Paredes, Fabril e Sacavenense preparam os respetivos duelos contra os ‘três grandes’ na Taça de Portugal. Ao longo da semana, os protagonistas da prova rainha escrevem na primeira pessoa no Maisfutebol. Como são estes dias para atletas semi-profissionais e para plantéis que andam longe do foco mediático? A essência da Taça de Portugal nas palavras dos candidatos a heróis.

CARLOS SAAVEDRA: 39 anos, médio do Sport Grupo Sacavenense

. 18 de novembro de 2020, a cinco dias do Sacavenense-Sporting

«Esta manhã tivemos mais um treino para preparar o jogo com o Sporting, mas eu tenho feito trabalho específico, devido a uma dor no adutor que senti no jogo com o Loures. Não é nada de especial, esta quinta-feira já devo treinar, e ainda faltam alguns dias para o jogo.

Eu trabalho da uma às cinco da manhã, tal como o Iaquinta [colega de equipa], que trabalha comigo. Chego a casa às seis, durmo uma hora e pouco, depois levo o meu filho à escola e vou para o treino. Chego a casa às 13h30/14h, e depois às 15h vou buscar o meu puto à escola. Às vezes ele deixa-me dormir um bocado, outras só depois de jantar, entre as 20h e as 23h30, mais ou menos. No início custava mais, mas claro que é complicado. Eu devo ter quatro horas de sono por dia. Ao fim da semana dá dois ou três dias de sono a menos que os meus colegas. Alguns dormem toda a noite e depois ainda conseguem descansar de tarde, pois apenas jogam. Claro que há dias em que me sinto cansado, mas quem corre por gosto não cansa.

Desde março que sou encarregado numa empresa de limpezas, trabalho nas linhas vermelha e verde do metro de Lisboa. Foi um trabalho que surgiu através do Hugo Cardoso, que foi meu colega no Sacavenense [agora guarda-redes do 1.º de Dezembro]. Quando chego vou buscar as folhas, dou a entrada do pessoal, depois se falta alguém tenho de ir levar o substituto a essa estação, levar material. É muita gente e temos 24 estações na minha zona.

Durante quase toda a carreira fui profissional. Aqui há uns anos um amigo que tem uma agência imobiliária "chateou-me" para eu ir para lá. Estive um ano e tal a trabalhar lá, e de certa forma ainda continuo, mas com este horário agora é difícil. Em março, quando a pandemia parou o futebol, tive de arranjar outra coisa, até porque o mercado imobiliário também parou um bocado. Precisava de algo mais certo e surgiu isto.

Vou trabalhar na madrugada de domingo para segunda, o dia do jogo com o Sporting. Vou sair às cinco da manhã. Depois vamos ter um treino e seguimos para um hotel, onde vamos descansar até ao jogo. É aí que vou dormir duas ou três horas. Na madrugada de segunda para terça-feira é que não vou trabalhar, para descansar. E assim até fico prevenido se o jogo for a prolongamento ou isso. Nunca se sabe, temos de estar preparados para tudo.

Comecei por jogar no Agualva, mas depois ainda estive nos infantis do Benfica. Joguei com o Jorge Ribeiro e o Bruno Aguiar, por exemplo. Na altura o Benfica olhava mais para o físico, e eu não era muito grande. Se calhar foi um pouco por aí, mas costumo dizer que não perdi nada, fiz o meu trajeto. A verdade é que, daquela equipa, não houve muitos jogadores a chegar a patamares altos, tirando aqueles que referi. Nem propriamente à II Liga.

Saavedra no Benfica: é o jogador que está com a bola, numa equipa que tinha também Bruno Aguiar [foto do arquivo pessoal]

Depois passei pelo Estrela da Amadora, onde fui treinado pelo mister Miguel Quaresma [antigo adjunto de Jorge Jesus]. Cheguei a estar uns meses sem jogar por causa de um murro num vidro que dei em casa. Quase dava cabo do tendão. Na altura também não era fácil ir ali para os treinos de comboio, muitas vezes a malta era assaltada.

Acabei por voltar para o Agualva, mas depois fui para o Estoril, onde subi a sénior. Fui lançado pelo mister Pedro António, que estava a fazer a transição. Na altura tinha o cabelo muito comprido, quase até ao rabo, e o mister disse-me que eu tinha de cortar o cabelo se fizesse a estreia. Joguei o primeiro jogo em Loulé, salvo erro, e no treino seguinte apareci com o cabelo igual. O mister proibiu-me de treinar e enviou-me para casa. No dia seguinte a mesma coisa, até que ao terceiro dia cortaram-me o cabelo no balneário. Tive de ir para a escola de chapéu. Essa equipa tinha jogadores experientes como o Baroti, Paulo Sérgio, Martins, Nélson Veiga… Se fosse em dia o miúdo ia queixar-se aos pais e dava uma confusão.

Saavedra no Estoril: é o segundo na fila de cima, a contar da direita [foto do arquivo pessoal]

No Estoril fui treinado também pelo José Rachão, José Morais e Ulisses Morais. Depois entrou aquela direção do Manuel Damásio, José Veiga, António Figueiredo e o investimento foi diferente. Tive poucas hipóteses de jogar. Sai para o Sintrense mas estive seis meses parado depois de uma operação ao joelho.

Seguiu-se o Barreirense, um dos clubes onde gostei mais de jogar. No primeiro ano tínhamos uma equipa muito boa, treinada pelo Daúto Faquirá, e subimos à II Liga. Foi um ano incrível, sempre com muitos adeptos nas bancadas, tanto em casa como fora.

Saavedra no ano da subida do Barreirense: é o primeiro da fila de baixo, a contar da esquerda [foto do arquivo pessoal]

No segundo ano, já na II Liga, o treinador era o Rui Bento. Depois fui para o Estrela da Amadora, levado pelo Daúto Faquirá. Era a oportunidade de chegar à I Liga, mas o clube já tinha muitos problemas. Acho que nem cheguei a jogar na pré-época, fiz apenas alguns treinos e fui logo emprestado ao Trofense, que tinha uma equipa experiente, com Idalécio, Mozer e Costa. Em 2007/08 estive no Odivelas, onde fui colega do Sílvio [V. Guimarães].

No espaço de um ano passei da Liga para o terceiro escalão. Comecei a pensar que dificilmente ia subir outra vez e acabei por ir para Chipre, onde estavam quatro ou cinco antigos colegas do Barreirense. No DOXA eram onze portugueses e dois brasileiros.

Saavedra ao serviço do DOXA [foto do arquivo pessoal]

Estive lá cinco anos, gostei muito, é um país espetacular para viver. Mas se as coisas correm mal… Há clubes que vivem muito do jogo ilegal, que fazem pressão, até mais nos cipriotas do que nos estrangeiros.

Acho que nunca recebi um mês por inteiro no futebol cipriota. A política deles é arrastar até ao fim e depois conseguir negociar. Tive um episódio em que o presidente foi ao balneário e disse que ia tudo despachado para Portugal, colegas ameaçados com pistolas, presidentes a chegar ao treino com sete ou oito seguranças, com pistolas, num Hummer.

Em 2013 havia problemas em Chipre e recebi uma chamada de um antigo colega para ir para a Grécia. Aqueles seis meses no Glyfada davam para escrever um livro. Viajei sem saber nada do clube, não estava ninguém à minha espera, e o taxista nem conhecia o clube. Quando cheguei os números que tinham sido falados não eram os mesmos, disse que me ia embora mas lá chegámos a acordo. Nem me chegaram a pagar o bilhete do avião para lá. Chegávamos ao hotel e não nos deixavam entrar porque o clube tinha falhado o pagamento, mudávamos para outro e alguns tempos depois a cena repetia-se. Uma vez chegámos ao jogo dez minutos antes do apito inicial, tivemos de saltar muros para treinar, e por vezes treinávamos a uma hora e meia de distância e tínhamos de ir de táxi ou comboio às nossas custas. No meio de tudo isto não recebíamos o ordenado. Meti aquilo em tribunal e fui-me embora.

Depois, em janeiro, assinei por um clube da terceira divisão grega, o Ermionidas, e até subimos. Pagaram tudo certinho, mas eu fui para lá em janeiro com um nigeriano, o Patrick Ogunsoto, e como não havia contrato até pedimos para receber o dinheiro na mão. Ao fim de dois ou três jogos o presidente queria o dinheiro de volta, mas o jogador não devolvia, e um dia o presidente entrou em campo, durante o treino, e deu-lhe um chapadão. No dia a seguir o Patrick fez queixa na polícia e desapareceu com os 20 mil euros que tinha recebido.

O clube que me marcou mais foi o Sacavenense. É um clube diferente, e não digo por estar lá agora. Todos os jogadores que saem de Sacavém querem voltar e sentem-se bem, pois é um ambiente familiar que não se vê em mais lado nenhum. As pessoas são boas, genuínas, não arranjam problemas. Não pagam mais porque não podem. Foi onde mais gostei de jogar.

Esta é a primeira vez que defronto um grande, embora já tenha defrontado equipas do principal escalão na Taça. É um jogo para desfrutar. Não sei se vai ser o meu último ano a jogar, mas vai ser para desfrutar, para honrar o clube também. Não nos podem nada, a não ser dar o melhor. Quem é que não quer jogar com um grande?! Com público e em Sacavém era muito melhor, mas temos a oportunidade de jogar no Jamor. Nunca joguei lá, é uma oportunidade única de jogar num palco mítico. Foi a melhor opção, a partir do momento em que não podia ser em Sacavém. Temos de mostrar o nosso valor, mas é coletivamente e não individualmente. O coletivo vai fazer sobressair o individual.

Se pedir a camisola a alguém seria ao João Mário ou ao Nuno Mendes. Um é um grande jogador, ainda para mais que joga na minha posição, e o outro é um fora de série que vai dar muito dinheiro ao Sporting.»

Saavedra ao serviço do Sacavenense [foto cedida gentilmente pelo clube]
Nuno Travassos