A expulsão frente ao Benfica atirou Stephen Eustáquio para um protagonismo menos desejado, sobretudo depois das críticas de Jorge Jesus (posteriormente “retiradas”). Mas antes já o médio tinha conquistado o direito a ser falado, e positivamente, pelo rendimento apresentado no Paços de Ferreira, clube que lhe reabriu as portas do futebol português.

A equipa orientada por Pepa atravessa agora o pior momento da época, com quatro derrotas consecutivas, mas ainda assim ocupa o quinto lugar, o que ajuda a recordar os méritos do trajeto até aqui. Stephen Eustáquio tem sido uma das figuras da equipa e do campeonato, o que reacendeu o interesse dos principais emblemas nacionais, nomeadamente do FC Porto, mas em janeiro foi o Paços de Ferreira a avançar para a compra de metade do passe, ao Cruz Azul do México.

Na próxima janela de transferências o nome de Eustáquio voltará a ser muito falado, certamente, mas se as críticas de Jorge Jesus não lhe tiraram o sono, também não é o mercado que lhe rouba serenidade.

Diz quem o conhece muito bem.

Protagonista do «Conto direto» desta semana, onde explica a decisão de encerrar a carreira de jogador aos 28 anos, Mauro Eustáquio tem sido sempre o principal conselheiro do irmão Stephen, quatro anos mais novo.

Natural da Nazaré, a família Eustáquio mudou-se para o Canadá quando Mauro tinha um ano e meio. Stephen nasceu em 1996, em Leamington, a sudoeste de Toronto, bem perto da fronteira com os Estados Unidos, mais concretamente com Ohio e Michigan.

Foi no «soccer» que os irmãos começaram a jogar, e durante vários anos treinados pelo pai, que nem sabia falar muito bem inglês. A mãe acabava por assumir o papel de tradutora, até porque tinha vivido anteriormente no Canadá, pelo que toda a família Eustáquio estava envolvida.

«O Stephen sempre foi muito bom tecnicamente. Conseguia fintar toda a gente e marcar golos. Uma vez, quando devia ter uns sete ou oito anos, marcou oito golos na primeira parte. No Canadá e nos Estados Unidos, nestes escalões mais jovens, é normal os miúdos aproveitarem o intervalo para estarem um bocado com os pais ali à beira do campo enquanto bebem um bocado de água. O Stephen assim fez, e depois voltou para o início da segunda parte, fintou toda a gente uma vez e marcou… na mesma baliza. Autogolo, portanto. Começou a festejar e os meus pais a esbracejarem, a fazer sinal que era para o outro lado. Acabou a chorar (risos)», recorda Mauro, em conversa com o Maisfutebol.

«Este é um dos episódios preferidos dos meus pais. Mas há outro. Também era normal os pais levarem umas guloseimas para os miúdos. Cada semana levava um pai diferente. Quando chegou à vez dos meus pais, o Stephen aproveitava todas as aproximações à linha para ir agarrar uns bolos e levava-os para dentro de campo, atrás das costas», revela ainda o irmão.

O conselheiro ainda provocou algumas lágrimas, mas a recompensa chegou

A família decidiu entretanto regressar a Portugal, e os irmãos Eustáquio fizeram um trajeto idêntico na formação: primeiro o Grupo Desportivo “Os Nazarenos”, depois a mudança para a União de Leiria, ambos em 2010.

«Sempre o tentei guiar, para que ele tivesse aconselhamento e seguisse um caminho que eu não consegui seguir. Eu tive convite para ir para a União de Leiria logo nos iniciados, por exemplo, e devido a hesitação minha e dos meus pais, não fui. Acabei por fazer apenas dois anos nos campeonatos nacionais. Com o meu irmão foi diferente. Ele recebeu o convite nos iniciados e aconselhei-o a ir logo», recorda Mauro.

«A primeira internacionalização dele pelo Canadá, nos sub-17, foi devido a um telefone meu. Eu já tinha ido à seleção e falei com um diretor, ao saber que iam ter um estágio em Maiorca. Eles nem sabiam que o Stephen existia, e a convocatória já tinha saído, mas 24 horas depois ele estava em Maiorca», acrescenta.

Apesar da diferença de idades, os irmãos Eustáquio ainda foram colegas de equipa durante alguns meses. Mauro teve um curto regresso ao Nazarenos, em 2013, quando já tinha um compromisso para ir jogar para o Canadá, no início do ano seguinte, mas convenceu Stephen a voltar também para o clube da terra: «Ele era júnior de primeiro ano e não estava a jogar na União de Leiria. Então disse-lhe para ir jogar para os seniores comigo, na distrital.»

Stephen (à esquerda) e Mauro (à direita) no GD "Os Nazarenos". Jogaram juntos no clube da terra, mas a foto remete para um torneio que Stephen jogou e no qual teve Mauro como treinador-adjunto [arquivo pessoal]

O verão seguinte foi agitado para a família Eustáquio. O filho mais velho já estava de regresso ao Canadá, para jogar no Ottawa Fury, mas foi preciso percorrer grande parte do país para definir o próximo passo na carreira de Stephen.

«Nesse verão os meus pais fizeram quilómetros com ele. Esteve em mil e um clubes. Houve até um dia em que jogou pelo Feirense, às 10h da manhã, fez 90 minutos, e depois de tarde foi jogar pelo Torrense em Sacavém, e fez mais 70 minutos. Foi então que o João Paulo, que era o treinador do Torrense, disse que queria ficar com ele», recorda Mauro.

Stephen assinou então pelo emblema de Torres Vedras, para o segundo ano de júnior, mas logo nessa época (2014/15) estreou-se pelos seniores. Acabou por ficar três anos no Estádio Manuel Marques.

«Em 2016/17 eles foram à fase final para lutar pela subida e chegaram aos oitavos de final da Taça de Portugal. O Stephen tinha feito uma época fantástica, e a dada altura o clube começou a fazer pressão para ele assinar. É normal, estavam a tentar segurá-lo, mas eu disse ao meu irmão para aguardar. Ao fim de algumas semanas ele já chorava, a dizer que eu lhe tinha cortado as pernas, e que já nem o Torreense o queria. Passado uns dias recebeu a chamada do Leixões. Ele sempre teve um irmão mais velho para ajudar, para além dos empresários, que ainda hoje são os mesmos. Teve as pessoas certas para o ajudar na carreira.»

Stephen Eustáquio no Leixões

Da seleção sub-21 e do interesse do Sporting.... ao Cruz Azul e à seleção do Canadá

Stephen esteve apenas seis meses em Matosinhos. A meio dessa época 2017/18 foi logo contratado pelo Desportivo de Chaves, então na Liga. O médio não estranhou o salto, e as exibições no principal escalão despertaram a atenção dos principais emblemas nacionais, com o Sporting à cabeça. Embora já tivesse jogado pelas seleções mais jovens do Canadá, Stephen foi chamado à seleção sub-21 portuguesa, pela qual acabou por somar sete internacionalizações.

De forma algo surpreendente, Stephen assina em janeiro de 2019 pelo Cruz Azul, que era então orientado por Pedro Caixinha. Ao segundo jogo sofre uma rotura de ligamentos. A lesão era imprevisível, claro, mas olhando agora, a mudança para o México terá sido precipitada?

«Muito sinceramente, acho que não. Surgiu foi o azar da lesão. Faz parte. O Cruz Azul é como se fosse um Benfica, FC Porto ou Sporting no México. É uma equipa com muita história, que luta sempre pelo título. Ele aceitou o convite do Pedro Caixinha, que é um treinador que procura um futebol atrativo, como ele teve com o Luís Castro, e agora com o Pepa. Pensamos que foi a decisão acertada, o problema foi a lesão. Depois o Caixinha saiu quando ele estava a voltar. Foi um ano com muita turbulência, mas a decisão não foi precipitada. Podemos pensar de outra forma: no Cruz Azul ele teve a possibilidade de fazer uma recuperação muito boa, e hoje não se nota nada que teve essa lesão», justifica Mauro.

Stephen ao serviço do Desportivo de Chaves

Um mês depois da lesão grave, Stephen anuncia que optou por representar a seleção canadiana, que já tinha representado nos escalões mais jovens. Também aqui o irmão rejeita a ideia de uma decisão precipitada.

«Foi uma decisão falada entre nós os dois. Existe uma diferença entre ser internacional 15 vezes e ser 150. O Stephen é canadiano também. É um país que foi muito bom para a família. A primeira internacionalização foi pelo Canadá. Sabemos a qualidade que Portugal tem no meio-campo. Nunca achámos que ele não tinha qualidade, mas sempre pensámos, com ambição, que ele podia ser O MÉDIO, aquele que leva uma equipas às costas, a uma fase final, e não apenas mais um. A ideia foi um pouco por aí, pela ambição dele. Mais cedo ou mais tarde o Canadá vai a um Mundial. Ele sempre disse que se sentia bem no Canadá, que queria ser uma figura na seleção.»

As palavras de Jesus e o futuro

Depois dos momentos difíceis no Cruz Azul, Stephen regressou a Portugal pelas portas de Paços de Ferreira. Recuperou protagonismo e voltou a despertar a atenção de clubes com outras ambições, agora com o FC Porto na linha da frente.

«O interesse de um grande clube é sempre motivo de orgulho. Não há nada certo, apenas notícias, mas é com orgulho que as lemos em casa. Não é, contudo, algo que nos tire o sono. É o sonho de qualquer jogador chegar a um grande, mas agora pensamos no Paços de Ferreira. Quando acabar a época logo se vê. O Stephen está feliz no Paços. O clube acreditou nele depois de uma lesão grave, e deu-lhe imenso apoio. Temos muito carinho pelo Paços lá em casa», diz Mauro.

Os irmãos Eustáquio já assumiram que cresceram como adeptos do Benfica, algo até referido no perfil de Stephen Eustáquio na federação canadiana, mas Mauro garante que não há qualquer preferência. O profissionalismo está acima de tudo, e depois vem… o reconhecimento ao treinador atual.

«Nunca falámos sobre preferências. O que sabemos é que ele tem um treinador que o potenciou bastante. O que posso dizer é que, para onde o Pepa for, que leve o Stephen. Conseguiu potenciar bastante o meu irmão. Um grande é sempre um grande. Ele é profissional de futebol, e eu também pensava da mesma forma. Damos o máximo pelos clubes que representamos», reitera.

Stephen ao serviço do Paços de Ferreira

O último encontro com o Benfica foi infeliz para Stephen, por força da expulsão após entrada dura sobre Julian Weigl. Jorge Jesus acusou Eustáquio de entrar com intenção de magoar o adversário e sugeriu ao Paços de Ferreira que multasse o médio, defendido publicamente por Pepa e pelo clube. Mais tarde o treinador do Benfica veio dizer que tinha mudado a opinião sobre o lance.

«Quem conhece o Stephen sabe que nunca podia pensar em magoar um adversário. Tentou ganhar a bola mas chegou tarde. O Weigl nem pediu assistência. Esperemos que não aconteça de novo, mas é normal no futebol», defende Mauro, que desvaloriza as declarações de Jesus.

«Não perdemos muito tempo a falar disso. Foram umas afirmações que recebemos um bocado surpreendidos, mas fica para quem as disse. Não perdemos sono com isso. O Stephen tem um suporte familiar muito bom, e uma personalidade forte para lidar com estas situações. São coisas que acontecem», acrescenta o irmão do jogador do Paços.

Agora os irmãos Eustáquio voltam a estar separados por um oceano, mas Mauro continuará próximo do Stephen. Um conselheiro para o que aí vem.

«Eu sou sempre o primeiro telefonema. Damos muito na cabeça um ao outro, mas acima de tudo damos força. Quando recebi esta proposta para vir treinar para o Canadá falei logo com ele, e ele disse-me: “Mauro, já não vais chegar ao Benfica”. E por mais que isto custe ouvir, é a realidade. Ele tem muita maturidade. Tive horas e horas de conversa com ele sobre esta decisão, e achámos bem eu arriscar. Contei com o apoio dele, e ele conta com o meu. Como se costuma dizer aqui: “I have his back” (ndr. eu protejo-lhe as costas)»

Nuno Travassos