D. Américo Aguiar, bispo auxiliar de Lisboa, admitiu este domingo à TVI que casos de abusos sexuais ainda acontecem hoje na igreja portuguesa.

Questionado, em entrevista no Jornal das 8, sobre se a realidade deste crime ainda está presente no tecido eclesiástico nacional, D. Américo Aguiar disse: "Parece-me que sim".

Porque eu digo assim, aconteceu nos anos 60, 70, 80, 90. Aconteceu, lamentámos, temos de corrigir e acompanhar as vítimas, mas a mim dói-me ainda mais quando acontece hoje", sublinha o bispo auxiliar de Lisboa.

O bispo explica ainda que não sabe se a dimensão é significativa. "Aquilo que o Papa nos pediu é tolerância zero e é o que estamos a aplicar. Temos aprendido que existem casos, não sabemos qual é a dimensão, mas só um é grave", afirma.

Nos últimos dois anos, D. Américo Aguiar diz que tem sido feito "um esforço de acompanhar essa realidade transversalmente" e sublinha a dor que é assistir a isso na igreja, destacando que "não há mais grave do que isso".

As declarações do bispo auxiliar de Lisboa surgem após a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) ter decidido criar uma comissão nacional para acompanhar casos de abuso de menores no seio da Igreja e proceder a um apuramento histórico desta realidade.

Para que esta comissão cumpra o seu objetivo, destaca, "é preciso criar um ambiente de confiança para que uma pessoa possa partilhar ferida profunda do flagelo dos abusos sexuais".

Temos estado a tentar criar um quadro de total confiança", afirma D. Américo Aguiar.

Questionado sobre se há um horizonte temporal para que as vítimas possam assumir aquilo por que passaram, o bispo reitera que não e parafraseia D. José Ornelas Carvalho, presidente da CEP. "Se há uma pessoa que tem 90 anos e que relata um episódio que aconteça há 80 anos, temos de os acolher do mesmo modo".

Sobre a "justiça" e o "apoio" às vítimas, prometidos por esta nova comissão nacional, D. Américo Aguiar pede emprestadas as palavras do Papa Francisco. "Quando estamos a falar de um acontecimento destes é uma ferida profunda que nunca sara".

Tudo o que nós podemos fazer é muito paliativo daquilo que possa ser o sofrimento de alguém que, numa pessoa de referência para si, de confiança total, um eclesiástico, aproveitou esse contexto para fazer exatamente isso (abusos sexuais)", aponta, referindo que nunca será possível acertar contas com "a caminhada de vida" das vítimas.

D. Américo Aguiar defende ainda que a igreja deve contar com todos os especialistas, desde do ramo da justiça à da psicologia, para auxiliar as possíveis vítimas, "independentemente do seu posicionamento sobre o caminho da igreja neste assunto".