O Automóvel Clube de Portugal (ACP) defendeu, esta quinta-feira, que o projeto previsto para a praça de Espanha, em Lisboa, apresenta “uma série de fragilidades técnicas”, como a falta de medidas para atenuar o aumento de tráfego nas ruas adjacentes.

Num parecer divulgado, o Observatório do ACP considera que “o estudo de reordenamento viário da praça de Espanha foi criado com base num cenário pessimista de crescimento de tráfego (…) em face de um aumento de crescimento na taxa de desemprego e diminuição do poder de compra”.

O documento acrescenta que o estudo de reordenamento viário “não avalia os efeitos nas zonas adjacentes à praça, nomeadamente ao nível da redução de estacionamento e pressão viária”, nem “menciona quais as medidas de gestão, circulação e estacionamento previstas” para essas ruas, “sem capacidade para receber estes novos fluxos”.

No novo desenho viário para a praça de Espanha, que vai ser transformada em dois grandes cruzamentos, “nota-se a criação de uma barreira física com cerca de dez vias no eixo avenida dos Combatentes – avenida António Augusto Aguiar”, que vai “criar perturbações diretas nas ligações e atravessamentos pedonais na futura ligação ao Parque Urbano da praça de Espanha, bem como um acréscimo nas velocidades praticadas”.

O parecer nota também que “está previsto um avolumar de importantes taxas de tráfego, com efeitos nefastos ao nível da poluição atmosférica e ruído, em virtude da retenção e demora no atravessamento dos novos cruzamentos propostos para este eixo”.

Por outro lado, são apresentados no estudo valores de crescimento de tráfego muito preocupantes para a avenida Columbano Bordalo Pinheiro”, sendo que a solução futura para a praça de Espanha “não assegura a capacidade oferecida pela solução atual, satisfazendo apenas 70% da procura estimada”.

O Observatório do ACP sublinha ainda que “qualquer análise e apreciação técnica mais aprofundada ao Estudo de Reordenamento Viário da Praça de Espanha apresentado ficará sempre condicionada face à sua desatualização relativamente a outras operações e projetos previstos/em execução para a zona envolvente à praça”, nomeadamente “a Operação Integrada de Entrecampos, que criará mais 15 mil novos empregos e dois mil habitantes".

Apesar da virtude na requalificação e criação de múltiplos espaços públicos de lazer em toda a zona de intervenção”, é “manifesta a criação de novas barreiras aos futuros atravessamentos pedonais, resultantes do redesenho viário proposto”, destaca, igualmente, a ACP.

O parecer defende que a “distribuição dos novos ciclos semafóricos apresentados para os dois cruzamentos principais no acesso” das avenidas de Berna e Santos Dumont com as avenidas António Augusto de Aguiar e dos Combatentes, respetivamente, “parecem vir a comprometer de futuro a utilização da nova praça de Espanha, com destaque para os cidadãos com mobilidade condicionada, entre eles crianças e idosos”.

Relativamente à questão dos transportes públicos, o observatório denuncia que “não fica claro” quais as “medidas que vão reforçar a presença e defesa da rede de transportes públicos no atravessamento da nova praça de Espanha”.

No presente projeto não é estudada e avaliada a integração do atual terminal da praça de Espanha e a sua transferência para Sete Rios. Destaca-se a ausência de um redesenho no acesso das carreiras provenientes da margem sul – TST e Carris – que atualmente servem e utilizam este terminal”, pode ler-se no documento.

O ACP refere também que o projeto rodoviário apresentado para a zona de intervenção da praça de Espanha “foi sempre apresentado como facto consumado desde o início da fase da discussão pública”.

O parque da praça de Espanha, que deverá estar concluído em 2020, vai contar com “um número muito significativo de árvores”, zonas de “clareiras de fruição”, parques infantis, esplanadas e quiosques, retomando a água como “elemento central” do espaço, disse o presidente da câmara, Fernando Medina, na apresentação do projeto na segunda-feira.