Quando em 1924, o jovem Mihaly Siska deixou o Vasas SC para jogar no FC Porto estaria longe de imaginar que, quase um século depois, o clube onde começou a jogar futebol, fundado por trabalhadores metalomecânicos em 1911, iria acolher agora a seleção portuguesa.

Dos vários magiares que marcaram o início dos tempos futebol luso, a história de Siska é uma das que mais vale a pena contar.

Chegou ao Porto com 18 anos, por indicação do então técnico e seu compatriota Akös Tezler, e quase provocou um terramoto.

Quando os puristas, defensores do amadorismo, descobriram que o talentoso guarda-redes veio representar os azuis e brancos a troco de um emprego e respetiva remuneração de mil escudos mensais, convocaram uma Assembleia-Geral para tentarem travar a contratação. A 28 de agosto, porém, a proposta de que «as direções do FC Porto não influam na aquisição de qualquer jogador, de outros clubes ou regiões, nacionais ou estrangeiros» foi chumbada pela maioria dos sócios.

No final dessa época, o FC Porto haveria de conquistar o Campeonato de Portugal, numa final vencida ao Sporting (2-1), no improvisado Campo de Monserrate, em Viana do Castelo. E em 1926, dois anos depois da sua chegada, Mihaly naturalizava-se português e passaria a chamar-se Miguel Siska.

Nesse ano, porém, a polémica do profissionalismo voltou a estar na mira da imprensa da capital, o que obrigou a direção do FC Porto a escrever um direito de resposta ao jornal «Os Sports de Lisboa», em resposta às acusações: «O senhor Siska, nosso keeper afamado, é empregado na casa Borges & Irmão, na Avenida da República, em Vila Nova de Gaia, onde tira proventos da sua profissão de mecânico.»

Mecânico numas caves de vinho do Porto? Assim seja.

A verdade é que dentro do campo Siska era um fenómeno. A ponto de ser alcunhado de «O Meia Equipa».

Na revista «Stadium», após a conquista do Campeonato de Portugal pela segunda vez, em 1932, o jornalista Rodrigues Teles traçava-lhe em tom bem-humorado o seu perfil com um toque social:

«Se o ‘húngaro-tripeirizado’ merece um cognome real, tê-lo-ia a propósito: “O Conquistador.” E, no entanto, Siska, educado, culto, quási-poliglota, não olha à Ramón Navarro [ndr.: galã de cinema e teatro mexicano, com direito a estrela no passeio da fama de Hollywood Boulevard]… Mas nenhum jogador mereceu olhares mais ternos. Há paixões por Siska: houve mesmo alguns “azares” por causa da sua figura esbelta e desempenada. E o grande guarda-redes, duas vezes campeão de Portugal, pouco se incomoda. Só tem um prazer na vida: levantar-se ao meio-dia e deitar-se às 3 horas da madrugada; e uma ambição: ganhar no “foot-ball”… Gosta de pastéis e de castanhas cozidas, de frequentar o bar “Borges” e de rapar o cabelo no verão. No grupo chamam-lhe “O Meio Team”.»

Teria o galã portista casado ou deixado descendência? É nesta pista que seguimos até encontrar Rita Gencsi, bisneta de Margit Puskás Gencsi. É ela que nos dá a chave do mistério.

«O Mihaly foi segundo marido da minha bisavó Margit. Eles não tiveram filhos. Ele morreu em 1947, no ano em que o meu pai nasceu, por isso não o conheceu», começa por contar ao Maisfutebol.

Nascida a 11 de dezembro de 1903, Margit foi casada com Deseo Gencsi, húngaro que também haveria de treinar o FC Porto no início da década de 1950. Com ele, teve dois filhos: Martha e Gabor, avô de Rita.

«Depois eles separaram-se, mas ficaram amigos. Sei que mais tarde a minha bisavó se juntou com o Siska.»

Mistério resolvido: Miguel não deixou descendência.

Campeão aos 33 anos e contra o rival Benfica, como Villas-Boas

Os seus problemas de saúde haveriam de o levar a deixar o campo e a tornar-se treinador de futebol. Quando o também húngaro Joseph Szabo – vencedor do primeiro campeonato nacional, em 1934/35, ao serviço do FC Porto – saiu, o seu antigo pupilo ocupou o cargo – apesar de uma fugaz passagem de outro húngaro, Ferenc Magyar, pelo banco portista.

Mesmo como treinador, o sucesso de Siska tornou-se ainda mais impactante. Em 1938/39, com apenas 33 anos e 109 dias, haveria de se tornar no mais jovem técnico a sagrar-se campeão nacional. Isto, contando que nasceu mesmo a 4 de janeiro de 1904. No ano seguinte, revalidaria o título.

Já agora, o mais velho campeão português foi o também húngaro Lajos Czeizler, com 70 anos, em 1963/64 pelo Benfica, no pós-Béla Guttmann (outro húngaro).

A título comparativo, Ruben Amorim foi o quinto mais jovem de sempre e Villas-Boas foi o terceiro mais jovem, mas neste último caso as semelhanças de com os feitos do luso-húngaro não se esgotam aí.

71 anos antes de o FC Porto celebrar às escuras na Luz a conquista do título de 2010/11, os portistas com Siska ao comando celebraram a conquista do campeonato também em Lisboa e frente ao Benfica.

Foi a 19 de maio de 1940, no Campo das Amoreiras. Um feito que haveria de ser repetido a 3 de abril de 2011.

Voltando a Miguel, os seus problemas pulmonares que o haviam obrigado a pendurar as chuteiras levaram-no também a deixar o banco.

Aceitou um lugar na secretaria do FC Porto com o mesmo salário de técnico da equipa principal: 1500 escudos. Não quis mais do clube.

Porém, o seu amigo Valdemar Mota, primeiro atleta olímpico do FC Porto e primeiro jogador do clube a capitanear a seleção nacional, tirava do seu bolso 500 escudos por mês para ajudar Siska a comprar medicamentos.

Dadas as dificuldades financeiras, o FC Porto e Boavista trataram de fazer um jogo de angariação de fundos, que renderia 10 contos para o antigo jogador e técnico.

Aquando da sua morte, o clube organizou um festival desportivo, em que participou até o rival Benfica e que rendeu 100 contos à mulher Margerit, curiosamente o nome da ilha onde Portugal fica instalado em Budapeste.

Avançando para 2021: estamos no estádio Illovszky Rudolf, nomeado pela ex-glória do Vasas, antigo treinador e jogador, que nasceu há quase um século (1922), num ano em que Siska ainda jogava no clube húngaro.

Na casa que acolhe a seleção portuguesa, no bairro budapestino de Angyaföld, ninguém ouviu falar de Miguel ou sequer de Mihaly, que partiu demasiado jovem para o Porto e por lá ficou.

Por muito que arriscássemos questionar os adeptos do histórico clube, a resposta resumir-se-ia na melhor das hipóteses a um encolher de ombros.

Recuemos, pois, uma semana, de volta à Invicta. No cemitério de Agramonte, numa ala oposta à do mausoléu do FC Porto, onde jazem Pedroto, Pinga, Pavão, entre outras glórias, perguntámos pelo jazigo de Miguel Siska.

No gigantesco cemitério na zona da Boavista, um funcionário diligente vê a fotografia do túmulo e demora segundos a puxar pela memória e dar-nos as coordenadas infalíveis: «Isso é na secção 25.»

Avançamos e, finalmente, descobrimos.

Ao fundo do túmulo de granito, duas placas: Margerit Puskas Gencsi e Martha Gabriela Gencsi.

Ao centro, entre duas floreiras, uma bola de futebol em mármore. A encabeçar o jazigo, a réplica de um rosto num medalhão em latão e outra placa. Ali, defronte, a prova final de que chegámos ao destino:

«Miguel Siska

Nascido em Budapeste [sem data]

Falecido em Porto a 25/10/1947»

Sérgio Pires / Enviado especial do Maisfutebol ao Euro 2020