Maria Negrão é uma jovem de 15 anos normalíssima com um pormenor pouco habitual: guiada pelos sonhos, gosta de jogar futebol, mas fá-lo de uma maneira pouco comum – entre os rapazes.

A juntar a tudo isto – que já não é pouco –, Maria prepara-se para embarcar na viagem mais importante da sua ainda curta carreira, já que é uma das 20 convocadas do Selecionador Nacional de sub-17, José Paisana, para o Europeu feminino da categoria, que se realiza na Bulgária de 5 a 17 de maio.

A poucos dias de começar o Euro, Maria, em conversa com o Maisfutebol, explica como é jogar com rapazes, sob o olhar preconceituoso de algumas pessoas, e fala do sonho de levar as Quinas ao peito numa competição tão importante como o Campeonato da Europa.

«As mulheres acabam por ser as primeiras a serem preconceituosas»

Mas primeiro, a explicação: como é que surge o futebol?

«Comecei a jogar futebol com os meus irmãos, no jardim. Depois fui para o meu primeiro clube em 2008, quando o Boavista e o AC Milan tinham uma parceria», começa por contar.

Atualmente a representar os juvenis do SC Porto, conjunto que disputa a Série 2 da 2.ª Divisão da AF Porto, Maria admite que tornar-se futebolista profissional é um dos grandes objetivos que tem na vida e conta como é o dia a dia no meio dos rapazes.

«O meu treinador aposta em mim da mesma forma, todos me tratam de igual forma e têm bastante intensidade. Não discriminam, já passei por clubes onde isso acontecia, mas agora não, e o treinador é de confiança», defende.

Se na sua equipa a jovem não tem qualquer tipo de problemas, o caso muda de figura quando se trata de adversários, principalmente nas bancadas.

«Se sinto preconceito? Sim, claro, há sempre um grande preconceito. As mães dos filhos, por exemplo, quando eu passo por eles, claro que levo uma boca. As mulheres acabam por ser as primeiras a serem preconceituosas», revela.

E isso afeta? «Eu encaro o jogo da mesma forma e tenho é de pensar que tenho de estar concentrada no jogo, não ligo a esses comentários» diz Maria, visivelmente determinada.

O facto de ser mulher obriga a avançada a adaptar-se à vida de balneário, mas nada consegue prejudicar a sua integração na equipa: «O grupo não deixa que isso aconteça, somos bastante unidos, o treinador também não deixa que isso aconteça. Estamos lá é para desfrutar do jogo, não queremos saber se se trata de uma rapariga ou de um rapaz.»

Maria Negrão (com a bola) esteve na Cidade do Futebol a preparar o Europeu de sub-17 (Fonte: Federação Portuguesa de Futebol)

«Com os rapazes consigo evoluir mais»

Já com um currículo de respeito, a internacional sub-17 admite que já teve propostas para integrar equipas femininas, mas explica porque ainda não aceitou nenhuma.

«Não faz parte dos meus objetivos por enquanto, acho que com os rapazes consigo evoluir mais, eles dão outras coisas que as raparigas não dão, têm outros pontos de vista», justifica.

E que pontos são esses? «Têm mais intensidade, mais velocidade, mais força, características onde as mulheres ainda estão a crescer. Acho que ainda tenho tempo para ingressar numa equipa feminina. Ainda tenho mais um ano para desfrutar de estar com os rapazes.»

Conhecedora das duas realidades, a jogadora de apenas 15 anos traça as principais diferenças entre raparigas e rapazes.

«As mulheres conseguem ir pela inteligência, são mais inteligentes do que eles a jogar, e eles, como não são tão inteligentes, usam mais a força, a característica onde têm mais poder. Cada um tem as suas características e cada um cria as suas dificuldades», frisa.

Dona e senhora do seu destino, Maria não esconde que tem um sonho maior no futebol: «Jogar no Lyon, é a melhor equipa do mundo, é um sonho, mas é preciso trabalhar muito e ter os pés bem assentes na terra.»

O sonho Europeu

Outrora um sonho e agora uma realidade, Maria vai disputar o Europeu de sub-17 pela Seleção Nacional, o segundo da história da equipa das Quinas, depois de 2014. As meninas comandadas por José Paisana integram o grupo A da prova, juntamente com Bulgária, França e Dinamarca e a jogadora do SC Porto revela quais as expectativas para o Euro.

«Vamos tentar crescer como jogadoras, tentar jogar o nosso futebol, impor o nosso futebol, sermos humildes como fomos até agora... pensar jogo a jogo, primeiro a Bulgária e depois no que vem a seguir, mas estamos focadas no primeiro jogo», diz.

«É um momento muito marcante, se calhar o mais alto de todos... é um sonho representar Portugal desta forma e sem dúvida vai ser o maior momento até agora da minha curta carreira», afirma, claramente orgulhosa.

Pouco habituada a estas andanças, a Seleção de sub-17 não protagonizou um Europeu propriamente brilhante em 2014, já que foi eliminada na fase de grupos, com um empate e duas derrotas.

Ainda assim, garante Maria, isso não atormenta a geração de 2019: «Estamos mais preocupadas connosco neste momento, não estamos preocupadas com que passou, é passado, vamos viver o presente, tentar dar o nosso máximo jogo a jogo e demonstrar dentro de campo o que valemos.»

Fonte: Federação Portuguesa de Futebol

«Estas são as melhores da Europa e claro que nos vão fazer evoluir»

O primeiro jogo de Portugal será frente à Bulgária, a anfitriã da prova, mas para a jovem avançada isso não acrescenta pressão às comandadas de José Paisana, até porque, mesmo que os resultados não sejam favoráveis, a Seleção já fica a ganhar.

«Ficamos sempre a ganhar do ponto de vista do crescimento como jogadoras, aí estamos sempre a ganhar. Estas são as melhores [seleções] da Europa e claro que nos vão fazer evoluir, disso não tenho dúvidas. E como eu disse, o nosso objetivo é jogo a jogo.»

Por falar em crescimento, o do futebol feminino tem sido evidente. Maria atribui responsabilidades à maior aposta da Federação e dos clubes, mas não só: realça o bom desempenho que a equipa A das Quinas tem tido nos tempos mais recentes.

«É um grande orgulho ver a Seleção Nacional sénior, é um grande orgulho para Portugal estarmos a crescer e a atingir patamares que muitas pessoas duvidavam que pudéssemos atingir», atira.

Com 15 anos e uns pozinhos, Maria é a mais nova da equipa orientada por José Paisana, a “caçula”. A jovem garante que é tratada de igual forma pelas colegas, menos quando é para ir… ao meio.

«Se tenho algum tratamento diferente? Não, elas tratam-me como as outras, mas há sempre aquelas brincadeirinhas... no meiinho, por exemplo, são sempre as mais novas», confessa, bem-disposta.

Com apenas 15 anos, Maria, a caçula das sub-17, parte para a Bulgária em busca da glória europeia juntamente com as suas companheiras de aventura. Por cá, fim de semana após fim de semana continua a desconstruir preconceitos ao mesmo tempo que constrói sonhos. O futebol feminino também lhe agradece.

Nota: a fotografia da imagem de capa também foi cedida pela Federação Portuguesa de Futebol.

[artigo originalmente publicado às 23h53, 30-04-2019]

Rafael Vaz