O antigo primeiro-ministro Pedro Santana Lopes destacou esta sexta-feira o relacionamento sempre “cordial” que manteve com Jorge Sampaio, apesar da “enorme divergência” registada quando o antigo chefe de Estado dissolveu o parlamento na altura em que liderava o Governo.

Para lá da grande, da enorme divergência que tivemos em 2004 tivemos sempre um relacionamento cordial e, da minha parte, de muito respeito e consideração”, afirmou Santana Lopes, em declarações à Lusa, no dia da morte de Jorge Sampaio.

Depois de Durão Barroso deixar as funções de primeiro-ministro para presidir à Comissão Europeia, Jorge Sampaio considerou, em julho de 2004, que a maioria PSD/CDS-PP tinha condições para assegurar a "estabilidade política", sustentando que a demissão do primeiro-ministro não implicaria eleições antecipadas.

O antigo chefe de Estado deu então posse a um Governo liderado por Pedro Santana Lopes, mas quatro meses e muitas divergências depois acabaria por dissolver a Assembleia da República.

Na hora em que as pessoas partem, gosto de guardar os bons momentos. Tivermos essa enorme divergência, mas existem todas as razões para ter muito respeito e consideração pela figura de Jorge Sampaio”, considerou Santana Lopes.

O antigo primeiro-ministro e candidato independente à Câmara da Figueira da Foz disse estar “muito triste com a sua partida” e apresentou condolências a toda a família.

É um dia muito triste para Portugal”, afirmou.

Santana recordou que as suas relações com Jorge Sampaio começaram na década de 80, quando o antigo líder do PSD tinha “25 ou 26 anos”, e eram ambos deputados à Assembleia da República”.

Tínhamos os dois ideias comuns sobre alguns aspetos da revisão constitucional, estávamos até na mesma fila muitas vezes”, recordou.

Depois, quando Santana foi secretário de Estado da Cultura, Jorge Sampaio era presidente da Câmara de Lisboa e trabalharam juntos na organização da Capital Europeia da Cultura, em 1994.

Eu nomeei Marcelo Rebelo de Sousa como comissário e Sampaio nomeou o Nuno Brederode dos Santos. Aí tivemos uma pequena divergência, mas chegámos a uma solução comum: nomeámos Vítor Constâncio como presidente da sociedade que organizar a capital da cultura”, lembrou.

Já muito depois da divergência de 2004, quando Santana Lopes era provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, recebeu um pedido de Jorge Sampaio para apoio ao seu projeto com os refugiados sírios, que se concretizou na assinatura de acordos.

Partilhávamos a mesma cor clubística, falávamos muito disso, até no final das audiências semanais como primeiro-ministro e Presidente da República”, referiu ainda Pedro Santana Lopes, dizendo que, nos anos mais recentes, encontrava por vezes Jorge Sampaio em restaurantes próximos da praia da Luz, onde passava férias.

Sempre tive uma relação cordial com ele e não consegui deixar de ter”, enfatizou.

O antigo Presidente da República Jorge Sampaio morreu esta sexta-feira aos 81 anos, no hospital de Santa Cruz, em Lisboa.

Antes do 25 de Abril de 1974, foi um dos protagonistas da crise académica do princípio dos anos 60, que gerou um longo e generalizado movimento de contestação estudantil ao Estado Novo, tendo, como advogado, defendido presos políticos durante a ditadura.

Jorge Sampaio foi secretário-geral do PS (1989-1992), presidente da Câmara Municipal de Lisboa (1990-1995) e Presidente da República (1996 e 2006).

Após a passagem pela Presidência da República, foi nomeado em 2006 pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas enviado especial para a Luta contra a Tuberculose e, entre 2007 e 2013, foi alto representante da ONU para a Aliança das Civilizações.

Atualmente presidia à Plataforma Global para os Estudantes Sírios, fundada por si em 2013 com o objetivo de contribuir para dar resposta à emergência académica que o conflito na Síria criara, deixando milhares de jovens sem acesso à educação.

/ NM