O Jurnal dedicou-lhe apenas uma notícia de um parágrafo. Gastou mais espaço, aliás, numa outra história sobre o luxemburguês que fez o golo da vitória: «O herói do Sheriff já foi apanhado em coma alcoólico ao volante! Os polícias ficaram sem palavras», pode ler-se em título.

A agência de notícia IPN trazia uma notícia de três parágrafos, o jornal Timpul era o único que lhe dava honras de primeiro ecrã, embora não gastasse também mais do que três parágrafos a falar do feito histórico, o Expresul nada que se visse: preferiu destacar uma história de futebol feminino.

A vitória do Sheriff no Santiago Bernabéu foi só o último, e sem dúvida mais improvável, feito de um clube que desconhece a fronteira dos limites: antes disso já tinha eliminado o Estrela Vermelha e o Dínamo Zagreb, e já tinha batido o Shakhtar Donetsk na primeira jornada.

A equipa vai por isso desafiando a lógica, jogo após jogo, numa daquelas narrativas que alimentam a crença de que tudo é possível. No futebol, no mundo, na vida. Não há impossíveis.

Ora esta história teria tudo para ser um conto de fadas, se houvesse alguém disponível para escrevê-la. A verdade é que na Moldávia natal, pelo menos, parece não haver.

«Mais depressa se dá destaque ao Sheriff na imprensa russa do que na imprensa moldava», conta José Coelho, jogador do Aliados de Lordelo, ao Maisfutebol, lembrando os anos que jogou no clube de Tiraspol.

O que é, de facto, verdade. A imprensa moldava dá um destaque mínimo à epopeia do Sheriff.

Porquê? Porque o Sheriff é tudo o que a Moldávia não quer que ele seja: um clube muito rico, no país mais pobre da Europa, que se alimenta com dinheiro que ninguém duvida ser sujo. Um clube ainda de uma região que se autoproclamou independente em 1990 e que vive à margem do país.

Para início de conversa, é preciso dizer que o Sheriff é de Tiraspol, a capital da Transnístria, uma região encravada na fronteira da Moldávia com a Ucrânia. Historicamente a Transnístria sempre foi próxima da União Soviética, enquanto o resto da Moldávia era próximo da Roménia.

Tanto assim que na Moldávia fala-se uma espécie de romeno e na Transnístria fala-se russo.

Em 1940, porém, os dois territórios foram anexados por Estaline, como República Soviética da Moldávia. O domínio soviético durou cinquenta anos, até à queda do regime em 1990. Nessa altura a Moldávia declarou a independência, a Transnístria abriu uma guerra que durou alguns meses e que acabou com a declaração de independência, não reconhecida por nenhum país da ONU.

A Transnístria é, portanto, um país que não existe. Mas é de facto um país: tem uma bandeira, com a foice e o martelo, um governo, uma assembleia, um exército, uma língua e uma moeda próprias.

«Dizer que a Transnístria vive nos anos 80 se calhar até é muito simpático», conta José Coelho.

«É um regime comunista puro, com ligações claras à Rússia, a arquitetura é da União Soviética, existem vários outdoors do Putin, estátuas do Lenine por todo o lado, várias bandeiras da Rússia. A Moldávia fala uma língua parecida com o romeno, na Transnístria fala-se o russo. Na Moldávia há uma moeda e na Transnístria é o rublo. Há soldados russos por todo o lado a garantir a ordem.»

No país mais pobre da Europa, onde o salário médio é pouco superior a 200 euros, a Transnístria é um caso particular: ainda mais pobre, mais atrasada, mais oprimida.

«Tiraspol é uma daquelas entradas da Rússia na União Europeia e vive num regime que eu não conheço em mais lado nenhum, e já vivi em muitos países. Para entrarmos em Tiraspol temos de passar dois postos de controlo», acrescenta José Coelho.

«Aterrámos em Chisinau, por exemplo. Depois para entrar na Transnístria temos de passar o primeiro posto de controlo da República da Moldávia e depois temos de passar um segundo posto de controlo da própria Transnístria, que é controlado por soldados russos. E são postos de controlo a sério, onde tem de se mostrar o passaporte, é revistado, o carro é revistado. Todos os carros param. Até os táxis.»

Ora foi nesta realidade, de um país dentro de um país, que nasceu o Sheriff.

Um clube singular, fundado em 1997 por dois antigos comandantes do KGB e que desde então ganhou 19 títulos de campeão da Moldávia em 21 possíveis. Um desses fundadores, Viktor Gusan, ainda é o dono do clube. Mas é muito mais do que isso.

Anatoly Dirun, diretor da Escola de Estudos Políticos de Tiraspol, disse à France Press que «Viktor Gushan é a pessoa mais influente da Transnístria», adiantando que ele controla os principais cargos de liderança na região, do parlamento aos lugares do primeiro-ministro e da presidência.

«A cidade é controlada por ele», resume José Coelho.

«Há dez anos, por exemplo, não havia Coca-cola, só havia Pepsi. Porque a Coca-cola não conseguiu a autorização dele para comercializar na região.»

Viktor Gusan aproveitou a proximidade dos regimes russos, que a função de comandante do KGB lhe tinha dado, para na onda de privatizações que se seguiu à queda da União Soviética ficar dono de várias empresas importantes. Dizem que o fez afastando a concorrência de outros interessados.

«Viktor Gusan tem um histórico criminal muito sombrio, mas se for aos nossos cemitérios verá que eles estão cheios de criminosos. Na altura não rastreámos quem matou quem e sim, não foi muito bonito, mas esta é a realidade da vida económica», disse, também à France Press, Valery Litskay, ex-ministro das Relações Exteriores da Transnístria.

Depois de fundar a empresa que viria a dar nome ao clube, Sheriff, com uma estrela dos antigos xerifes como símbolo, Viktor Gusan fez-se proprietário de várias empresas e foi enriquecendo. Hoje exporta caviar para os Estados Unidos e Japão, têxteis e materiais de construção para toda a Europa, para além de ser dono de todos os postos de combustível da região, da única rede móvel, da única rede de supermercados, de órgãos de comunicação, enfim.

Este monopólio nunca esteve isento de controvérsia, porém. A Foreign Policy diz que grande parte da fortuna de Gusan se deve ao contrabando de cigarros, álcool e armas no porto de Odessa.

«O dono do Sheriff não sai do Tiraspol para lado nenhum. Ou melhor, em 2012 só saía para ir às Maldivas, não sei porquê. Mas não ia a mais lado nenhum, andava sempre coberto de guarda-costas e a casa dele tinha mais pontos de vigia do que um forte.»

Certo, certo é que, em 1997, fundou o clube, que rapidamente se tornou um caso de sucesso no futebol moldavo. Uma equipa sem rival no campeonato local.

«O Sheriff é o único clube realmente rico da Moldávia. Tiraspol é uma cidade apagada, triste, que vive nos anos 80. O Centro de Treinos de Tiraspol é algo que só visto. O do Sporting ou do FC Porto, por exemplo, não são melhores. Em Portugal só o do Benfica se equipara», refere Coelho.

«Quando estive no clube, em 2012, só o Centro de Treinos do Tottenham, que era recente, tinha uma área equiparável à do Sheriff. É algo de verdadeiramente assustador.»

O clube tem, de resto, três estádios. Um todo coberto para jogar no inverno. Um outro em que disputa os jogos domésticos. E um terceiro, mais recente, ao estilo inglês, só para jogar as competições europeias. Para além disso tem um hotel, restaurantes, uma clínica, doze campos relvados, vários campos sintéticos, ginásios, piscinas, enfim.

«Depois saímos do complexo e a cidade é uma pobreza extrema. É preciso algum estômago para aguentar aquilo. Ou vivíamos naquela bolha que é o Centro de Estágio, ou se pensássemos que a nossa vida não era só o futebol já se tornava difícil acordar de manhã.»

Há histórias que José Coelho não esquece, aliás.

«Um dia vinha a sair do Centro de Treinos e encontrei uns miúdos que tinham saído da escola. Pediram-me dinheiro. Não eram pedintes, eram crianças que estudavam e estavam a pedir dinheiro. Eu meti a mão à carteira e dei-lhes uma nota que valia um ou dois euros. Disse ao miúdo que era para dividir por todos. O miúdo viu a nota... e começou a fugir com ela. Os outros começaram a correr atrás dele, eu a gritar que era para todos e a pensar o que tinha feito, que se o apanhavam os outros iam desfazê-lo. Por causa de um ou dois euros. Isto mexeu muito comigo», conta.

«Outra coisa, quando lá chegávamos davam-nos um dossier para escolhermos carro. Podíamos escolher um Mercedes topo de gama, o que quiséssemos. Havia tudo. Mas só podíamos andar com o carro em Tiraspol. Porquê? Eram carros roubados. Em Tiraspol não havia problema, o dono do clube é que mandava, mas se saíssemos com ele para outras cidades podia ser confiscado.»

José Coelho adianta que as condições dos jogadores eram muito boas, mas sublinha que a exigência também era militar. Cada jogador tinha, por exemplo, um peso determinado pelo clube.

«Diziam-te que o teu peso ideal era, vamos imaginar, 70 quilos. Todos os dias te controlavam, se um dia pesasses 70,1 quilos, multavam-te em 50 dólares. Se no dia seguinte estivesses outra vez acima do peso, multavam-te em 100 dólares, e assim sucessivamente. O João Pereira, que esteve lá comigo, era central, era fisicamente forte e teve de levar uma carta da Federação a dizer que o peso ideal dele era 80 ou 85 quilos.»

Além disso, em dia de jogo, a pressão arterial de todos os jogadores era medida logo de manhã. Se estivesse alta, o atleta era obrigado a fazer o teste do balão para despistar presença de álcool.

Ora bem vistas as coisas, trata-se um clube com uma história muito singular, num país ainda mais invulgar. O que tem feito na Liga dos Campeões é verdadeiramente extraordinário, ultrapassa toda a lógica e é um poema ao encanto do futebol.

É verdade que na Moldávia ninguém quer saber, um leitor, num comentário à notícia de três parágrafos no jornal Timpul, dizia que «são só estrangeiros comprados com dinheiro sujo», mas a Europa não consegue parar de abrir a boca de espanto perante tão grandes feitos.

O Sheriff está a dar-nos uma lição de geografia, geopolítica... e futebol.