Cristiano Ronaldo está a acelerar para mais uma série de recordes com a camisola de Portugal. A passada que o capitão da Seleção impôs nos dois últimos jogos deu ainda outra dimensão ao fenómeno, que já tem a marca dos 100 golos por Portugal em ponto de mira e estará esta noite em campo frente ao Luxemburgo a tentar prolongar um ritmo goleador que é extraordinário, até para ele. Para deixar a Seleção mais perto do Euro 2020 e para ficar ele próprio ainda mais perto de se isolar lá em cima, como recordista de presenças em Europeus e o maior homem-golo da história do futebol de seleções. Alvalade vai viver mais um episódio dessa saga de 16 anos, alimentada pela notável longevidade do capitão de Portugal e por uma sede de ganhar que não abranda.

Ronaldo na seleção é a história de um menino que chegou com 18 anos e se fez grande como nenhum outro. Feita de tantos momentos épicos: o golo à Holanda que lançou Portugal para a final do Euro 2004, antes do outro bis à Laranja antes de marcar à Rep. Checa para embalar a campanha do Euro 2012, a magia em Solna a carimbar o bilhete para o Mundial 2014, o bis à Hungria e o golo a Gales antes do drama da final e da festa do Euro 2016, o hat-trick à Espanha no Mundial 2018 antes do outro à Suíça a mostrar o caminho para a final da Liga das Nações ou ainda agora o póquer à Lituânia. Feita também de frustrações, como as campanhas do Mundial 2010 e do Mundial 2014, feita ainda de períodos de seca e até de pausas. Jogou quatro fases finais do Mundial e quatro do Europeu, é campeão da Europa, marcou golos e mais golos. Tudo junto é uma história ímpar, provavelmente inigualável. Acima de tudo, ou como Fernando Santos arrumou o assunto agora na véspera do Luxemburgo, noutra galáxia.

Mas ainda há desafios no horizonte de Cristiano Ronaldo. E com quatro partidas por jogar no calendário para este ano, é arriscado afastar já o cenário de ele vir mesmo a atingir os 100 golos antes de acabar 2019. Mas para isso teria de se superar e conseguir o seu ano mais goleador de sempre na seleção. Mais longe por enquanto o recorde absoluto, os 109 golos do iraniano Ali Daei, o único que resta a Cristiano Ronaldo ultrapassar para se tornar o melhor goleador de seleções de sempre. Para isso, teria de continuar provavelmente para lá do Euro 2020 uma carreira que já vai longa e que quanto mais avança mais eleva a fasquia.

Olhemos então para dados que dão corpo ao fenómeno. Com o passar do tempo, o peso dos seus golos na seleção só aumentou. Foram oito anos para chegar aos 30 golos, mais quatro e meio para chegar aos 60 e pouco mais de três para atingir os 93 atuais, ao fim de 160 jogos com a camisola de Portugal. Com Fernando Santos, tem a incrível média de 0.93 golos por jogo, sendo que no consulado do atual selecionador mais de um terço dos golos apontados por Portugal são do capitão.

O ponto alto foi, claro, o ano da conquista do Europeu. 2016, também o ano em que marcou mais golos pela seleção, um total de 13. Mas no ano seguinte repetiu a média de um golo por jogo. E em 2018, mesmo tendo feito uma pausa na segunda metade do ano, quando não participou na qualificação da Liga das Nações, marcou seis em sete jogos. Este ano leva oito golos marcados em seis partidas, cinco deles nos dois jogos de setembro: um à Sérvia e um póquer à Lituânia.

Foram duas estreias. Ronaldo nunca tinha marcado a qualquer um desses adversários. E tem mais outro para tentar bater nesta dupla jornada de outubro. Ao Luxemburgo já marcou três golos, embora não seja uma das suas «vítimas» favoritas: marcou logo em 2004, numa goleada por 5-0 na qualificação para o Mundial, resultado idêntico ao do particular de agosto de 2011, onde fez mais um golo. E abriu caminho à vitória no último confronto que jogou com a seleção luxemburguesa, em setembro de 2019, no arranque da campanha para o Mundial 2014. A Ucrânia, por outro lado, é uma das 28 seleções que Cristiano já defrontou e a quem não conseguiu marcar.

Cristiano Ronaldo já fez golos a 40 seleções diferentes, tão incrível como isso. Quatro delas já sofreram cinco golos do avançado português, outras cinco já sofreram quatro. Entre as seleções que defrontou mais vezes sem marcar estão algumas das grandes potências, mas não só. Não marcou em quatro confrontos com França e Alemanha, mas também com… a Albânia. Também ficou em branco em três jogos com Inglaterra e Brasil, e em dois com a Itália, Turquia, Cabo Verde e Liechtenstein.

Os golos de Cristiano Ronaldo já fizeram a diferença muitas vezes. Marcou em 61 dos 160 jogos que fez pela seleção e 51 deles resultaram em vitórias. E alguns dos que não ganhou foram marcos na história da seleção: como o golo que garantiu o empate com a Hungria e ajudaria a assegurar o apuramento de Portugal na caminhada para o título no Euro 2016, ou o hat-trick no empate com a Espanha a abrir o Mundial 2018, a quebrar outro tabu para Cristiano, que nunca tinha marcado ao rival ibérico.

Esse foi um dos seis jogos em que marcou três golos pela seleção. O último deles foi à Suíça para a Liga das Nações, antes disso as vítimas foram as Ilhas Faroé, a Arménia, a Irlanda do Norte e a Suécia, no épico triunfo de Solna no play-off para o Mundial 2014. E houve dois jogos em que marcou quatro golos: antes da Lituânia, tinha feito um póquer a Andorra.

A grande maioria dos golos de Cristiano aconteceu em jogos oficiais. Apenas 17 dos 93 foram marcados em particulares, sendo que tem sete em fases finais do Mundial e é recordista em fases finais do Europeu, com nove, a par de Michel Platini. Com o póquer à Lituânia também se tornou o melhor marcador de sempre em qualificações para o Europeu, superando os 23 de Robbie Keane.

Outro dado: mais de metade dos golos que marcou foram fora de casa ou em campo neutro. Em Portugal apontou 40, mais cinco nas duas fases finais que jogou, o Euro 2004 e a Liga das Nações no verão passado.

São muitos golos e os primeiros 81, até ao Mundial 2018, estão aqui

Depois disso há mais história, como o hat-trick à Espanha na Rússia

Ou já este ano à Suíça, no Dragão, para a meia-final da Liga das Nações

E por fim o póquer à Lituânia, há um mês

 

Nesta altura Cristiano Ronaldo não tem par entre os goleadores em atividade pelas seleções. Lionel Messi, a nemesis do português nessa coisa à parte que é a carreira de ambos, leva 68 golos marcados pela Argentina em 136 jogos. Dois anos mais novo que Ronaldo, o argentino está no segundo lugar dos jogadores em atividade com mais golos: a par de um nome vagamente familiar aos portugueses, o indiano Sunil Chhetri, que foi jogador do Sporting. Dos jogadores que ainda representam as suas seleções, só Neymar supera de resto a barreira dos 60 golos. O brasileiro, aos 27 anos, tem 61 apontados pelo Brasil em 100 jogos. Robert Lewandowski chegou nesta quinta-feira aos 60, em 109 jogos pela Polónia.

Na lista dos melhores marcadores de sempre por seleções, Cristiano Ronaldo deixou para trás Ferenc Puskas e os seus 84 golos há mais de um ano. E os 47 golos do segundo melhor de Portugal, Pauleta, ficaram para trás em 2014. Agora só resta essa marca mítica do iraniano Ali Daei. Mas antes disso a barreira dos 100 golos por Portugal, para ele que também está a dois de atingir os 700 na carreira. E, claro, a qualificação para o Euro 2020. Se lá chegar, Cristiano Ronaldo fica outra vez sozinho no topo, o único a jogar cinco fases finais. E depois disso, provavelmente, continuará a encontrar novos desafios.

A começar já nesta sexta-feira, frente ao Luxemburgo.