egito, e Al Duhail, do Qatar. Todas as partidas terão estádio com público reduzido, apenas 30 por cento da capacidade, e formado apenas por residentes no país, já que o governo qatari fechou as fronteiras para os turistas e adotou protocolos rígidos contra a covid-19.

«Primeiro é dar parabéns pelo o que conseguiram (a Libertadores). A montanha era muito alta. Conseguimos ir lá em cima. Agora temos de descer. O Mundial agora é uma montanha ainda maior do que foi a Libertadores. Temos de ter calma, paciência, e preparar este jogo a partir de hoje», afirmou Abel Ferreira, em conferência de imprensa na terça-feira.

A relação do clube alviverde com o Mundial é motivo de contradições e brincadeiras entre os adeptos adversários, que falam e cantam que «o Palmeiras não tem Mundial». Isto porque os grandes rivais da cidade de São Paulo já foram campeões do mundo, seja em competições organizadas pela FIFA, a partir de 2000, ou na antiga Taça Intercontinental, apenas entre o campeão da Europa e o da América do Sul.

O São Paulo ganhou três vezes, em 1992, 1993 e 2005, enquanto Santos, em 1962 e 1963, e Corinthians, 2000 e 2012, venceram o título duas vezes cada um.

O Palmeiras considera-se campeão mundial em 1951 e até já pediu o reconhecimento deste título à FIFA. Na altura, o Verdão conquistou o Torneio Internacional de Clubes Campeões, também conhecido por Copa Rio, que foi disputado no Rio de Janeiro, e foi a primeira grande competição intercontinental de clubes de futebol na história.

O Palmeiras ergueu a taça ao superar a Juventus, de Itália, em dois jogos na final, disputados no Maracanã, vitória por 1-0 e empate por 2-2. Também participaram Vasco (Brasil), Nacional (Uruguai), Sporting (Portugal), Áustria Viena (Áustria), Estrela Vermelha (ex-Iugoslávia) e Nice (França). O comité executivo da FIFA chegou a enviar um ofício ao clube brasileiro reconhecendo a importância do torneio na época, mas nunca houve uma declaração oficial com chancela de «campeão do mundo».

«Não importa o que os rivais dizem, o Palmeiras é campeão mundial em 1951, sim. A FIFA já destacou uma vez a importância desse torneio e naquela época os melhores clubes do mundo jogaram no Rio. Pior é o Corinthians que venceu o primeiro Mundial sem ter sido campeão da Libertadores. Se ganharmos ao Bayern no Qatar, seremos bicampeões», disse o adepto palmeirense Rogério Cerqueira.

Por outro lado, o corintiano Vitor Souza contestou o triunfo adversário e ironizou: «Para mim, 51 é pinga [existe uma marca de cachaça brasileira chamada «51»]. Essa competição que eles dizem que ganharam lá num passado distante só pode ser brincadeira, ninguém nunca tinha ouvido falar nisso antes. Ninguém a reconhece».

Polémicas à parte, o Palmeiras desembarcou na quarta-feira em Doha para ir à procura do sonho que quase conseguiu em 1999, quando foi campeão da Libertadores sob o comando de Luiz Felipe Scolari. Naquela final, em jogo único contra o Manchester United, no Japão, a equipa fez uma exibição superior ao Manchester United, mas acabou por perder (1-0), com um golo de Roy Keane, em uma falha do guarda-redes e ídolo Marcos.

Desta vez no Qatar, Abel Ferreira também terá um desafio enorme com o Bayern de Munique, de Lewandowski e companhia, pela frente. Para isso, a principal arma palmeirense é a força coletiva, em um elenco que tem nomes de destaque como o guarda-redes Weverton, os defesas Gustavo Gomez e Felipe Melo, o lateral Viña e os avançados Rony e Luiz Adriano.

Somados a eles, estão os garotos vindos das camadas jovens que subiram e se destacaram este ano, como Gabriel Menino, Danilo Patrick de Paula e Gabriel Verón. Autor único golo na final da Libertadores, o herói improvável Breno Lopes viajou para Doha para acompanhar a delegação, mas não poderá entrar em campo, pois foi contratado após o fecho da janela internacional de transferências, e o regulamento da FIFA não permite a sua inscrição.

Na campanha vitoriosa da Libertadores, a equipa teve excelentes exibições, como no primeiro jogo da meia-final contra o River Plate, quando fez 3-0 na Argentina. E também nas goleadas por 5-0 sobre Bolívar, Tigre e Delfín. Por outro lado, os palmeirenses sofreram com a derrota por 2-0 na partida da segunda mão, em casa, contra o River, resultado que só garantiu a classificação pelo excelente desempenho no primeiro jogo, fora de casa.

Na grande decisão contra o Santos, no último sábado no Maracanã, apesar de um confronto equilibrado e duro, com raras oportunidades de golo e um futebol pouco atrativo, o Palmeiras conquistou a América a jogar da maneira que os adeptos sempre pedem em seus cânticos: «A Taça Libertadores obsessão, tem que jogar com a alma e o coração».

Para ter hipóteses de ser campeão do mundo agora, além de qualidade, será preciso repetir esta fórmula.

Tiago Leme / para o Maisfutebol, no Qatar