O escritor e filólogo Frederico Lourenço venceu o Prémio Pessoa 2016, que distingue uma personalidade com intervenção relevante e inovadora na vida artística, literária ou científica do país, anunciou esta sexta-feira o júri, em Sintra.

No ano passado, foi distinguido Rui Chafes, o primeiro escultor a receber o galardão.

Frederico Lourenço, professor universitário, conhecedor das literaturas clássicas, tradutor de Homero, publicou este ano o primeiro volume da nova tradução da Bíblia Grega, "Septuaginta”, o primeiro volume de uma série de seis, com os quatro Evangelhos canónicos, de Mateus, Marcos, Lucas e João.

O prémio, que distingue há 30 edições uma personalidade de nacionalidade portuguesa, no valor de 60 mil euros, é uma iniciativa anual do jornal Expresso, com o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos.

O júri do Prémio Pessoa 2016 foi constituído por Francisco Pinto Balsemão (presidente), António Domingues (vice-presidente), António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Eduardo Souto de Moura, José Luís Porfírio, Maria Manuel Mota, Maria de Sousa, Mário Soares, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião, Rui Vieira Nery e Viriato Soromenho-Marques.

O galardão é concedido anualmente "a uma pessoa de nacionalidade portuguesa que durante esse período, e na sequência de uma atividade anterior, tiver sido protagonista de uma intervenção particularmente relevante e inovadora na vida artística, literária ou científica do país", segundo o regulamento.

O escritor e filólogo Frederico Lourenço, vencedor do Prémio Pessoa 2016, afirmou à agência Lusa ter ficado "muito sensibilizado" com o reconhecimento do seu trabalho, mas também da importância que os estudos clássicos continuam a ter.

Fiquei atordoado, completamente sem palavras", depois do telefonema feito pelo presidente do júri, Francisco Pinto Balsemão, pouco antes de o prémio ser anunciado, conta Frederico Lourenço, que está a ter "uma tarde estranha", com o seu telemóvel a não parar de tocar, algo que raramente acontece.

Para Frederico Lourenço, professor associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o prémio, que o deixou "muito feliz e muito sensibilizado", é o reconhecimento do seu trabalho enquanto docente universitário "na área de estudos clássicos" e enquanto tradutor de textos de grego antigo.

O galardão que lhe foi hoje atribuído é também "muito importante para as pessoas terem consciência da existência e da importância dos estudos clássicos, tanto o grego como o latim", sublinha o filólogo que ganhou uma "apetência" pela língua grega, ao fim de duas semanas, depois de começar a estudar Línguas e Literaturas Clássicas na Universidade de Lisboa.

As duas línguas, frisa, "devem continuar a ser estudadas e ensinadas no país, idealmente no ensino secundário e no ensino universitário".

São línguas que nos dão acesso a uma cultura, a uma literatura, a um universo que nos é importante para refletir os caminhos do futuro", vincou.

O Prémio Pessoa 2016 nasceu em Lisboa, em 1963, é licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas na Universidade de Lisboa, onde fez o doutoramento com uma tese sobre os cantos líricos de Eurípides ("The Lyric Metres of Euripidean Drama"), e onde lecionou, de 1988 a 2009, antes de assumir o lugar de professor associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se mantém.

Frederico Lourenço, que é escritor, tradutor e professor, entende que é a docência aquilo que mais o define de todas as coisas que faz.

Gosto muito de estudar assim como de ensinar o grego, que é algo que faço com paixão e empenho".

A tradução de grandes obras da literatura grega antes e depois de Cristo é outra atividade que faz "por paixão", mas também por "sentir que é importante que isso seja feito".

Depois de acabar de traduzir de forma integral a Bíblia grega, o docente afirma que quer "continuar a fazer investigação no primeiro cristianismo [os primeiros 100 anos após Cristo]".

Nos últimos vinte anos, Frederico Lourenço traduziu a "Ilíada" e a "Odisseia", de Homero, bem como duas tragédias de Eurípides, "Hipólito" e "Íon", e lançou este ano o seu mais recente projeto, o primeiro volume - do total de seis - da tradução integral da Bíblia, para português, a partir das fontes gregas.

O júri do Prémio Pessoa 2016 sublinhou hoje, em Sintra, que a atividade do escritor e filólogo Frederico Lourenço tem como "traço singular" ter oferecido "à língua portuguesa as grandes obras de literatura clássica".

O galardoado "constitui um exemplo de disciplina, capacidade de trabalho e lucidez intelectual no elevado plano dos estudos clássicos e humanísticos, parte fundamental da vida cultural e científica dos países desenvolvidos", salientou o presidente do júri, Francisco Pinto Balsemão, sobre a escolha.

Redação / AR