António Ramalho Eanes, antigo Presidente da República, alertou esta segunda-feira para a "megacrise social, económica e sanitária" que Portugal atravessa, devido à covid-19, sublinhando que é inadmissível "que existam portugueses com fome".

O país atravessa uma crise de que não há memória. Não é uma crise, é uma megacrise social, económica, sanitária e também de valores", afirmou.

O antecessor de Mário Soares apelou ainda ao Governo para que olhe com especial cuidado para a economia, para que o tecido produtivo português não fique "destruído por completo", lançando ainda mais portugueses para o desemprego e para patamares de pobreza profunda.

Na entrevista dada a Miguel Sousa Tavares, Ramalho Eanes criticou ainda a situação "dramática" vivida nos lares portugueses durante a terceira vaga, num país que entende que todos os cidadãos merecem respeito e dignidade, frisando que o que se pode testemunhar deixou a nu uma situação até agora desconhecida por uma parte considerável dos portugueses.

Chegámos à conclusão de que afinal os lares eram um depósito de velhos", alertou.

Durante a entrevista, o general apelou ainda ao Governo para atuar com base "na previsão, na estratégia e na gestão", pondo "inteiramente de parte" da sua ação governativa as questões "de natureza ideológica" e traçar uma estratégia "que o povo perceba" e que acabe por mobilizar a nação.

Esta crise é de todos e todos nós temos de nos empenhar para a ultrapassar. É aqui que aqueles mais instruídos e que mais receberam do país têm a obrigação de dar ao país tudo o que podem", afirmou.

Questionado sobre a atuação de Marcelo Rebelo de Sousa, o general foi evasivo, lembrando que se esforça para não comentar o trabalho dos seus sucessores. No entanto, confessou-se "agradavelmente surpreendido" com a prestação do atual Presidente da República.

Racismo e o passado colonial português

Numa lógica de aprender com os erros do passado, Ramalho Eanes falou ainda sobre as suas declarações acerca do passado histórico do país e que papel ele deve ter no futuro da nação. 

Eu entendo que, perante esta situação pandémica grave, nós devemos refletir sobre o que o país tem feito, o que o país deveria fazer e o que o país não fez e devia fazer. Porquê? Para retificarmos o nosso percurso e encontrarmos um percurso estratégico que nos mobilize e nos faça sentir uma nação, uma pátria com o interesse de defender o coletivo", explicou.

O antigo Presidente da República entende que o debate que estava a ser feito pretendia "sanear a nossa história" e explica que a história é para ser "aceite tal como aconteceu" e “colher lições” para que não se volte a repetir os mesmo erros. 

Confrontado com a sua declaração de que "Portugal seria uma Catalunha mas mais pequena" se não fossem os descobrimentos, o general afirma que as descobertas fizeram com que o "mundo se abrisse", mudando-o para todo o sempre.

Nós abrimos caminho ao Newton e a Galileu. Não nos devemos orgulhar dessa nação?”, questionou.

No entanto, a sombra do passado colonial português continua a perseguir a memória histórica do país e Ramalho Eanes admite que "na nossa guerra", a guerra Colonial, existiram exageros. 

Nós temos uma tendência perversa para simplificar aquilo que é extremamente complexo. Qual foi a guerra sem danos colaterais? Qual foi a guerra ‘limpa’?", perguntou.

Ramalho Eanes teceu ainda duras críticas "aqueles que olham para a guerra de uma maneira ideológica" e não conseguem "analisar a guerra em todos os seus aspetos”.