Foi ensaio, foi festa. Dois em um, num amontoado de prazeres de que nem o banco nem a bancada se queixam. No regresso, Oliveira só pode lamentar-se pela eficácia (ou falta dela), capítulo antigo, já com barbas, que carece de actualização. No restante, a exibição serviu os dois propósitos, deliciando o público e lançando a Selecção na direcção do Mundial. Uma goleada, ainda que entre amigos pontuais, tem sempre efeitos benéficos. Mesmo quando se adverte sobre os outros. 

Para começo de festa não ia mal. Prometia. A bancada, palpitante, tão perto dos heróis, ameaçava desfalecer a meio do delírio. Pela primeira vez não havia um ecrã a separá-los. João Pinto rendilhava, os adeptos gritavam; Sá Pinto acelerava, os adeptos aplaudiam. Figo nada precisava fazer, bastava-lhe estar por lá. Tocava na bola e era a histeria completa, mesmo quando os dribles não o levavam longe. 

Para teste, a experiência revelava-se mais delicada. A exibição esgotava-se num enlear repetido e inconsequente, barrado por uma trama de elasticidade levada às últimas consequências, que mantinha a estratégia lituana sob um denso disfarce, em que falsos médios e laterais dissimulados não tinham espaço nem tempo para se assumir e muito menos para respirar. 

Por mais uma razão, Portugal estava condenado a ganhar. Pelo cansaço, quanto mais não fosse. Mas Rui Costa não permitiu o enfado. Agarrou o jogo com os pés e rasgou espaços com mestria. A torto e a direito, em linha recta ou em ziguezague, deixava exalar desequilíbrios em cada gesto, em cada simulação feita de segundas intenções. 

Por fim, o adversário, renitente, caía. Apenas a meio do lance, confuso com o serpentear, mas prometendo tombar sem remédio mais tarde. Num mergulho, João Pinto deixava os lituanos estendidos, juntando o golo a uma longa série de ameaças, que seriam novamente cumpridas nos pés tranquilos e sábios de Figo. Mais uma delícia a juntar a um futebol que nunca fora arrepiante por natureza. 

Um lapso de Jorge Costa ou de Graziano ¿ não se chegou a perceber muito bem sobre a intencionalidade do jogador ou a convicção do árbitro ¿ relançou o jogo, que parecia ganho instantes antes do intervalo. Famenko, que se equivocava no ataque lituano, não se enganou na marca de grande penalidade, ao ponto de ter convencido Baía, que lhe negara o golo momentos antes, a escolher o lado errado. 

A mesma fórmula, na mesma marca, reporia meia verdade do jogo. Rui Costa, sempre no jeito de quem sabe da poda como ninguém, fez do penalty um arco ténue sem defesa. O que restava das diferenças viriam ao de cima com o auxílio do tempo, que parecia correr ao lado dos portugueses e de um deles em especial. Rui Costa assistiria ainda ao «parto» do quarto golo, arrancou-o pelas orelhas no quarto de círculo. Beto escolheu o tempo, subiu e acertou em cheio.  

Teimoso, Rui Costa, o tal dos lances difíceis, o mesmo que já estivera na génese do segundo golo, serviu o quinto com requinte, num passe longo que deixou Pauleta a sós com Padimanskas e com tempo de sobra para «torcer», «entortar» e escolher o lado. Preferiu o buraco da agulha e com sucesso. 

O êxito do ensaio, ameaçado pelo enfado e pela resistência de um adversário veloz mas sem brilho, que atenuou fraquezas preso num elástico que o soltava e recolocava na posição de origem no mesmo instante, estava garantido. Fora conseguido em pacientes ensaios de criatividade e especialmente amadurecido nos pés de um jogador muito especial, a quem a camisola 10 assenta sem lapso nem reparo. Um dito «italiano» de Florença, que improvisou espaço para ele e para os outros. 

FICHA DO JOGO 

Estádio Municipal do Fontelo, em Viseu

Árbitro: Cesari Graziano (Itália)

Auxiliares: Vito Albanese e Mássimo Biasutto

4º Árbitro: Isidoro Rodrigues (Portugal) 

PORTUGAL - Vítor Baía; Nélson, Fernando Couto, Jorge Costa, Dimas; Paulo Sousa, Vidigal, Rui Costa; Figo, Sá Pinto e João Pinto.

Jogaram ainda: Pedro Espinha, Beto, Rui Jorge, Simão, Pauleta, Secretário e Costinha.

Treinador: António Oliveira 

LITUÂNIA - Padimanskas; Juodeikis, Zutautas, Gleveckas, Zvirgzdauskas, Kancelskis; Semberas, Preiksaitis, Mikalajunas; Poskus e Fomenko.

Jogaram ainda: Vencevicius, Barevicius, Sorokinas e Radzius.

Treinador: Stasys Stankus 

Ao intervalo: 2-1

Marcadores: João Pinto (32m), Figo (37m), Rui Costa (54m, g.p.), Beto (81m) e Pauleta (85m); Fomenko (45m, g.p.)