O autor confesso do furto das armas bélicas dos paióis de Tancos, João Paulino referiu em tribunal esta terça-feira que a ideia do assalto partiu de Paulo Lemos, conhecido por "Fechaduras".

Quando me contou aquilo eu, numa das idas ao Algarve, estou com o Nando (Fernando Guimarães), que vivia com o Paulo Lemos, e estávamos a falar e veio-me a ideia de lhe dizer desta situação de Tancos. E nós falámos, e ele disse que podíamos ir lá e podíamos tirar o que lá há e tirar lucro”, disse João Paulino em tribunal.

Paulino referiu que teve conhecimento da fragilidade de segurança nos paióis de Tancos durante a sua presença num restaurante em Aveiro com Valter Abreu, conhecido por "Pisca".

Essa conversa do “Pisca” me contar sobre o que o sobrinho lhe disse da fragilidade de segurança nos paióis foi num restaurante em Aveiro. E disse-me que aquilo não tinha segurança nenhuma, tinha câmaras mas estavam todas estragadas e não funcionavam”, conta Paulino.

O autor confesso adianta que esteve com Filipe Sousa, sobrinho de Valter Abreu, no seu bar.

Sei que o Pisca esteve a jogar bilhar e eu estive a falar com o Filipe Sousa. Falámos sobre a vida militar e depois começámos a falar dos paióis". Na conversa, o sobrinho de "Pisca" descreveu Tancos como uma  “rebaldaria, que nem parecia um quartel militar.”

João Paulino esclarece que após tomar conhecimento das condições de segurança do quartel militar de Tancos, decidiu propor a ideia do assalto a Fernando Santos, Gabriel Moreira e António Laranjinha, sublinhando que um amigo lhe tinha falado "uma situação que dá para ganhar um bom dinheiro para ir roubar".

Paulino perguntou ao grupo, reunido num bar, se queriam ir visitar Tancos com ele, mas eles "não acharam graça e desistiram da ideia".

Após a reunião com o grupo, João Paulino não desistiu da ideia e viajou até Espanha para comprar um saca-cilindros, o mesmo utilizado para abrir os paiolins militares, recomendado por Paulo Lemos.

Na segunda sessão de julgamento que decorre em Santarém, o ex-fuzileiro relatou de uma forma cronológica, que foi numa noite de difícil visibilidade, como o assalto foi preparado e executado e no qual participaram os arguidos João Pais e Hugo Santos.

Questionado sobre porque foram assaltados aqueles dois paióis {14 e 15], João Paulino afirmou:”foi por acaso, fomos para o lado esquerda e eram os que estavam mais junto à rede. Não sabia que material continham, mas eu fui militar e sabia que os paióis não têm ramos de rosas nem chupas chupas”.

O assalto, segundo Paulino, foi cometido na noite de 27 para 28 de junho de 2017 por ele próprio e pelos arguidos Hugo Santos e João Pais, após ter sido feito um primeiro reconhecimento aos paióis por parte dos arguidos Fernando Santos, António Laranginha e Gabriel Moreira, que desistiram de participar no furto.

João Paulino de "consciência tranquila" por esclarecer "tudo o que se passou"

O advogado de João Paulino declarou que o arguido saiu da audiência de julgamento de "consciência tranquila", por "ter esclarecido o tribunal sobre tudo o que se passou".

Melo Alves reconheceu que a iniciativa do furto partiu de João Paulino, com base em informações obtidas junto do arguido Paulo Lemos (conhecido por “fechaduras”), e vincou que o seu constituinte "sempre afastou" a prática do crime de terrorismo, negando qualquer ligação com a ETA, considerado como um movimento separatista e terrorista basco.

Confrontado pelos jornalistas com as declarações de João Paulino na audiência de que a escolha do material de guerra furtado foi feito sem critério - "ao calhas" foi a palavra usada -, Melo Alves sublinhou que, independentemente da gravidade dos factos, isso é uma questão "indiscutível", tratando-se de uma "coisa mais ou menos de amadores".

Acerca do facto de João Paulino ter falado em julgamento sobre a identidade dos cúmplices no furto das armas, Melo Alves revelou que o seu cliente "sempre insistiu" que deveria indicar quais as pessoas que foram "comparticipantes com ele no furto", tendo consumado esse propósito.

O advogado realçou contudo que "o local indicado" para se apurar a verdade e fazer a produção de prova é a "audiência de julgamento".

Em resposta aos jornalistas, Melo Alves confirmou que, segundo a versão do ex-fuzileiro, as armas furtadas estiveram desde o início em Penela (concelho do distrito de Coimbra), tendo o arguido recentemente devolvido o material militar que faltava e que continuava a estar guardado no mesmo local.

O advogado sublinhou que a devolução das armas furtadas feita por João Paulino é, neste tipo de casos, a "melhor forma de arrependimento" do arguido, que, ao invés de ter vendido o material, decidiu devolvê-lo.

Melo Alves tem dito reiteradamente que a devolução das armas por João Paulino e a sua colaboração na descoberta da verdade é um meio de o seu cliente vir a alcançar uma atenuação especial da pena no final do julgamento.

João Paulino é apontado pelo Ministério Público como autor do furto de armas da base militar de Tancos, tendo o arguido já assumido o crime, estando ainda acusado de detenção de cartuchos e munições proibidas e associação criminosa, tráfico e mediação de armas, terrorismo e tráfico e outras atividades ilícitas.

O processo de Tancos tem 23 acusados, incluindo o ex-ministro da Defesa, o diretor nacional da Polícia Judiciária Militar (PJM) Luís Vieira, o ex-porta-voz da PJM Vasco Brazão que respondem por um conjunto de crimes que vão desde terrorismo, associação criminosa, denegação de justiça e prevaricação até falsificação de documentos, tráfico de influência, abuso de poder, recetação e detenção de arma proibida.

Nove dos arguidos são acusados de planear e executar o furto do material militar e os restantes 14, entre os quais Azeredo Lopes, que se demitiu do cargo político no seguimento do processo, e os dois elementos da PJM, da encenação que esteve na base da recuperação do equipamento.

Vânia Ramos / Atualizado às 19:16 com Lusa