O ex-ministro da Defesa, Azeredo Lopes admitiu esta segunda-feira na fase de instrução do processo sobre o furto de Tancos que recebeu uma chamada do chefe de gabinete em que este falou da recuperação das armas e teve conhecimento de uma chamada fabricada que denunciava que as armas estavam na Chamusca.

Azeredo Lopes disse ao juiz Carlos Alexandre que não fez nada porque não tinha o dever funcional de o fazer.

No tribunal de Monsanto, o arguido disse que recebeu uma chamada no dia 20 de outubro, depois de uma reunião no Ministério da Defesa, onde não esteve presente, mas onde estiveram Vasco Brazão, Martins Pereira e o coronel Luís Vieira. Não conseguiu, porém, precisar qual deles foi o autor da chamada que recebeu, dando conta do telefonema fabricado. 

Em comunicado enviado às redações já na noite de segunda-feira, Azeredo Lopes sublinhou que não revela o que disse em interrogatório, mas fez uma ressalva.

Posso e devo reafirmar, como sempre fiz, que nunca soube de qualquer encenação da entrega de armamento: se isso me tivesse sido comunicado, imediatamente teria participado às entidades competentes; jamais encobriria qualquer crime, fosse em nome do que fosse".

Ao que a TVI conseguiu apurar, o ex-ministro recebeu documentos antes da descoberta das armas que já eram do conhecimento da Procuradoria-Geral da República e que não indicavam uma investigação paralela.

O advogado de Azeredo Lopes disse que o ex-ministro respondeu a todas as questões durante sete horas.

Na manhã desta segunda-feira, o juiz de instrução do processo de Tancos manifestou-se perplexo com as versões divergentes sobre o caso do furto e recuperação das armas e esperava que o ex-ministro da Defesa e arguido Azeredo Lopes desempatasse.

Durante o interrogatório de Azeredo Lopes, o juiz Carlos Alexandre mostrou-se perplexo com as diferenças que existem nas versões do ex-diretor da Polícia Judiciária Militar e arguido Luís vieira e do antigo chefe de gabinete do ministro Martins Pereira.

Carlos Alexandre disse mesmo estar à espera que o ex-ministro desempatasse já que o ex-diretor da PJM apresentou uma versão e o chefe de gabinete Martins Pereira apresentou outra.

Segundo a acusação do Ministério Público, a recuperação do armamento furtado dos paióis de Tancos, em junho de 2017, deve-se a um “verdadeiro pacto de silêncio entre Azeredo Lopes e os arguidos da GNR, PJM e que todos criaram sérios obstáculos à descoberta da verdade material".

Azeredo Lopes demitiu-se do cargo a 12 de outubro de 2018.

Nove dos 23 arguidos do processo de Tancos são acusados de planear e executar o furto do material militar e os restantes 14, entre eles Azeredo Lopes, da encenação que esteve na base da recuperação do equipamento.

O inquérito de Tancos investigou o furto, em 28 de junho de 2017, e as circunstâncias em que aconteceu a recuperação de grande parte do material militar, em 18 de outubro do mesmo ano.

Vânia Ramos / Atualizada às 21:00