Após a demissão na semana passada do diretor clínico do Hospital de Setúbal, Nuno Fachada, a Ordem dos Médicos, sindicatos e diretores de serviço do Hospital de Setúbal reuniram-se de emergência por causa da falta de médicos e das várias demissões naquela unidade hospitalar.

No final da reunião de emergência, o presidente do conselho sub-regional da Ordem dos Médicos, Daniel Travancinha, veio esta quarta-feira avançar que "há 87 pedidos de demissão de diretores de serviço e diretores de unidades funcionais do Hospital de São Bernardo".

Após a queda da capa da pandemia para a justificação das lacunas graves, mantêm-se a falta de investimento na fixação de médicos e outros profissionais de saúde, quer em condições de trabalho, quer em incentivos materiais", continuou, lembrando que faltam médicos e que há um "envelhecimento humano do Serviço Nacional de Saúde (SNS)".

Daniel Travancinha lembrou que abrem vagas no SNS para jovens especialistas que acabam por não ser ocupadas por não terem "incentivos mínimos de qualidade de trabalho", levando os profissionais a optar pelas mesmas (ou melhores) condições em instituições privadas ou no estrangeiro.

O clínico lembrou que a situação é grave "no país, mas particularmente grave no Hospital São Bernardo".

A situação é de rutura com a possibilidade muito em breve no encerramento de serviços essenciais como ginecologia e obstetrícia, oncologia e défice gravíssimo de muitos outros serviços", rematou Daniel Travancinha.

Nuno Fachada, o agora ex-diretor clínico do Hospital de Setúbal, falou também aos jornalistas.

O pedido de demissão do cargo de diretor clínico do Centro hospitalar de Setúbal e agora, da restante direção clínica, diretores de serviço e departamento, coordenadores de unidade e comissões e ainda chefes de equipa de urgência, num total de 87 assinaturas, é o último grito de alerta para a situação desesperante a que o centro chegou e à rutura das urgências e em vários serviços primordiais do hospital", começou por dizer Nuno Fachada, avançando que os profissionais estiveram reunidos por melhores condições e que os pedidos de demissão se prendem pela "defesa do SNS".

Um dos serviços em maior rutura é o de Ginecologia e Obstetrícia, como explicou Pinto de Almeida, diretor do serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Centro Hospitalar de Setúbal.

O serviço deveria ter 23 médicos especialistas. Atualmente, tem 11. Desses 11, oito têm mais de 55 anos. Desses oito, dois estão a aguardar resposta da Caixa-Geral de Aposentações", avançou o clínico, como forma de revelar a situação precária no que toca aos recursos humanos naquele hospital.

Apesar da informação avançada nesta conferência, fonte oficial do Centro Hospitalar de Setúbal confirmou à Lusa esta quarta-feira ao final do dia que, até ao momento, teria recebido apenas o pedido de demissão do diretor clínico, Nuno Fachada.

Na mesma informação, o Conselho de Administração do CHS adiantou que recebeu também uma moção enviada pela Ordem dos Médicos, “em que alguns clínicos do hospital manifestam `partilhar a sua apreensão´ sobre os motivos que presidiram à tomada de decisão do diretor clínico”.

Recorde-se que, esta segunda-feira, o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, anunciou que ia recrutar 10 médicos de diferentes especialidades para o Centro Hospitalar de Setúbal, assim como lançar o concurso internacional para as obras de ampliação.

De lembrar que há cerca de duas semanas a TVI24 noticiou que uma enfermeira do serviço de urgência daquela unidade hospitalar denunciou a "angústia e desespero" por não se poder prestar o atendimento devido aos doentes, revelando que havia dezenas de doentes em macas nos corredores do hospital.