Quanto sofrimento e, no final, quanta alegria.

Num duelo entre campeão da Europa e campeã do mundo, Portugal empatou com a França e marcou lugar nos oitavos-de-final em Sevilha, onde vai defrontar a Bélgica.

Este Europeu, porém, podia ter sido perdido em Munique, nunca em Budapeste.

Foi na Alemanha que Portugal baqueou ao segundo jogo e haveria de ser também lá que esta noite a Hungria haveria de ficar a seis minutos de protagonizar a maior surpresa deste Europeu.

A Alemanha alcançou no fim o 2-2 que Portugal e França fizeram em Budapeste. Merecidamente.

Por momentos, pensou-se que a maldição da noite de São João pairava também aqui em Budapeste: foi a 23 de junho de 1984 que a França eliminou Portugal do Euro, num jogo ainda mais épico do que este, com a espada de Platini a trespassar o coração lusitano (aos 119m, 3-2). Foi também na mesma data, em 1996, que Poborsky fez um chapéu para a posteridade e eliminou também a Seleção Nacional do Europeu.

Hoje, porém, a história foi outra. E, por falar em história, já lá vamos a Ronaldo.

Antes disso, há que falar sobre como esta noite, em Budapeste, Portugal mostrou carácter de campeão da Europa.

Depois da derrota da Alemanha, Fernando Santos resolveu um quebra-cabeças tão complicado como um Cubo de Rubik – um daqueles cubos mágicos criados pelo professor de Budapeste Erno Rubik para ajudar os seus alunos a resolver problemas tridimensionais.

Tal como havia avisado, Santos rodou peças e acertou colocando todas as faces da mesma cor.

O meio-campo português surgiu transfigurado com o pulmão de Renato e o cérebro de Moutinho nos lugares de Bruno Fernandes e William Carvalho. Portugal apresentou-se num 4-3-3, por vezes a derivar para um 4-1-4-1, e encaixou na perfeição no sistema francês. Deschamps mudou os laterais (Koundé e Hernández) e no meio-campo fez entrar Tolisso para o lugar de Rabiot.

Não se notou melhorias nos gauleses em relação à exibição apagada frente à Hungria. Antes pelo contrário. Portugal trocava a bola no meio-campo adversário, mostrava dinamismo a atacar e entreajuda a defender – algo que havia faltado na Alemanha.

A Seleção fez uma primeira parte cheia de personalidade, tratou por tu o campeão do mundo, sem salamaleques, foi mais agressivo e correu mais: mais um quilómetro ao intervalo (53,8 kms contra 52,7 kms), tendo também mais posse de bola (51%-49%), mais remates (7-4) e menos faltas cometidas (10-4).

Mereceria ir para o intervalo a vencer, com o penálti de Lloris sobre Danilo, que Ronaldo converteu. A primeira parte, porém, ficaria manchada no final por uma decisão pouco compreensível de Mateo Lahoz, que marca penálti num lance dividido à entrada da área entre Semedo e Mbappé.

Seis anos depois, Benzema voltou a fazer um golo pelos «Bleus» convertendo a única oportunidade francesa nos primeiros 45m.

Um a um, mas Portugal que até poderia perder por três não estava a salvo.

Isto porque em Munique se cumpria improvável cenário de a Hungria vencer a Alemanha. Aliás, nem era preciso confirmar. O golo de Szalai aos 11m foi tão festejado nas bancadas da Arena Puskás quanto os de Portugal e França.

Havia, portanto, um golo para segurar ou esperar que a Alemanha cumprisse a sua «obrigação».

Portugal eliminado... por 13 longos minutos

Não só os germânicos tardaram em cumprir a sua parte do acordo como Benzema havia tomado o gosto aos golos de azul vestido: aos 48m Pogba isolou-o e o avançado do Real Madrid colocou Portugal virtualmente fora do campeonato da Europa. 2-1. Que sofrimento…

Bom, aqui já não faz sentido falar de tática. A partir daqui, é mais coração do que cabeça. E sofrer, sofrer e sofrer.

Durante 13 longos minutos, Portugal esteve fora do Europeu.

Haveria de ser Ronaldo a juntar à braçadeira de capitão a capa de super-herói e a resgatar as esperanças lusas ao conquistar mais um penálti e a convertê-lo para a história: para a sua, ao igular o recorde mundial de Ali Daei (109 golos ao serviço das seleções) e para a da Seleção, que assim vai continuar a defesa do título, em Sevilha, frente à Bélgica.

Antes disso, Patrício foi milagreiro em noite de São João, ao salvar um golo cantado a remate de Rabiot, aos 68m.

Em Munique, a Hungria voltaria a surpreender ao responder com um golo à igualdade germânica, que voltaria a ser restabelecida aos 84m, evitando o maior escândalo deste Europeu, com a Alemanha a ficar a seis minutos de ser eliminada.

Quanto sofrimento…

O futebol tem destas coisas. Faz-nos arrepiar a pele de orgulho, faz-nos sorrir e chorar.

Faz-nos, como no romance de João de Melo, ser «gente feliz com lágrimas».

Sofremos, sorrimos e voltamos a sofrer. E no final suspiramos de alívio e respiramos fundo.

É uma estranha forma de ser feliz.

Sérgio Pires / Enviado especial do Maisfutebol ao Euro 2020