"Conto direto" é a nova rubrica do Maisfutebol, que dá voz a protagonistas dos escalões inferiores do futebol português. As vivências, os sonhos e as rotinas, contados na primeira pessoa.

Everton, 37 anos, avançado do Pedras Rubras


«Antes do treino dei um passeio os cães e levei os meus filhos à escola. Tivemos jogo ontem - perdemos 2-1 e fiz a assistência para o golo -, por isso quem jogou fez um treino mais leve. Começámos às 10 horas, fizemos uns passes e um jogo de futvólei... Depois fizemos banhos de gelo e de água quente. Fiquei despachado por volta do meio-dia.

Regressei a casa para almoçar com a minha esposa e de seguida fomos ao ginásio. Voltei para tomar banho e entretanto era hora de ir buscar os filhos à escola. Ainda tive de voltar a passear os cães antes de levar os miúdos ao futebol. É a rotina de um pai (risos).

Tenho três filhos: um tem 12 anos, o outro nove e o mais novo tem sete. Os dois mais velhos jogam no Castêlo da Maia, o mais novo ainda não joga, o futebol não é a cara dele. Gosta mais de cantar e de dançar, é mais artístico.
 

Everton jogou futsal antes de dar os primeiros passos no futebol.

Nem sempre joguei futebol. Primeiro joguei futsal durante muito tempo. Tornei-me profissional no Goianiense e entretanto fui para o Barueri, que foi onde tudo realmente começou. Fui campeão e subi à série A3 do Campeonato Paulista. No ano seguinte fui o maior artilheiro da prova.

Depois desses desempenhos, recebi propostas de Portugal, da Coreia do Sul, do Kuwait e da Holanda. O meu empresário nunca me disse quais eram os clubes portugueses que me queriam, só me deu a escolher entre os vários países. Portugal e Holanda eram as prioridades, porque tinha ambição de jogar na Europa.

Só me disse para que clube ia no dia do meu casamento. Foi uma espécie de presente.

Porém, como os meus ídolos, o Ronaldo e o Romário, tinham jogado na Holanda antes de saírem para a equipas de maior expressão, e por isso acabei por optar pelo Heracles.

Correu melhor do que esperava. Sou um ícone e o melhor marcador da história do clube na primeira divisão. Quando vou à Holanda, sou abordado por alguns pilotos de aviões que me pedem fotografias. À saída do aeroporto, os polícias perguntam-me quando volto. Foi a melhor escolha que fiz, sem dúvida.

Joguei dois anos com o Bas Dost, no Heracles. Foram as melhores épocas do clube, chegámos a conseguir a qualificação para os play-offs da Liga Europa, mas perdemos na final com o Groningen. Ainda assim, foi um ano incrível e no qual marquei mais golos. Acabei com um golo a mais que o Bas Dost. Ele era incrivelmente inteligente e eu jogava à volta dele. Ele deixava espaço para mim e eu para ele. Fizemos uma grande dupla.

Quando o Bas Dost saiu da Holanda, mudou de número e perdi o contacto com ele. Tentei arranjar o número dele quando ele jogava no Sporting, mas ninguém sabia como chegar a ele. Nunca mais falámos.

Everton fez dupla com Bas Dost no Heracles. 

Naturalmente, surgiu o interesse de alguns clubes maiores, como a Real Sociedad e um clube da Grécia, o Panathinaikos ou o Olympiakos, já não me lembro. Mas só soube desses interesses quando o mercado tinha fechado. O presidente do Heracles não me queria perder e por isso não me libertou. Além disso, o meu contrato com o clube era longo.

Acabei apenas por sair quando já tinha 30 anos e queria respirar novos ares, conhecer uma nova cultura. Fui para a Arábia, de onde recebi uma proposta do Al Nassr: um clube com uma grandeza fora do normal e com adeptos incríveis. Financeiramente não tinha como recusar.

Ainda joguei no Shanghai Shenxin. A China é um lugar de excelência com uma cultura incrível. Vivi lá um ano e meio e fiz muitas amizades que ainda hoje mantenho.

Voltei para o Brasil, joguei no Guarani, Taubaté e até subi à série B. Ainda tive propostas de clubes da Série C e D, mas não queria ficar no Brasil. O meu desejo era regressar à Europa.

Tive oportunidade de ir para o Cinfães. O clube abriu-me as portas e deu-me todo o apoio que precisava para trazer a minha família e morar em Portugal. Fiz uma boa temporada a nível pessoal, mas o clube não teve êxito. Como fiz bastantes golos, o Paredes quis contratar-me. No entanto, o campeonato acabou mais cedo por causa da pandemia.

Moro no Câstelo da Maia e reuni-me com o presidente do Pedras Rubras, um clube com uma estrutura fora do normal para o Campeonato do Portugal. Fizeram-me uma proposta muito boa e assinei.

Para mim foi ótimo: estou perto de casa, num clube com história e numa equipa que tem um misto de jogadores experientes como o Rui Sacramento ou o Rui Lima, e outros mais jovens.

Continuo a jogar por paixão, pelo gosto de entrar em campo. Ainda quero sentir aquela adrenalina, sabe? Quero continuar a fazer o que amo. Encontrei um clube que me dá todo o apoio e que me deixa à vontade. Tanto eu como a minha família estamos felizes. Podia estar a jogar num outro sítio ou a ganhar mais dinheiro, mas não é o que penso.

Portugal é a minha nova casa.»
 

Everton num encontro frente ao Feyenoord. O brasileiro é o melhor marcador do Heracles na primeira divisão holandesa.
Vítor Maia