A Ordem dos Enfermeiros garantiu esta terça-feira que não houve nenhuma situação durante a greve em blocos operatórios que tenha posto em risco a vida de doentes.

Não há nenhuma situação que tenha colocado em risco a vida de ninguém", afirmou a bastonária da ordem, Ana Rita Cavaco, aos jornalistas no final de uma reunião que teve em Lisboa com os sindicatos que convocaram a greve e com os enfermeiros diretores dos cinco hospitais onde decorre a “greve cirúrgica”.

A bastonária explicou que esta reunião serviu essencialmente para perceber como está a situação nos hospitais e para esclarecer como estão a decorrer os serviços mínimos.

Segundo a Ordem, os enfermeiros estão a trabalhar além dos serviços mínimos que o tribunal arbitral decretou para esta greve.

Espero que não haja outra classe profissional a tentar amedrontar as pessoas e a tentar cavalgar uma greve que não é deles, é dos enfermeiros", afirmou Ana Rita Cavaco.

Embora a bastonária não se tenha referido diretamente aos médicos quando falou de outra classe profissional, a Ordem dos Médicos disse já na semana passada que havia doentes graves e prioritários que estavam a ser prejudicados pela greve dos enfermeiros.

"Inaceitável", que Governo não negoceie

A Ordem dos Enfermeiros considera também inaceitável que o Ministério da Saúde não negocie com os sindicatos que convocaram a greve em blocos operatórios e lembra que o Governo negociou com os estivadores durante uma paralisação.

A bastonária Ana Rita Cavaco respondeu ao primeiro-ministro, que considerou a greve dos enfermeiros inaceitável, afirmando que "o que não é aceitável é que o Governo não queira negociar".

O Ministério da Saúde suspendeu as negociações com os dois sindicatos que convocaram a greve em blocos operatórios quando a paralisação começou.

Se há uma ministra que negoceia com os sindicatos dos estivadores em greve, e bem, certamente a ministra da Saúde poderá fazer o mesmo, estando dentro do mesmo Governo", declarou a bastonária aos jornalistas, no final de uma reunião sobre a greve com os sindicatos e com os enfermeiros diretores dos hospitais onde decorre a paralisação.

Sobre os efeitos da greve, a bastonária sublinhou que até hoje nenhuma situação colocou em risco a vida dos doentes e lamentou que tenham sido proferidas afirmações para tentar denegrir a imagem dos enfermeiros.

A este propósito, Ana Rita Cavaco adiantou, por exemplo, que no hospital Santa Maria foram operadas 30 crianças desde o início da greve.

No final da semana passada, a administração do hospital tinha vindo referir que nenhuma criança tinha sido ainda operada desde o início da greve dos enfermeiros.

Recolha de fundos

O movimento de enfermeiros que recolheu fundos para a greve prolongada em blocos operatórios lançou uma nova angariação de dinheiro, pretendendo juntar 400 mil euros para uma nova fase de paralisação.

Catarina Barbosa, representante do movimento que se denomina "greve cirúrgica", esteve numa reunião na Ordem dos Enfermeiros e adiantou que a nova recolha de fundos arrancou hoje.

Este movimento, que esteve na base da greve que decorre até ao final do mês em blocos operatórios, tinha conseguido cerca de 360 mil euros para apoiar os grevistas que ficarão sem salários na atual paralisação, em curso há quase três semanas.

Agora é lançada outra recolha pública de fundos, através de uma plataforma na Internet, para uma segunda fase de greve em blocos cirúrgicos, que ainda não tem data marcada.

Os enfermeiros pretendem angariar 400 mil euros até meados de janeiro.

Segundo disse aos jornalistas Catarina Barbosa, a nova greve será semelhante à paralisação em curso, mas ainda não estão definidas nem as datas nem os blocos operatórios que vai afetar.

Segundo o Sindicato Democrático dos Enfermeiros, um dos dois que convocou a greve, a atual paralisação já levou ao adiamento de cerca de seis mil cirurgias.

A “greve cirúrgica” dos enfermeiros, que se iniciou a 22 de novembro e termina a 31 de dezembro, está a decorrer nos blocos operatórios do Centro Hospitalar Universitário de S. João (Porto), no Centro Hospitalar Universitário do Porto, no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte e no Centro Hospitalar de Setúbal.

Os enfermeiros têm apresentado queixas constantes sobre a falta de valorização da sua profissão e sobre as dificuldades das condições de trabalho no Serviço Nacional de Saúde, pretendendo uma carreira, progressões que não têm há 13 anos, bem como a consagração da categoria de enfermeiro especialista.

A paralisação foi convocada pela Associação Sindical Portuguesa de Enfermeiros (ASPE) e pelo Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal (Sindepor).