De autogolo em autogolo até à goleada. A música não era bem assim, mas quem vos escreveu perdeu o guião em Munique assim como Portugal. 

O campeão da Europa silenciou o Allianz Arena aos 14 minutos. Após um início fortíssimo da Mannschaft, inclusive teve um golo anulado, a seleção portuguesa conseguiu marcar numa jogada de contra-ataque deliciosa: Bernardo conduziu e libertou na hora certa para Jota (que domínio de peito) e serviu Ronaldo que tinha iniciado a jogada na área nacional segundos antes.

 
Portugal estava, prematuramente, em posição vantajosa, mas nunca se sentiu confortável. Carlos Drummond de Andrade tinha razão.
 
Futebol se joga no estádio
Futebol se joga na praia
Futebol se joga na rua
Futebol se joga na alma

Os alemães tiveram mais alma, qualidade e inteligência. A jogada habitual germânica era fácil de identificar: sempre que os defesas ou os médios tinham a bola, lançavam a velocidade de Gosens (ala/lateral-esquerdo). Era fácil de interpretar, mas aparentemente difícil de resolver.
 
Com tanto espaço para atacar, definir, criar, enfim, fazer o que quiser, era difícil o lateral da Atalanta não brilhar. Gosens provocou o primeiro autogolo de Rúben Dias e iniciou a jogada que resultou em novo autogolo, desta feita de Guerreiro.
 
Os 15 minutos finais da primeira parte e os dez inicias da etapa complementar foram confrangedores. Foi como se a seleção se defendesse com escudos e espadas de madeira de um Panzer alemão. 
 
A nova vida que Portugal parecia ter conquistado esfumou-se aos 50 minutos. É difícil compreender como se comete o mesmo erro sistematicamente durante o mesmo jogo. O «show» de Gosens continua, pois claro, tamanho espaço que havia à esquerda. 
 
Foi por isso, com toda a naturalidade e simplicidade, que o defesa assistiu Havertz para o 3-1 e fez ele próprio o 4-1. De resto, o quarto golo da Mannshaft praticamente coincidiu com a entrada de Rafa, a segunda opção do selecionador nacional – seguiram-se Moutinho e mais tarde, André Silva. 
 
Portugal reequilibrou enquanto Low retirou Gosens para a ovação e poupou figuras como Kroos, Hummels e Gundogan. É justo reconhecer que foi o melhor período da equipa nacional que culminou com um golo de Diogo Jota - Renato ainda acertou no ferro à entrada para os minutos finais. 

E porquê? Porque quis ter bola e isso é meio caminho andado para os artistas brilharem. Sem o seu instrumento de trabalho, tornam-se como que invisíveis. 

O resultado (4-2) até foi simpático para Portugal, tendo em conta o que se passou em campo. Apesar de tudo o que foi conquistado recentemente, ninguém está (nem deve estar) imune à crítica e ao escrutínio, especialmente quando não se joga com a coragem que o estatuto de campeão Europeu exige.

Ao contrário do que aconteceu no passado, hoje talvez nenhum filho de emigrantes de segunda e terceira geração se vai enrolar à bandeira nacional e gritar para toda a Munique o orgulho de ser português.



 
Vítor Maia / enviado-especial a Munique