As escavações arqueológicas deste ano no povoado do Outeiro do Circo, concelho de Beja, permitiram descobrir um troço de muralha da Idade do Bronze e documentar a presença de vestígios da Idade do Ferro, foi divulgado esta terça-feira.

A campanha de escavações deste ano no povoado, situado a cerca de 18 quilómetros da cidade de Beja e que é "um dos maiores da Idade do Bronze Final da Península Ibérica", decorreu entre os dias 3 e 28 de agosto, no âmbito de um projeto de investigação financiado pela Câmara de Beja e que arrancou em 2019 e terminará em 2021.

O "principal destaque" da campanha é a descoberta de um troço de uma muralha da Idade do Bronze, que "já era conhecida de trabalhos anteriores", disse à agência Lusa o diretor científico das escavações, o arqueólogo Miguel Serra.

Os trabalhos também permitiram "documentar a presença de vestígios da Idade do Ferro junto à muralha", "maioritariamente" materiais cerâmicos, incluindo diversas peças decoradas e alguns recipientes fragmentados e elementos de adorno metálicos, continuou.

"Estes indícios não permitem ainda esclarecer a natureza da ocupação do Outeiro do Circo durante a Idade do Ferro, período em que já estaria abandonado, mas continuaria ainda a ser frequentado pelas populações que habitariam sobretudo nas zonas de planície envolventes", frisou.

Segundo o responsável, o troço de muralha intervencionado este ano incidiu sobre uma área em melhores condições de preservação e que não sofreu afetações ou destruições recentes provocadas por trabalhos agrícolas, "ao contrário do observado na área de muralha escavada no âmbito de outro projeto de investigação que decorreu entre 2008 e 2013".

As escavações na zona da muralha também permitiram recolher "uma grande quantidade de materiais cerâmicos em bom estado de conservação", com destaque para cerâmicas "típicas do Sudoeste Peninsular durante o Bronze Final", outras peças decoradas, que "remetem para a existência de contactos com outras regiões mais afastadas", e "uma grande quantidade de ossos de animais, cujo estudo será essencial para o conhecimento das práticas pecuárias e cinegéticas".

No exterior do talude da muralha, foi detetado um fosso, que deverá ser escavado em 2021, disse o arqueólogo, referindo que as escavações na área adjacente à muralha para a zona interior do povoado também permitiram revelar outras "novidades".

Miguel Serra lembrou que "o objetivo dos trabalhos neste sector incidiam na necessidade de compreender uma possível estrutura habitacional descoberta nos trabalhos realizados em 2016 e 2017".

No entanto, explicou, o alargamento desta área de escavações permitiu verificar que os vestígios "correspondem na verdade a uma muro em pedra paralelo à muralha" e que o espaço entre as estruturas foi preenchido por diversas camadas de terra compactadas, "podendo o muro corresponder a um reforço ou a uma remodelação do sistema defensivo ocorrido ainda durante o Bronze Final".

O restante espaço intervencionado nesta zona permitiu continuar "a revelar sucessivas camadas de terra, compostas pelos barros pretos típicos da região", e a recolha de "grande quantidade de fragmentos cerâmicos, faunas, alguns artefactos em pedra relacionados com a prática agrícola e diversos elementos metálicos em cobre e bronze, como agulhas, punções, hastes indeterminadas ou nódulos de fundição, que "atestam a produção de peças de bronze no interior do povoado e incidem maioritariamente em objetos relacionados com o trabalho têxtil ou com elementos de adorno".

O Outeiro do Circo, que terá sido o grande centro de poder regional antes da cidade de Beja, que se desenvolveu a partir da Idade do Ferro, no século VII a.C., tem sido alvo de trabalhos arqueológicos desde 2008.

Os trabalhos do projeto de investigação que decorre desde 2019 e até 2021 têm como principal objetivo "clarificar a ocupação do espaço interior do povoado, documentando os aspetos do seu quotidiano e a respetiva articulação com as muralhas que o rodeavam na totalidade, e conhecer melhor as ocupações de períodos posteriores à Idade do Bronze, sobre as quais têm surgido alguns indícios nos últimos anos".

/ AM