Se há tarefa que não pode falhar no dia a dia de quem vive da produção de leite nos Açores é a ordenha das vacas. Acontece duas vezes por dia, uma de manhã e outra ao final da tarde. Regra geral, é a segunda ordenha do dia que muitas vezes impede os adeptos de acompanharem os jogos de futebol.

Mas se isso é um aborrecimento quando os jogos são em palcos distantes, pior se torna quando o desafio tem lugar a pouco mais de meia centena de quilómetros da pastagem, como é o caso da partida deste sábado, que opõe o emblema da região, o Clube Desportivo Santa Clara, a um dos grandes do futebol português: o FC Porto, às 19h30, hora dos Açores.

«Como as vacas não podem ficar por ordenhar, há que pagar a alguém que faça o serviço. Gente disponível não é muito fácil de encontrar e só dá para pedir a alguém que não seja portista», diz, em jeito de brincadeira, Pedro Ponte, um dos mais fervorosos adeptos do lugar do Burguete, um pequeno povoado da freguesia de Lomba da Maia, na ilha de São Miguel: «É que ninguém quer perder o regresso do Porto aos Açores, num jogo oficial. Há mesmo quem nunca tenha tido oportunidade de ver a equipa ao vivo e esta é uma oportunidade única.»

Pedro Ponte: «Como as vacas não podem ficar por ordenhar, há que pagar a alguém que faça o serviço»

Talvez, por isso, não seja de estranhar que a «mão de obra» suplente tire partido da situação, inflacionando o valor a pagar para render um portista na tarde de sábado.

«Pode ir aos cinquenta euros. Não fica barato. Depois é preciso somar o valor do bilhete, a viagem e a festa antes e depois do jogo, com umas cervejas ou um jantar… Mas, pelo Porto, nem se fazem contas», diz Pedro Ponte.

Contas que no caso dos primos de Pedro, Rogério e Daniel Ponte, também eles produtores de leite e portistas convictos, ficam bem mais pesadas. Trabalham juntos na exploração agrícola e nenhum quer abdicar da possibilidade de ver o jogo. «Nem era hipótese não ir», garante Rogério Ponte, o mais novo.

Rogério e Daniel Ponte: «Nem era hipótese não ir»

É que os bilhetes já estão garantidos. E só do Burguete, rua onde não vivem mais de 50 pessoas, deverão ir ao estádio mais de 10 adeptos. O ponto de encontro, como não podia deixar de ser, é no café deste povoado.

O café Coroa, pintado de azul em nome do negócio

Tem «Coroa» no nome e é considerado uma espécie de «catedral do Porto». Basta reparar na cor do edifício por fora e, uma vez no interior, confirmar o mar de azul que inundou todas as paredes. Numa delas, como não podia deixar de ser, está o emblema dos dragões. 

O emblema do FC Porto e um cachecol vermelho, promessa aos clientes benfiquistas 

Iria Medeiros, proprietária do café, explica que de futebol gosta pouco – exceção feita aos jogos da seleção portuguesa – e que a pintura se fez em nome do negócio. «É sobretudo a malta do Porto que vem para aqui. Na hora de dar cor à casa, pediram para ser pintado de azul e eu acedi. Verdade seja dita: os jogos que me dão mais lucro à casa são os do Porto.»

Iria Medeiros, a dona do café: «Verdade seja dita: os jogos que me dão mais lucro à casa são os do Porto»

Lucro que neste sábado deve ser escasso. Por isso, o café vai estar de portas fechadas.

«Como a maioria vai ver o jogo a Ponta Delgada, vou estar aqui com um ou dois?! Aproveito e tiro uma folga», remata Iria Medeiros, numa altura em que entra no café o presidente da junta, outro elemento da família Ponte e também ele portista.

«Mas a preferência clubística pelo FC Porto vem no sangue?», inquiriu o Maisfutebol.

«Nascemos todos Porto, um ou dois é que degeneraram», ironiza Alberto Ponte, apontando o único elemento que dispensava na parede do café: um cachecol do Benfica. Depois do jejum de títulos do FC Porto, a proprietária viu-se forçada a cumprir uma promessa aos benfiquistas que lá passam.

Alberto Ponte, o presidente da Junta: «Nascemos todos Porto, um ou dois é que degeneraram»

«Numa democracia há que respeitar todos. E o Sporting também irá para a parede quando ganhar alguma coisa», volta novamente à conversa a dona do café.

Enquanto não chega a hora de regressar à exploração, mata-se o tempo entre uma cerveja e as previsões para o jogo de sábado. Fazem-se contas aos bilhetes e comprova-se que sobra um.

Imagine, mais um primo, também ele portista e produtor de leite. Apesar de ter sondado várias pessoas, Luís Carlos Ponte não conseguiu ninguém à altura da tarefa.

Luís Carlos Ponte não vai ao jogo: «Vou mesmo ter ficar pela pastagem. É o que terei mais próximo de um relvado»

«Isto não é só mandar alguém para aqui tirar o leite. Tenho mais de meia centena de animais. A pessoa tem de estar minimamente preparada e habituada. E, depois, existem padrões de exigência para o leite que se entrega na fábrica que não posso pôr em risco. Desta vez, vou mesmo ter ficar pela pastagem. É o que terei mais próximo de um relvado», lamenta.

E como na exploração agrícola não há televisão, é uma vez mais o rádio, no bolso ou na carrinha, a permitir o acompanhamento do jogo deste sábado.

«Para além do rádio, agora a internet no telemóvel, também dá para espreitar qualquer coisa, enquanto se trabalha. Além disso, como a família vai em peso ao jogo, também vou ficar atento ao que eles vão publicando nas redes sociais. Modernices… mas que servem para ir ficando a par do resultado… Desta vez, as companheiras de todos os dias ficaram à frente do meu clube do coração.»

Luísa Couto