Salvador Sobral, que venceu o festival da Eurovisão, um feito inédito para Portugal, apelou à mudança.

Vivemos num mundo de música descartável, de música ‘fast-food’ sem qualquer conteúdo. Isto pode ser uma vitória da música, das pessoas que fazem música que de facto significa alguma coisa. A música não é fogo-de-artifício, é sentimento. Vamos tentar mudar isto. É altura de trazer a música de volta, que é o que verdadeiramente interessa.”

O cantor português falava depois de ter sido anunciada a sua vitória no festival da Eurovisão, e antes de interpretar novamente, desta feita acompanhado pela irmã, Luísa Sobral, autora da música e letra da canção "Amar pelos Dois".

O importante é continuar a fazer música, mas sinto que é um bom passo que as pessoas tenham gostado desta música, que tem tanto conteúdo, emocional, lírico, melódico, acho que isto pode ajudar de alguma maneira, se calhar até nos anos próximos a Europa trazer músicas com um bocadinho mais de significado a todos os níveis.”

Questionado sobre se esta vitória significa a entrada do cantor na história, Sobral disse não querer pensar nisso, recordando a digressão que tem agendada para os próximos meses, com concertos a partir do próximo sábado em Marco de Canavezes, seguindo-se o Cartaxo (26 de maio) e Ovar (27 de maio), antes de prosseguir a 10 de junho em Ílhavo com datas que continuam até agosto.

A minha irmã tem um talento incrível, nunca duvidei e agora toda a Europa pode ver que qualquer canção que ela faça a Europa fica tocada”, disse ainda Salvador Sobral num elogio à irmã.

“Amar pelos Dois” obteve 758 pontos na votação combinada dos júris nacionais e do público, na final do festival disputada por 26 países, em Kiev, na Ucrânia.

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Mais tarde, na conferência de imprensa que se seguiu, Salvador Sobral disse que seria estranho pensar em si próprio como um herói nacional, até porque esse herói é Cristiano Ronaldo.

Só quero viver uma vida sossegada. Espero que isso possa acontecer, tenho a certeza que sim. Talvez no princípio seja um pouco agitado. Se pensasse em mim como um herói nacional seria um pouco estranho.”

Face a uma pergunta sobre o apelo que fez de apoio aos refugiados na conferência de imprensa que se seguiu à primeira meia-final, Salvador Sobral disse não pretender acrescentar nada ao que já havia afirmado, mas realçou que transmitiu uma mensagem sobre os refugiados por acreditar ser o maior problema com que a Europa se confronta atualmente, sem querer ser político.

Recebemos um e-mail da organização a dizer que não podia continuar a usar aquela camisola [que dizia 'SOS Refugiados']”, explicou Salvador Sobral, por não serem permitidas mensagens políticas ou comerciais: “Pensei que era estranho. E se vestir uma camisola da Adidas, é uma mensagem comercial? Era apenas humanitária. Já disse tudo o que tinha a dizer, não penso que deva apertar o mesmo botão outra vez..

Sobral, que disse nunca ter escrito uma canção com o propósito de passar na rádio, frisou que a sua vida não vai mudar em nada e que vai prosseguir com a digressão prevista para este verão.

Nunca quis saber dos votos, só quis cantar uma canção bonita como ela é."

Por seu lado, Luísa Sobral, irmã do cantor, disse acreditar que a principal razão para a canção portuguesa ter sido a escolhida talvez se prenda com a sua "simplicidade".

Durante a conferência de imprensa, o supervisor executivo da União Europeia de Radiodifusão, Jon Ola Sand, enalteceu o trabalho da organização local em Kiev e disse que a preparação para 2018, em Portugal, começa “já na segunda-feira”.

As felicitações: de Marcelo ao Benfica

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, felicitou hoje Salvador Sobral pela vitória no Festival da Eurovisão da Canção, disse à Lusa fonte da Presidência.

"Quando somos muito bons, somos os melhores dos melhores. Muitos parabéns ao Salvador Sobral", foi a mensagem enviada ao intérprete português.

Também o primeiro-ministro felicitou Salvador Sobral, considerando que se fez história em português.

Do mundo desportivo chegaram mais felicitações.

“É histórico, Salvador Sobral! 10 meses depois, um novo 11 conquista a Europa! Parabéns, Salvador”, lê-se numa mensagem no Twitter da FPF, que compara a conquista do Euro2016 de futebol em julho de 2016 ao triunfo do cantor, que foi o décimo primeiro a atuar na final.

Também o Benfica, que no sábado conquistou o 36.º título de futebol, quarto consecutivo, felicitou Salvador Sobral, que é adepto do clube.

“E não somos os únicos vencedores da noite...! Parabéns, Salvador Sobral, vencedor da Eurovisão”, escreveram os encarnados na mesma rede social.

Os elogios do mundo da música

A cantora Simone de Oliveira deu os parabéns a Salvador Sobral, afirmando estar "numa felicidade" como se a vitória também fosse sua.

"Estou felicíssima, estou contentíssima por Portugal, pela música ligeira portuguesa. A ver se as pessoas passam a perceber que é preciso haver melodia e que é preciso haver palavras, e que é preciso haver sensibilidade, é preciso cantar bem", afirmou a cantora em declarações à agência Lusa, após a vitória de Salvador Sobral.

"Estou numa felicidade que não há explicação. Até parece que fui eu, pronto", acrescentou a cantora que em 1969 representou Portugal no Festival da Eurovisão, em Madrid, com o tema "Desfolhada Portuguesa", no qual ficou em último lugar, sem votos.

Simone aproveitou também para deixar "um grande abraço ao Salvador, e à irmã e à música ligeira portuguesa".

"Aleluia, aleuia, aleluia, que Portugal, com a nossa língua, venceu lá fora", vincou.

Considerando que a prestação de Salvador Sobral foi "uma beleza", a cantora observou que "foi espantoso que tantos países deram a pontuação máxima a Portugal".

"Eu acho que é assim uma coisa extraordinária, brilhante", adiantou, afirmando que "sempre disse que era possível", mas com um "ponto de interrogação".

Isto, "porque a gente nunca sabe o que é que as pessoas depois na última hora decidem, ou julgam", explicou.

Quanto à realização da próxima edição do Festival Eurovisão da Canção em Portugal, Simone de Oliveira brincou com a situação. 

"Agora quero ver para o ano como é que saímos desta embrulhada. A partir de hoje é que vão ser elas, é capaz de ser na Praça do Comércio."

Igualmente o músico Paulo de Carvalho congratulou-se com a vitória de Salvador Sobral, assinalando que ganhou a "música séria, bem feita, feita com amor", que "faz muito sentido ser ouvida".

Em declarações à Lusa, o cantor e compositor português manifestou-se "feliz pela música portuguesa" e por Salvador Sobral, "um excelente músico".

Segundo Paulo de Carvalho, "faz muito sentido esta música ser ouvida", uma música "séria, bem feita, feita com amor", que "escapa a quem faz o negócio" discográfico.

Paulo de Carvalho foi ao Eurovisão em 1974, com "E depois do adeus", que serviu de senha para a Revolução do 25 de Abril, tendo ficado em último lugar 'ex-aequo' com os intérpretes da Noruega, Alemanha e da Suíça.

O compositor e músico dos Deolinda Pedro Silva Martins considerou que Salvador Sobral teve uma “interpretação arrebatadora” na Eurovisão, da qual saiu vencedora “a canção, não o festival”.

“Foi uma final muito sofrida e fiquei feliz. Ganhou a canção, e não o festival. Era importante que isso acontecesse”, disse à Lusa Pedro Silva Martins, que adiantou que passou o dia “um pouco nervoso com esta final” por ser amigo da autora da canção, Luísa Sobral, e conhecer Salvador.

“É importante voltar ao essencial, e o essencial é a música”, disse o compositor que este ano também participou no Festival da Canção da RTP, compondo a música “Eu nunca me fui embora”, interpretada por Lena D’Água.

Pedro Silva Martins revê-se no “recado” deixado por Salvador Sobral no palco da Eurovisão, depois de ter sido anunciada a sua vitória, ao criticar o mundo de “música descartável” em que vivemos, e afirmando que “a música não é fogo-de-artifício, é sentimento”.

“O Salvador veio baralhar as ideias feitas do que é uma canção ideal para o festival. Acho que às vezes perde-se o essencial com tanto aparato. O Salvador traduz o que penso em relação à música”, disse Pedro Silva Martins, que destacou “a simplicidade de fazer arrepiar com uma canção”.

O compositor revelou que uma das sensações que tinha ao participar no Festival da Canção “era a de que as pessoas em Portugal estão pouco abertas à novidade”.

“O Salvador veio mudar isso. Esta vitória é uma mudança”, defendeu.

Pedro Silva Martins disse que “o país está de parabéns”, que esta é “uma vitória de um esforço conjunto” e que “a música portuguesa já merecia esta distinção”, referindo que a vitória de Salvador Sobral dá continuidade a uma visibilidade internacional que nomes como António Zambujo, Ana Moura, ou os próprios Deolinda têm conquistado nos últimos anos.

“Penso que vão olhar para a música que se faz em Portugal de outra forma”, disse o compositor que se identifica com o posicionamento de Salvador Sobral em relação à música.